Dezesseis anos atrás, um vídeo mostrou John Galliano – então diretor criativo da Dior – bêbado num café parisiense, dizendo a duas mulheres que amava Hitler e que gente como elas deveria ter morrido, junto com seus pais e avós, no extermínio. Não foi um deslize isolado: houve outros episódios semelhantes, e ele acabou condenado por um tribunal francês por injúria pública de caráter antissemita. A Dior o demitiu no mesmo dia. Ele se internou numa clínica de reabilitação por abuso de álcool e remédios e passou anos recluso, um quase anônimo.
No mês passado, o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art anunciou que sua exposição de 2027 – que vem também a ser o tema do próximo Met Gala, sempre na primeira segunda-feira de maio – será dedicada a John Galliano.
A mostra John Galliano: Horizons fará dele apenas o terceiro estilista vivo a receber uma retrospectiva solo no Met - só Yves Saint Laurent e Rei Kawakubo tiveram essa honra. É a mais alta honraria que a moda institucional pode conceder a alguém ainda em vida.
O Met diz que não pretende varrer o passado de Galliano para debaixo do tapete, mas que vai tratar “as conquistas artísticas junto com a responsabilidade ética”. É uma frase elegante. Mas frases elegantes não são o mesmo que responsabilização.
Esse texto não é sobre cancelamento – sou absolutamente contra essa lógica. E não é sobre a pergunta rasa de “e aí, quem nunca errou?”, como se qualquer crítica aqui fosse exigir perfeição moral de alguém. É sobre colocar no pódio máximo de uma indústria alguém cujo erro não foi pontual, mas grave, recorrente, e cuja repetição reforça uma ideia perigosa – a de que, com anos suficientes e amigos influentes o bastante, até os piores erros se diluem. Que o tempo, sozinho, lava. Que basta esperar.
Há uma diferença importante entre alguém reconstruir sua vida e sua carreira e uma instituição decidir consagrá-lo. Acredito em segundas chances. Mas uma segunda chance não significa o direito a todas as honrarias. Galliano voltou a trabalhar, a criar e a ter seu talento reconhecido.
É possível separar a obra do artista sem concluir que essa separação encerra a discussão. Reconhecer a importância de Galliano para a história da moda não obriga uma instituição a conceder-lhe sua mais alta forma de celebração. O ponto não é apagar a obra, mas decidir o que fazemos depois de reconhecê-la – e que tipo de homenagem escolhemos transformar em símbolo institucional.
Diante de manifestações graves e reiteradas de ódio, o que precisa acontecer para que uma instituição considere que houve responsabilização suficiente para que alguém passe da reintegração à celebração? O simples decorrer do tempo não pode ser esse critério.
Instituições como o Met não apenas preservam a história; elas ajudam a escrevê-la. Uma retrospectiva dessa dimensão não é um registro neutro de relevância artística. É uma escolha sobre quem merece ocupar um lugar excepcional na memória cultural. Por isso, reconhecer o passado de Galliano dentro da exposição é necessário, mas não responde à questão do por que transformá-lo, agora, no objeto dessa consagração. O que essa escolha diz sobre os valores que o Met considera inegociáveis?
Não acho que erros sejam imperdoáveis. Mas receber uma das honras mais importantes da moda tendo causado um dos episódios mais graves de racismo recente da indústria é, sim, uma falha do sistema – não de Galliano sozinho, mas de quem decidiu que esse era o nome certo para o maior palco possível. Qualquer forma de racismo – contra judeus, contra negros, contra qualquer grupo – precisa ser combatida de forma recorrente, não relembrada uma vez a cada dezesseis anos como nota de rodapé.















