Aos 35 anos, Raphael Montes consolidou uma posição rara no mercado editorial brasileiro: a de ser um autor capaz de transitar com fluidez entre o best-seller e o audiovisual, sem abrir mão de uma assinatura narrativa própria.
Desde a estreia com Suicidas (2012), ele construiu uma antologia marcada por thrillers de forte apelo narrativo, como Dias Perfeitos, Jantar Secreto e Uma Mulher no Escuro — este último vencedor do Prêmio Jabuti —, além de emplacar adaptações de alcance popular, caso da série Bom dia, Verônica e da novela Beleza Fatal, que ampliaram sua presença no streaming e na TV.
Presença constante nas listas de mais vendidos, Montes se firmou como um dos principais nomes do suspense pop contemporâneo no Brasil, articulando entretenimento e debate moral em larga escala.
Seu próximo projeto, A Estranha na Cama, ainda inédito pela Companhia das Letras, já nasce com ambição expandida: além do livro, ganha adaptação para a Netflix, dirigida por Esmir Filho e estrelada por Paolla Oliveira, Bella Campos e Emílio Dantas. No centro da trama, um casal em crise decide abrir o casamento como tentativa de reconexão, o que rapidamente desestabiliza certezas e desencadeia uma espiral de tensão psicológica. A premissa, em diálogo com transformações contemporâneas nas dinâmicas afetivas, parte de uma inquietação do autor diante de novos arranjos amorosos e da percepção de que a monogamia, muitas vezes, opera mais como herança cultural do que como escolha consciente.
Ele aposta na sugestão e na construção de atmosfera, distante do erotismo explícito ou fetichizado que marcou produções das décadas de 1980 e 1990. Para o escritor, a sensualidade está menos na descrição do ato e mais na situação. No que se insinua, no que se projeta e, sobretudo, no que se reprime. É nesse terreno que o desejo se cruza com poder, culpa e propriedade, revelando fissuras que atravessam relações aparentemente estáveis.
Leitor de romances policiais desde cedo — de Agatha Christie a Arthur Conan Doyle —, também reivindica influências menos óbvias, como as novelas brasileiras dos anos 90 e os filmes populares da televisão aberta. Daí vem seu apreço pela estrutura, pelas viradas e pelo ritmo, elementos que ele considera tão decisivos quanto o estilo.
Sem pretensão moralizante, ele prefere provocar desconforto a oferecer respostas. Em A Estranha na Cama, essa estratégia ganha contornos mais radicais: ao explorar o erotismo como campo de tensão ética e emocional, reafirma sua vocação para transformar o suspense em uma lente aguda sobre o presente.
Uma experiência íntima que rapidamente se desestabiliza é a base do plot de A Estranha na Cama. O que que te interessou em explorar essa coisa do desejo e essas fissuras dentro das relações atuais contemporâneas dos casais?
A Estranha na Cama é um projeto que tenho já há muito tempo. Ele nasceu há cerca de uns cinco anos, quando eu assistia a uma série de filmes de conteúdo erótico, que era um gênero dos anos 1980 e 1990, como Atração Fatal e De Olhos Bem Fechados. Assisti a esses filmes todos, em sequência, realmente para estudar o gênero, e tive uma ideia de como fazer um thriller erótico dos anos 2020.
As obras falavam muito sobre traição.
E eu queria fazer uma coisa que falasse do mundo hoje, ou seja, das relações fluidas, dos novos arranjos de casal. Encontrei uma pesquisa que mostra que mais de 60% dos casais héteros jovens, em algum momento, abrem a relação, fazem swing, experimentam alguma coisa, numa tentativa de recuperar a relação, de apimentar. Percebi que tinha novos assuntos a tratar sobre o casamento, o matrimônio e o amor. Nasceu aí a ideia de fazer A Estranha na Cama. E cada vez mais, o que tenho buscado, no meu trabalho, é criar essa espécie de marca autoral. Com projetos que atuem em vários aspectos.
Esse projeto, por exemplo, já nasceu como um livro que eu queria fazer um filme depois. E aí eu contei a ideia para a Netflix, que adorou. Então, a gente acabou criando essa coisa que é supernova para a própria Netflix: livro e filme ao mesmo tempo.
Acho que é muito pertinente você falar das relações, de amor, de casamento, de fidelidade. O que é fidelidade hoje? A fidelidade sempre foi discutida, só que hoje está sendo discutida de uma forma diferente. Conforme o avanço dos movimentos sociais, a discussão dos relacionamentos também fica mais complexa. Concorda?
Sim, e as próprias sexualidades estão ficando mais complexas, as sexualidades e autoidentificações. É muito comum ver um jovem, bem jovem, falando: “Ah, eu sou bissexual e está tudo bem.” E isso é interessante, tem a ver com classe social. Na alta sociedade é mais comum. Quando você vai para uma classe mais desfavorecida, você não tem o jovem com tanta liberdade de se autoidentificar, falar: “Eu sou não binário.” É uma linguagem que já pressupõe uma classe social.

Agora, sobre a dinâmica de tensionar erotismo e violência nas histórias. Tanto na literatura como no audiovisual tem muitas produções rasteiras combinando esses elementos. E, no seu caso, você faz um equilíbrio que não é nada rasteiro. Os personagens têm uma densidade emocional, não é algo apelativo. Porque a violência também é erótica, não? A violência pura, por assim dizer, é erótica para certas pessoas e, claro, mexer com isso pode ser muito perigoso.
É o que fiz especificamente para esse projeto. Nos meus outros não têm exatamente erotismo, exceto em Beleza Fatal, que tem bastante, porque eu já estava com o imaginário por aí. O que fiz para esse projeto foi ler muito: tem um boom dos livros eróticos. E, no audiovisual, você tem a importante ressignificação do que a gente exibe na tela. Ou seja, sem o que se mostrava nesses filmes eróticos dos anos 1980 e 1990, que são muito fetichizados na mulher. Então, no filme, o meu trabalho foi todo junto com o diretor, o Esmir Filho, com a produção, um trabalho todo nosso, uma vontade única de a gente contar uma história que seja um thriller com sensualidade e erotismo revistos: “Por que em vez de explorar o corpo feminino, a gente também não coloca o masculino?” Houve esse tipo de cuidado.
Você busca colocar a sensualidade nas situações e não em padronizações?
A sensualidade é a situação, mas não é toda cena que é erótica, não tem altas representações de sexo, porque entendi que o tipo erótico, mesmo atualizado, não é o que eu queria fazer.
O que você quer explorar é a complexidade dos relacionamentos.
É, eu acho que é um thriller sensual. Não é erótico. Porque o erotismo na literatura, hoje, para mim vai a um certo lugar de vulgaridade que não me interessa. Que não é o que eu queria fazer.
O estimulante, para você, são os aspectos psicológicos envolvidos?
Exatamente. O que me interessa é a psicologia por trás do sexo.
O livro, nascendo já com adaptação para a tela, pressupõe uma troca de ideia com o diretor e elenco em algum momento, ou só depois que a história já estava definida?
Não, eu comecei a escrever o livro sem ainda ter filme nenhum no horizonte. Aí, a Netflix perguntou o que eu estava escrevendo e quiseram fazer. Eles compraram os direitos de um livro que tinha só 50 páginas na época. Comecei a desenvolver o roteiro e, na paralela, o livro, que eu também continuei fazendo. E isso é uma coisa que, para mim, como artista, dá tesão. O meu grande barato hoje em dia é esse. Vou entendendo situações que, no filme, por exemplo, podem durar uma cena, ou seja, dois minutos, e, no livro, faço um capítulo inteiro. Uma grande sequência de ação, no livro, não tem a mesma graça, uma sequência de ação de escrita… Ou seja, tanto no livro como no filme, conto uma história. Nos dois a história é a mesma, mas as maneiras de contar são diferentes.
Isso é muito legal para uma pessoa que trabalha com criatividade, porque nem sempre os escritores adaptam o seu próprio roteiro. Você conhece exemplos?
Tem o Raymond Chandler, que é um grande escritor de policial, roteirista e, mais recentemente, o Dan Stern Hein, a Gillian Flynn, que escreveu Garota Exemplar, todos viraram roteiristas. Mas o que acontece, em geral, é que essas pessoas não adaptam o próprio trabalho, eles fazem outros projetos de roteiro. Existe uma máxima que diz que o bom escritor nunca vira um bom roteirista, e quando comecei a trabalhar com audiovisual, ouvi isso muito, a pessoa falou: “Ó, Rapha, cuidado, você está bombando como escritor, mas o bom escritor nunca vira um bom roteirista.” E eu, como adoro ser provocado, fui lá e repliquei: “Ah, espera aí que vou também ser roteirista e provar que dá para fazer os dois.” Agora, a questão é que você não pode querer virar roteirista com a mentalidade de um escritor de livros. Essa é a questão. As maneiras de pensar são distintas.
Ao escrever essas histórias, você tem algo a dizer ao mundo ou à sociedade do ponto de vista filosófico, espiritual, político?
Eu fiz uma coluna no O Globo por dois anos. E tinha muita dificuldade de escrever ali. Logo entendi que a minha maneira de pensar o mundo, de expor minhas angústias, medos, dúvidas, preocupações, provocações, não é através do texto de não ficção, não é através do artigo, não é através da crítica. Minha maneira de fazer isso é através da ficção. Ou seja, eu pego tudo que me incomoda e crio uma história para falar desse assunto. Quando escrevo as minhas histórias, de maneira alguma quero ser didático ou dar lição de moral. O que mais quero quando eu conto as minhas histórias é provocar mesmo. Beleza Fatal fez muito sucesso porque é uma história com personagens interessantes, mas mais que isso, ela é sobre o mundo das aparências. É sobre o mundo da beleza, da estética, de você mexer na cara e colocar botox e harmonização e tal. Tem uma cena em que o personagem fala: “É pena que não existe botox para o caráter. Não importa você ajeitar a sua cara se você por dentro é podre, sujo e feio.” Esse é o tema. Vivemos em um mundo onde importa muito a aparência. Isso em todos os lugares.
Quando faço A Estranha na Cama, minha vontade, maior de tudo, é contar uma boa história. Mas, ao fazer isso, estou falando sobre “o que é a fidelidade?.” O quanto fidelidade é aquilo que a gente aprende porque temos essa educação cristã de monogamia, de que o certo é marido e mulher? Tem um diálogo no livro, em uma passagem em que o casal está lá pensando em abrir a relação, e aí ele fala: “Abrir? Mas aí vai entrar outra pessoa… .” Ela fala: “Bem, pelo menos é mais digno do que trair, né?.”
Sim, é um consenso…
Mas na lógica monogâmica, é melhor trair e não contar do que ter esse diálogo aberto. Eu provoco nesses lugares.
Você assistia por interesse ou só porque era o que estava passando?
Assistia por assistir, mas construiu o meu imaginário. Por exemplo, se você olha o meu primeiro livro, que eu escrevi aos 16 anos, o Suicidas, ele tem uma história de suspense, muito inspirada em Agatha Christie, mas tem uma família, que é do personagem principal, um playboy, formada por um casal da alta sociedade inspirado em novela do Gilberto Braga, que era a única referência. Desse modo, as novelas cumpriram um papel muito importante. E, além disso, uma outra coisa também, da televisão brasileira, foram os filmes da Sessão da Tarde. Eu não ia muito no cinema, via filme na Sessão da Tarde, eles preencheram o meu imaginário.

















