Os números colossais da Odisseia-mania

Os números colossais da Odisseia-mania

O poema épico da Grécia Antiga que trouxe de volta as grandes bilheterias de Hollywood e está mexendo com o mercado editorial

A Odisseia, adaptação do poema de Homero dirigida por Christopher Nolan, chegou aos cinemas em 17 de julho com expectativas dúbias.

A favor: uma produção de Nolan, câmeras IMAX exclusivas e um elenco estrelado com Matt Damon, Zendaya, Robert Pattinson, Tom Holland, Anne Hathaway, Lupita Nyong'o e Charlize Theron. Contra: um épico grego de três horas de duração, com classificação indicativa para maiores de idade.

O filme arrecadou US$ 123,5 milhões na estreia e, ao contrário da tendência de queda expressiva no segundo fim de semana, recuou apenas 30% — a menor queda da história entre todos os filmes que estrearam acima de US$ 100 milhões. 

O sucesso de um blockbuster é medido pelo desempenho no segundo fim de semana em cartaz. Um filme pode estrear com números gigantescos e ainda assim perder força rapidamente.

Após dois fins de semana, A Odisseia soma US$ 286,4 milhões nos EUA e US$ 639,6 milhões no mundo e segue em ritmo acelerado a caminho do US$ 1 bilhão. 

O sucesso absoluto se explica, em partes, pelo formato. A Odisseia é o primeiro longa filmado somente com câmeras IMAX em película de 70 mm, o que transformou a experiência em um atrativo por si só. Para gravá-lo, Nolan usou 18 quilômetros de rolo de filme. 

As salas IMAX 70 mm, disponíveis em apenas 41 locais no mundo – lista que não inclui o Brasil –, registraram média de US$ 126 mil por tela.

Por aqui, o fenômeno segue. Até 6 de agosto, todas as salas IMAX do país estão dedicadas exclusivamente ao filme. A Cinesystem chegou a abrir sessões extras em São Paulo, às 10:30, para atender à demanda. O País possui 12 salas neste formato, sendo três em São Paulo, nos shoppings JK Iguatemi, Anália Franco e Bourbon. 

As pré-vendas iniciais registraram cerca de 150 mil ingressos vendidos e US$ 3,4 milhões em apenas 24 horas, um mês antes da estreia do filme. A demanda intensa levou sites de venda de ingressos a sair do ar e anúncios de revenda no eBay chegaram a US$ 1.500 por ingresso.

Cerca de metade dos espectadores do fim de semana de estreia tinha entre 18 e 34 anos, uma faixa etária que tem ajudado o filme a manter as salas cheias muito além da estreia.

A adaptação para os cinemas do poema grego por Christopher Nolan reacendeu o interesse pelo clássico milenar. Traduções, podcasts e audiolivros têm tornado o universo de Homero mais acessível.

O The Guardian chegou a publicar “um guia de idiotas para lerem A Odisséia,” assumindo a missão de tornar mais acessível aquilo que parecia inacessível. Fizemos algo parecido em segunda edição impressa, com a matéria assinada por Jerônimo Teixeira.

No jornal britânico, o jornalista relata sua própria dificuldade em atravessar o épico de Homero e compartilha o caminho que encontrou para tornar a obra mais acessível, entre idas ao museu para estudar o contexto da Grécia Antiga a ouvir podcasts sobre mitologia.

As vendas do livro já vinham crescendo desde o anúncio do filme, em dezembro de 2024, com alta de 42% em 2025 em relação a 2024. Com o lançamento do filme, as vendas acumuladas no ano nos EUA subiram 76%, segundo a Circana BookScan. No Reino Unido, o aumento foi de 70% em relação a 2025. A tradução mais vendida é a de Emily Wilson, publicada pela W.W. Norton.

O fenômeno também chegou aos audiobooks. Segundo o Spotify, A Odisseia já soma mais de 43 anos de reprodução contínua na plataforma, em versões narradas em 10 idiomas. 

As escutas cresceram 240% em junho e tiveram alta superior a 500% no dia da estreia do filme. Entre os ouvintes, jovens adultos são maioria: Millennials e Geração Z representam 81% da audiência.

O dado que mais choca é o aumento nas buscas no Reino Unido por "aprender grego" no Google, que subiram 5.000% nas duas semanas após o lançamento.

Quase três mil anos depois de ser escrito, A Odisseia de Nolan é a prova de que uma boa história não morre jamais.

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