Ao pé da letra com Gregorio Duvivier
Gregorio Duvivier

Ao pé da letra com Gregorio Duvivier

Com tiradas corriqueiras e quase ingênuas, o ator e escritor, aplaudido por 305 mil pessoas no teatro, publica crônicas divertidas sobre as diferentes formas de empregar a linguagem no cotidiano

Bastante comum é uma obra literária de sucesso render uma adaptação teatral. Com Aos Pés da Letra (Companhia das Letras) o novo livro de Gregorio Duvivier, o caminho foi inverso. A peça O Céu da Língua, um fenômeno dos palcos, que, desde novembro de 2024, já foi vista por 305 mil pessoas em 280 sessões, ganhou um desdobramento ao alcance das mãos dos leitores.

Em O Céu da Língua, Duvivier explora referências ao poeta Luís de Camões (1524-1580) e ao compositor Caetano Veloso com a mesma naturalidade que evoca comentários das duas filhas, Marieta e Celeste, ou explica o sentido de metáforas como “batata da perna” e “pisando em ovos”. Foi essa sacada de que a poesia permeia o cotidiano que consagrou o espetáculo. 

Sob a direção de Luciana Paes, a peça fica em cartaz no Teatro Casa Grande, no Rio, até o dia 7, segue para o sul do País e, entre julho e agosto, percorre dez cidades do Nordeste em uma agenda que não deve perder o fôlego tão cedo. “Eu não esperava mesmo que a língua e a poesia fossem assuntos tão fascinantes para os brasileiros”, diz Duvivier em entrevista ao Page9. “Acho que o público percebeu como gostamos de usar o idioma de uma forma inventiva.”

O livro segue a fórmula do original teatral com as devidas adaptações. Em Aos Pés da Letra, o autor converte em crônicas histórias que soariam banais não fosse a fluência da narrativa concisa e divertida. A linguagem do palco é diferente da impressa, e Duvivier adotou uma prosa explicativa, oferecendo ferramentas para cada leitor conceber as próprias imagens.

Espontaneamente, Duvivier traz à tona as diferenças entre as dramaturgias e as crônicas, contos ou romances. Para ele, as publicações de teatro são interessantes como documento ou para uma leitura em voz alta, mas não despertam o mesmo prazer de um bom exemplar literário. O texto teatral é para ser visto no palco. “É como um animal fora do seu habitat”, compara. “Mesmo que a inspiração seja a mesma, eu fiz um livro para ser lido.” 

O autor alcança o objetivo com maestria nas crônicas de Aos Pés da Letra. Em Gregorio, por exemplo, ele volta à infância para expor o trauma de ter um nome de difícil pronúncia e preferir se apresentar como Felipe ou João Paulo. O tema ressurge sob outra perspectiva em Jennifer para falar da responsabilidade dos pais ao batizar um filho com uma identidade que irá acompanhá-lo vida afora.

O tom discursivo aparece nas narrativas sobre os diversos sentidos da palavra “graça”, o duplo significado de “perereca”, a impossibilidade de traduzir “capricho” para o francês ou a transformação do termo “sinistro” em gíria. A redundância inspira o texto Amigo Pessoal e a relação afetiva com as palavras e o abuso dos diminutivos são explorados em Inhos.

Com essas tiradas corriqueiras e quase ingênuas, Duvivier abriu os olhos e os ouvidos de um público que poderia torcer o nariz para a poesia e talvez jamais tenha prestado atenção às figuras de linguagem. O artista, disposto a ampliar os horizontes, começou a criar a dramaturgia de uma versão infantil de O Céu da Língua, prevista para chegar aos palcos no ano que vem, uma nova derivação para fechar a exitosa trilogia. 

Duvivier ama crianças e peças infantis. Ele se lembra do menino tímido, quase antissocial, que, aos 14 anos, logo depois da separação dos pais, o saxofonista Edgar Duvivier e a cantora Olivia Byington, foi matriculado nas aulas do Teatro Tablado, no Rio, e conheceu um novo mundo. “Encontrei a minha galera, gente mais livre e me vi em um universo amplo”, diz ele, aos 40 anos.

Na escola fundada pela atriz e dramaturga Maria Clara Machado (1921-2001), o futuro comediante aprendeu a não segmentar plateias e pensar em histórias acessíveis a todos. “Maria Clara dizia que fazia teatro com o privilégio de ser assistido por crianças”, conta. “Eu rejeito rótulos e penso assim porque vejo uma meninada em O Céu da Língua que se encanta por causa desta relação lúdica com as palavras.”

Segundo Duvivier, todos são poetas aos 6 anos e, com o passar do tempo, o adulto se esquece de regar essa sensibilidade. Na crônica Desacreditar, ele comprova a teoria ao mostrar a filha Celeste pedindo para “desvestir” o casaco ou “desmolhá-la” depois do banho. Em outro trecho, Livre-Brincar, fala do estímulo oferecido aos pequenos para se expressarem como bem entender nas escolas e, na maioria das vezes, o resultado é poesia.  

Nas apresentações de O Céu da Língua um texto impresso e encadernado da peça é oferecido nos saguões dos teatros e quase 30 mil exemplares já foram comercializados. “Olha, chuto que é meu livro mais vendido até agora.”

Diante de tantos superlativos, Duvivier deve quebrar novos recordes com o lançamento de Aos Pés da Letra e, confiante na inteligência do público, o artista prova que não nivela por baixo para lotar teatros e vender livros. “Pelo jeito, o brasileiro descobriu que a sua grande paixão oculta é a poesia”, comemora. “Tudo isto porque a língua portuguesa é bonita para caramba.”

Para Gregorio Duvivier, o céu da língua não é o limite. É apenas o começo de uma comunicação surpreendente e muito bem-sucedida.

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