A semana tépida dos brasileiros em Nova York; Beatriz Milhazes foi exceção

A semana tépida dos brasileiros em Nova York; Beatriz Milhazes foi exceção

Os leilões de primavera em Nova York reforçam um novo momento da arte brasileira: menos euforia, mais seletividade

As obras de artistas brasileiros tiveram uma demanda morna nos leilões de primavera em Nova York.

Seja no Contemporary Day Auction da Sotheby’s, em 15 de maio, ou no leilão da Phillips realizado ontem, grande parte das obras saiu próxima à estimativa baixa — com Beatriz Milhazes sendo a exceção à regra.

As vendas de Nova York continuam sendo um dos principais termômetros do mercado internacional e, para a arte brasileira, revelam um cenário de crescente seletividade. Nos últimos anos, a presença dos artistas brasileiros deixou de ser episódica para se tornar recorrente, atravessando obras históricas e artistas contemporâneos impulsionados por uma demanda mais especulativa.

Na Sotheby’s, Hélio Oiticica apareceu com dois Metaesquemas, a série fundamental de sua produção dos anos 1950. Metaesquema 193, de 1957, foi vendido por US$ 102.400, ficando próximo ao ponto mais baixo da faixa indicativa de preço.

Já o outro Metaesquema, do mesmo ano – com estimativa entre US$ 80.000 e US$ 120.000, maior formato e procedência de renomadas coleções americanas – alcançou US$ 166.400, superando o topo da faixa.

Os resultados, embora positivos, não indicam uma disputa excepcional – algo até natural, dado que estes eram Metaesquemas em papel, cuja produção foi abundante, ao contrário das pinturas, relevos espaciais e trabalhos tridimensionais de Oiticica ligados à expansão da cor no espaço, recentemente reativados pela apresentação do artista no Dia Beacon.

Esta leitura se confirma no caso de Sérgio Camargo

Untitled (#456), de 1978, em mármore de Carrara, estimada entre US$ 80.000 e US$120.000, simplesmente não encontrou comprador. O resultado evidencia a pouca liquidez para obras construtivas brasileiras de média escala.

No caso de Sérgio Camargo, obras desse nível tendem a revelar melhor sua força quando ambientadas em exposições institucionais ou em coleções privadas capazes de valorizar sua presença física. A experiência da luz, do corte e do volume — central em sua produção — exige uma relação direta com o espaço para ser plenamente percebida, uma condição que o leilão nem sempre oferece. 

Essa diferença de recepção entre obras de qualidade intermediária e obras de maior densidade institucional aparece com maior nitidez quando se observa o segmento contemporâneo, que nos últimos anos passou a ocupar um protagonismo antes reservado em grande parte aos nomes históricos e modernos.

Nesse cenário, Adriana Varejão – com presença internacional e narrativa crítica – concentra parte significativa da atenção com duas obras apresentadas nesta temporada. 

Sua Tela sobre pratos, realizada entre 1999 e 2000, vendida por US$ 486.400 com prêmio do comprador, embora tenha sido arrematada em lance abaixo da estimativa baixa de US$ 400.000.

A obra, ligada a uma coleção institucional de Porto Rico, circulava há anos no mercado privado e carregava uma complexidade particular: sua estrutura com pratos impõe desafios de conservação, transporte e instalação, fatores que podem afetar diretamente sua liquidez.

A venda ocorre em um momento institucional crucial para a artista, que este ano representa o Brasil na Bienal de Veneza, ao lado de Rosana Paulino, no projeto Comigo ninguém pode, da curadora Diane Lima.

Nesse contexto, o mercado tenderia a observar com atenção redobrada qualquer obra relevante da artista que surja em leilão. A possibilidade dessa obra ter sido defendida por agentes próximos ao seu mercado em momentos estratégicos é uma prática conhecida no sistema da arte. 

Essa obra mais histórica se distingue, em termos de liquidez, das séries mais recentes da artista, como é o caso dos famosos azulejos, obras mais decorativas e procuradas por arquitetos e colecionadores.

Nesse contexto, o tondo de 2014, em tonalidade celadon, evocando a cerâmica asiática, estimado entre US$ 250.000 e US$ 350.000, alcançou ontem na Phillips um resultado correto de US$ 361.200, reafirmando o apetite do mercado por obras de alta liquidez, apesar de uma produção que vem se tornando cada vez mais ampla.

Outro nome observado com atenção foi Antonio Obá. Herói do fogo interior II – A façanha, de 2020, estimada entre US$ 80.000 e US$ 120.000, alcançou US$ 204.800 na Sotheby’s. 

O resultado confirma a continuidade do interesse pelo artista, ainda que em patamar significativamente inferior ao recorde de novembro, quando Alvorada, Música Incidental Black Bird, de 2020 – uma obra monumental já apresentada em diversas exposições internacionais e reproduzida em publicações dedicadas ao artista  – ultrapassou US$1 milhão na Sotheby’s Nova York.

Paraty (2001), de Beatriz Milhazes na Phillips, atraiu forte atenção de colecionadores brasileiros ao reunir atributos raros no mercado: refinamento ornamental, densidade barroca, formato de fácil inserção e uma dimensão afetiva ligada à própria biografia da artista.

Após uma disputa intensa entre a sala e os telefones, Paraty alcançou US$ 516.000, um resultado que ganha ainda mais peso diante do atual momento institucional de Beatriz.

A artista vem de uma sequência de apresentações estratégicas, do Guggenheim de Nova York à White Cube, em Londres, passando pela Casa Roberto Marinho no Rio de Janeiro, consolidando uma circulação simultânea entre museus e galerias de primeira linha.

Neste contexto, a obra vendida pela Phillips se impõe como uma nova referência para o mercado da artista, superando amplamente, em valor proporcional à sua escala, a recente venda de Goa (2017), a pintura monumental arrematada por US$ 769.687 na Sotheby’s de Londres em março. Juntos, os dois resultados confirmam a solidez da demanda por obras de Beatriz no mercado internacional.

Marina Perez Simão não encontrou comprador para uma obra de formato médio, datada de 2019 e de composição mais contida – distante da vitalidade cromática e da tensão espacial que caracterizam suas obras mais disputadas no mercado. 

Desde sua primeira aparição em leilão, em 19 de maio de 2023, na Sotheby’s New York, Marina Perez Simão teve 29 pinturas oferecidas em leilões internacionais, das quais 26 foram vendidas, uma taxa de venda de aproximadamente 90%.

Em apenas três anos, isso representa uma média de cerca de 9 obras vendidas por ano, um ritmo particularmente raro para uma artista brasileira nascida em 1980.

Esse volume, porém, impõe uma questão reforçada pelo resultado de ontem: até que ponto o mercado conseguirá absorver, nos próximos anos, uma oferta tão acelerada?

Sophie Su Art Advisory é uma consultoria internacional especializada em arte brasileira. Mais análises no site da autora: sophiesuartadvisory.com e no Instagram @sophiesu.artadvisory

Advertisement
Advertisement