Como Dolores virou Dercy Gonçalves

Como Dolores virou Dercy Gonçalves

A extraordinária comediante superou limitações, criou uma linguagem própria e, apesar de ter atravessado o século XX em atividade, quase nunca foi levada a sério

Dercy Gonçalves (1907-2008) mal sabia ler. Com uma alfabetização precária, aquela que se tornaria a maior referência entre as comediantes brasileiras não conseguia decorar um roteiro, como é regra entre os atores e as atrizes. Indomável e determinada a exercer a sua vocação, restou a ela improvisar.

Sem assumir a deficiência, a artista pedia a alguém de confiança que lesse os seus textos. Dercy ouvia atentamente, recriava tudo com as próprias palavras e, com ela no palco, nenhuma apresentação era igual a outra. Colegas a acusavam de sabotagem para monopolizar os aplausos, mas foi o jeito de se tornar a artista que desafiou convenções e, neste terreno, nunca houve outra como Dercy.

Esta imagem egocêntrica e pouco profissional com atores e diretores é um dos tantos mitos derrubados pelo livro Dercy, A Diva Debochada (Objetiva), escrito pela jornalista Adriana Negreiros. A obra será lançada nesta segunda, dia 18, na Livraria da Vila, da Vila Madalena, em São Paulo, e, no dia, 27, na Livraria Janela, em Laranjeiras, no Rio.

A artista só queria garantir o próprio sustento e, mesmo que a vaidade tenha brotado aos poucos, não desejava puxar o tapete de ninguém — até porque tinha talento de sobra e sabia na pele que levar rasteiras não era uma boa.

Dercy nasceu Dolores Gonçalves Costa, em Santa Maria Madalena, interior do Rio de Janeiro, uma cidade que hoje conta com pouco mais de 10 mil habitantes. Imagina em 1907, quando ela veio ao mundo e, aos 12 anos, filha de pais separados e briguenta, já era chamada de “puta” sem sequer saber o significado da palavra.

Violências, abusos e preconceitos fizeram parte de uma rotina desde a infância que nem a fama, o dinheiro e a maturidade conseguiram limar. A biografia crava que a menina pobre precisou de muita persistência para se tornar Dercy e lutou com as armas que tinha em mãos, driblando a baixa autoestima que sempre a assombrou.

Adriana Negreiros define Dercy como uma heroína decolonial. “Ela desprezou a cultura europeia que ditava as ordens do seu tempo”, justifica. Típica representação da mulher popular, a artista usou o atrevimento como o principal ativo e ignorou qualquer padronização em oito décadas de carreira. “Ela teve uma coragem para enfrentar o espírito do seu tempo que nos falta hoje”, diz a autora. “Dercy nunca se rendeu às patrulhas e não baixou a cabeça nem aos militares.”

Mesmo tão ousada, Dercy esbanjava contradições a ponto de ser acusada de conservadora.  Suas opiniões expunham visões machistas, classistas e homofóbicas. A única filha, Decimar (1934-2023) foi educada para ser uma mulher refinada, obediente ao marido e exemplar aos filhos, o contrário do que a mãe vendia para a sociedade. “Dercy detonava as feministas porque, do seu jeito, teve um comportamento feminista sem levantar bandeiras”, afirma Adriana. “Na verdade, ela sabia que tinha derrubado barreiras maiores que aquelas que a criticavam.”

Nas últimas décadas, Dercy ficou popularizada com a velha que falava palavrões, mostrava os seios em público e criava diferentes versões de sua vida no palco ou diante das câmeras. Mesmo que tenha vestido essa personagem com aparente tranquilidade, a artista sofria ao ter o talento reduzido a adjetivos como “irreverente” e “escrachada”. “Esta imagem é uma tremenda injustiça e ela se magoava por não ser levada a sério”, comenta a biógrafa.

Os palavrões, por exemplo, não foram uma liberdade adquirida com o avanço da idade. Em 1951, Dercy assistiu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro a um espetáculo de um grupo de teatro português, formado por jovens da Universidade de Coimbra, que apresentava uma peça baseada no dramaturgo Gil Vicente (1465-1536).

Na plateia, além do então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), a presença de embaixadores, jornalistas, senhoras da sociedade e artistas comprovava o prestígio da companhia. Até que Dercy ouviu um palavrão incorporado ao texto dos artistas, e o teatro caiu na gargalhada.

Embora escrachada, a atriz não apelava para palavras chulas em cena e imaginou que, se os portugueses arrancaram risadas de espectadores elitizados, poderia testar a mesma fórmula. “Quando uma pessoa pisa no cocô do cachorro na rua não diz, ‘oh, que maçada’, e sim ‘caralho, pisei na merda’.”, pensou.

Assim, Dercy, sem ter consciência, consolidaria a linguagem que criou para o teatro brasileiro. Ao contrário do que verificou com os artistas portugueses, para ela, a crítica torceu o nariz e o cerco dos moralistas e censores só aumentaria com o passar dos anos, principalmente depois de 1964. Dercy, mais uma vez, bancou suas escolhas e enfrentou a todos de cabeça erguida.

Nas décadas de 1950 e 1960, o público abarrotava os teatros, o dinheiro entrava no seu bolso feito água e a televisão multiplicou a sua popularidade. Gastos excessivos, plásticas frequentes, o vício do jogo e romances com homens exploradores, porém, comprometeram um patrimônio que parecia infinito. Até que, por pressões políticas, o seu espaço foi sendo reduzido no vídeo.

Dercy perdeu o estrelato na televisão e viu as bilheterias das suas peças minguarem nos anos de 1970. Como saída, ela abraçou a persona da velha desbocada em espetáculos baseados em sua biografia que atravessaram três décadas em excursões pelo Brasil. Até o fim dos seus dias, aos 101 anos, a atriz viveu em um relativo conforto – algo raro entre os colegas – e disposta a trabalhar sempre que possível.

Costumava dizer que, para um artista, fazer chorar é muito mais fácil que fazer rir, e ela sempre preferiu o caminho mais difícil. Que bom, porque se Dolores Gonçalves Costa se conformasse com o destino que lhe parecia reservado, o Brasil jamais teria conhecido Dercy Gonçalves. 

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