Brasil 70 – A Saga do Tri, minissérie de cinco capítulos da Netflix, tenta reproduzir o que a realidade deu de alegria e magia aos milhões de brasileiros em 1970.
Quem viu não esquece. Permanece lá – nas retinas, nos ouvidos e na memória – a trajetória mais fulgurante de um time de futebol em uma das mais espetaculares conquistas esportivas. Quem não viu pode descobrir o que foi essa alegria.
Como espetáculo e como recuperação de um instante inesquecível e importante do País, Brasil 70 é uma ótima diversão.
Em um clima quase de novela, mesclando fatos reais e fictícios, o docudrama dirigido por Paulo e Pedro Morelli (pai e filho) acompanha os acontecimentos desde quatro anos antes, quando a seleção brasileira fracassou na busca do tricampeonato consecutivo na Inglaterra.
Ao pegar um grupo esfacelado, eliminado na primeira fase, a minissérie reconstrói como foi que João Saldanha – até então mais conhecido como polêmico e sanguíneo jornalista ligado ao Botafogo – viabilizou-se como técnico da seleção e, a partir de então, começou a montar o maior escrete já visto.
As “feras” do Saldanha tinham Pelé, um veterano com quase 30 anos, e, ao redor dele, o que havia de melhor no futebol mundial, com nomes como Tostão, Gerson, Jairzinho e Rivelino.
O primeiro ganho de Brasil 70 é estabelecer um contraponto com os dias atuais: se hoje os jogadores não criam vínculos imediatos com os torcedores, na época os craques, todos eles ligados a clubes brasileiros como Santos, Botafogo e Cruzeiro, eram ídolos populares.
Outro ganho da série é a recuperação do cenário e do clima político da época. O momento grave, em que muitas vezes torcer pela seleção podia ser considerado como apoio à ditadura, exige aí a compreensão de outro contraponto.
Os dias de medo e de perseguição da ditadura comandada pelo general Emílio Médici são destacados em vários momentos, com cenas de protestos, de violência, de paranoia e de ameaças.
Como se equilibra entre a ficção e a realidade, Brasil 70 escorrega em alguns momentos. São anacronismos como, por exemplo, Zagalo (na época ainda grafado com apenas um L) proferindo a frase “Vocês vão ter que me engolir” quase três décadas antes.
Mas se perde em alguns fatos e diálogos, Brasil 70 se destaca em recuperações históricas do cotidiano. É real que, no início dos anos 70, os fuscas dominavam o trânsito, o bombril era usado nas pontas das antenas televisivas para melhorar a captação das imagens e todo mundo – como é simbolizado por João Saldanha – fumava adoidado.
Filmadas num pequeno estádio no interior de São Paulo que, com efeitos especiais, se transforma nos gigantescos estádios mexicanos, as cenas ficaram bem fiéis às originais, como os antológicos “não gols” de Pelé – um chute do meio campo contra a Tchecoslováquia, a cabeçada milagrosamente defendida por Gordon Banks no jogo contra a Inglaterra e o drible dado em cima do goleiro Mazurkievicz na semifinal contra o Uruguai.
Na linha dramática, o Zagallo, interpretado por Bruno Mazzeo, se destaca como o rival de seu antecessor, João Saldanha, na série, vivido otimamente por Rodrigo Santoro. A disputa entre eles, que sempre foi em silêncio, na série é retratada de maneira exagerada, inclusive com troca de desaforos.
Afora esses dois personagens, quem merece destaque é o locutor vivido por Marcelo Adnet. O ficcional Eusébio Teixeira é ao mesmo tempo parceiro e escada para os arroubos de João Saldanha.
Caído em desgraça e demitido meses antes da estreia da seleção no Mundial, Saldanha é o mais complexo e melhor construído personagem de Brasil 70. Sua militância comunista tornou, e ainda permanece, inexplicável para quem tenta entender como ele chegou ao comando de um dos principais cargos.
Seria intenção do governo pensar que estava acalmando-o ao colocá-lo na função? Ou ele acreditava mesmo que teria total liberdade para passar adiante suas ideias políticas e futebolísticas?
O que se destaca, porém, é a agilidade mental de Saldanha para criar bordões e entrar em atrito com os que o cercavam.
A ficção inclusive recupera verdades incontestáveis (ou confirmadas pela lenda ao longo dos anos) como as discussões de Saldanha com o presidente da CBD, João Havelange, ou ainda a resposta atravessada que teria dado ao presidente, que fizera chegar aos seus ouvidos o desejo de ver escalado o atacante Dario: “Eu não me meto na escalação do ministério dele, ele não se mete na escalação do meu time”.















