De um lado, as academias raízes, herdeiras do fisiculturismo dos anos 1970. Do outro, os espaços de bem-estar que dominam o mercado atual. A musculação do século 21 conta a história de duas estéticas que se afastaram e agora voltam a se cruzar em um shopping da Barra da Tijuca, no Rio. É lá, no Casa Shopping, que a Gold’s Gym desembarca no Brasil em 2026.
Foi na academia fundada em 1965 por Joe Gold, um ex-fuzileiro naval, que o jovem Arnold Schwarzenegger treinou sob as câmeras do diretor George Butler para o documentário Pumping Iron (1977), filme que transformou o fisiculturismo de subcultura californiana em fenômeno global e fez da Gold’s a Meca da musculação (literalmente, a unidade é conhecida como The Mecca).
Ao lado de Arnold, treinaram na Gold’s Lou Ferrigno, o gigante de 1,96 m que viraria o Incrível Hulk da TV nos anos 70 e 80; Frank Zane, três vezes Mr. Olympia, conhecido pelo físico mais simétrico da história do esporte; e Franco Columbu, ator italiano de 1,65 m que trabalhou em Conan, O Bárbaro e Exterminador do Futuro e se tornou compadre de Arnold pela vida toda.
A operação brasileira é liderada por Dan Chor, cofundador da BodyTech e neto de José Isaac Peres, fundador da Multiplan. Acompanham ele no negócio Felipe Frajhof, Washington Kasprzykowski e Michel Amorim, empresários do mercado imobiliário e do setor de hospitalidade. O contrato, assinado em agosto de 2025, prevê 60 unidades pelo país nos próximos dez anos, com investimento de R$ 10 milhões na unidade carioca, de cerca de 2.000 m². “A Barra foi uma escolha mais do que intencional por ser um dos bairros mais associados à saúde, esporte e cultura física. A primeira unidade precisava estabelecer a marca de forma aspiracional, icônica, alinhada com a imagem global da empresa,” diz Frajhof, sócio executivo da Gold’s Gym Brasil. São Paulo também já tem endereço fechado, com anúncio previsto para os próximos meses.
Mas a Gold’s de 2026 não é mais a Gold’s de Pumping Iron. A flagship brasileira terá paredes de tijolos aparentes, detalhes de madeira e uma reprodução da famosa parede verde da The Mecca, mas também equipamentos de última geração e plataformas para levantamento olímpico. “A Gold’s Gym deve sempre transmitir autenticidade e foco em desempenho. Isso não significa recriar uma academia hardcore dos anos 70. A interpretação moderna é mais refinada. O consumidor atual espera conforto, design, serviço e comunidade,” diz Frajhof.
Vivemos um momento em que a academia deixou de ser apenas o lugar onde se cuida do corpo e virou um dos epicentros da vida social, profissional e até afetiva de uma geração inteira. Existe até um termo para isso, fitsexual, que descreve pessoas para quem o estilo de vida fitness atravessa todas as outras escolhas: dieta, círculo social, parceiros, agenda.
E o Brasil é hoje o segundo maior mercado de academias do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com mais de 20 mil estabelecimentos e cerca de 10 milhões de matriculados. Nosso talento para a maromba é tamanho que tivemos 45 atletas classificados para o Mr. Olympia 2025 e inventamos, em 2005, a categoria Wellness no fisiculturismo competitivo — a única divisão criada fora dos Estados Unidos a se tornar oficial no circuito mundial, hoje obrigatória em todas as edições do torneio.
Dentro desse mercado, um segmento específico tem se consolidado nos últimos quatro anos: o das academias premium voltadas à musculação pura e simples. A Ironberg, fundada em 2021 por Roberto “Betão” Rautenberg, ex-Bluefit, opera hoje sete unidades, a maior delas em Alphaville, na Grande São Paulo, com 32 mil m², anunciada como o maior centro de treinamento de musculação da América Latina. A rede tem como sócio desde o ano passado o jogador Neymar Jr. Em paralelo, o grupo Smart Fit lançou em janeiro de 2025 a Nation CT, na Avenida Paulista, com o influenciador Renato Cariani como sócio minoritário. “A musculação deixou de ser algo de nicho,” disse Edgard Corona, fundador da Smart Fit, ao explicar a aposta na Nation. “Vimos que o espaço de alta performance não estava sendo preenchido.”
A Gold’s chega para disputar esse segmento com vantagens que nenhuma rede brasileira tem: 700 unidades em 29 países, seis décadas de marca consolidada e o filme do Arnold como certidão de nascimento. “Existe um espaço entre as academias de baixo custo e os estúdios boutique ultraespecializados,” diz Frajhof. “A Gold’s se encaixa naturalmente nesse meio: uma experiência completa de treinamento, com identidade forte e componente de comunidade. A marca é para pessoas que genuinamente valorizam treinar e querem um ambiente desenhado em torno de performance, força e consistência.”
O movimento é global. Em Londres, a Muscleworks, aberta em um galpão de Bethnal Green por um cipriota-grego que queria “emular a Gold’s original de Pumping Iron”, virou peregrinação para fisiculturistas europeus. Em Long Island, Nova York, a Bev Francis Powerhouse se autodenomina “A Meca da Costa Leste”. No YouTube, o americano Sam Sulek, 24 anos, acumula mais de quatro milhões de inscritos com vídeos de baixíssima produção em que treina sozinho com a estética dos anos 70. A divisão Classic Physique do Mr. Olympia, criada em 2016, é o reconhecimento institucional dessa virada: estabelece limites de peso por altura para resgatar a estética da Era de Ouro, antes que os físicos extremos dos anos 1990 e 2000 levassem a competição a um lugar do qual ela mesma quis voltar.
“Hoje a força não está conectada apenas à estética, mas à longevidade, à saúde mental, à resiliência e à qualidade de vida,” diz Frajhof. É talvez por isso que o leitor que paga uma das mensalidades mais altas de São Paulo para treinar entre pedras vulcânicas esteja, agora, olhando com curiosidade para o que vem por aí. O ferro continua sendo ferro.
COMO OS CORPOS MUDARAM AO LONGO DAS DÉCADAS
O ideal de físico masculino fez um caminho longo até voltar quase ao começo. Veja como.
ERA 1: A CULTURA FÍSICA (1880–1914)

Ícone: Eugen Sandow
O prussiano Eugen Sandow é considerado o pai do fisiculturismo moderno. Modelava o próprio corpo nas estátuas gregas antigas, abriu o Instituto de Cultura Física em Londres e organizou, em 1901, a primeira competição de fisiculturismo da história, no Royal Albert Hall, em Londres. O corpo ideal era helênico, definido, harmônico.
ERA 2: O PÓS-GUERRA (1945–1965)

Ícone: Steve Reeves
Eleito Mr. Universo em 1950, Steve Reeves trocou os palcos do fisiculturismo pelo cinema italiano, onde virou o Hércules de uma geração inteira de filmes peplum. Treinava três vezes por semana, full-body, sem esteroides. Definiu o ideal que atravessaria décadas: ombros largos, cintura estreita, simetria perfeita. O famoso V-shape.
ERA 3: A ERA DE OURO (1965–1980)

Ícone: Arnold Schwarzenegger
A era da Gold’s Gym de Venice Beach. Arnold Schwarzenegger ganhou sete vezes o Mr. Olympia. O equilíbrio entre massa e estética chegou ao máximo e o corpo musculoso saía da subcultura e entrava no mainstream global.
ERA 4: OS MASS MONSTERS (1990–2010)

Ícone: Ronnie Coleman
Oito vezes Mr. Olympia, o americano Ronnie Coleman levou a categoria a um novo patamar (para o bem e para o mal). Ao lado de Dorian Yates e Phil Heath, fez nascer a era dos chamados mass monsters: corpos gigantes, condicionamento extremo, abdomens projetados pelo uso de esteroides, hormônio do crescimento e insulina em escala industrial. A estética foi se distanciando do que o público leigo reconhecia como bonito.
ERA 5: A VOLTA AOS CLÁSSICOS (2016–presente)

Ícone: Chris Bumstead
Em 2016, foi criada a divisão Classic Physique no Mr. Olympia, com limites de peso por altura para resgatar a estética da Era de Ouro. O canadense Chris Bumstead ganhou seis edições consecutivas (2019–2024). O Brasil entrou na briga com Ramon Dino, vice-campeão três anos seguidos. No YouTube, o americano Sam Sulek virou o fenômeno fitness da Geração Z, treinando como se estivesse em 1979. O círculo, depois de um século e meio, se fechou.

















