O Brasil foi filmado pela primeira vez por um italiano a bordo de um navio francês que tinha o nome de Brésil. O cineasta Affonso Segreto registrou imagens da Baía do Guanabara em 19 de junho de 1898. Nessa data, se comemora o Dia do Cinema Brasileiro.
O conjunto atravessa os séculos, do primeiro episódio de Uma História de Amor e Fúria, ambientado no século 16, à cena final de Ainda Estou Aqui, já no 21.
Da lista, quatro filmes estão disponíveis em plataformas de streaming. Os demais podem ser encontrados no YouTube.
Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi
Esse desenho animado não é para crianças: nos conflitos entre indígenas e colonizadores, na revolta da Balaiada, na ditadura militar e em um Rio de Janeiro distópico de 2096, o protagonista imortal (e radical) dublado por Selton Mello vive na pele a violência da história. Disponível na Runtime.

Os Inconfidentes (1972), de Joaquim Pedro de Andrade
Com diálogos que mesclam versos dos poetas inconfidentes a alusões veladas sobre a ditadura militar, esse filme traz um elenco afiadíssimo — José Wilker, Fernando Torres, Paulo César Pereio, entre outros — para retratar a derrota do movimento mineiro que tentou romper laços com Portugal no século 18. Não há idealização dos conspiradores: em algumas cenas, vê-se que eles tratavam os escravizados com absoluto desdém. Liberdade ainda que tardia — mas não para todos.

Madame Satã (2002), de Karim Aïnouz
Lázaro Ramos encarna com destemor toda a turbulência de uma figura lendária da noite carioca: João Francisco dos Santos (1900-1976), o Madame Satã. Negro, gay, malandro e transformista (hoje se diria drag queen), ele era também um tipo violento, que encarou mais de 27 anos na cadeia. Centrado no início dos anos 1930, o filme retrata a exuberância da cultura marginal que então emergia no bairro carioca da Lapa.

Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos
Detido sem acusação formal em 1936, Graciliano Ramos passou meses em prisões no Recife e no Rio de Janeiro. Relatou a experiência em Memórias do Cárcere, que Nelson Pereira dos Santos adaptou magistralmente para as telas (ele já havia filmado Vidas Secas). O ator Carlos Vereza encontrou a expressão perfeita para o jeito taciturno de Graciliano.

Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes
Este é um road movie sertanejo. Em 1942, quando o Brasil estava para entrar na Segunda Guerra Mundial, Johann (Peter Ketnath), um alemão pacifista, percorre grotões nordestinos vendendo aspirina. Os filmes promocionais que ele projeta ao ar livre oferecem um vislumbre de modernidade a quem nunca pisou em um cinema. Quando Johann dá carona a Ranulpho (João Miguel), nasce uma inesperada amizade, que será perturbada pela guerra distante. Disponível no Prime Video e na Tela Brasil.

Xingu (2011), de Cao Hamburger
A aventura e luta dos irmãos Villas-Bôas, idealizadores da primeira reserva indígena do Brasil, o Parque do Xingu, criado em 1961, é apresentada aqui com suas ambivalências e contradições. Defensores da autonomia dos indígenas, Orlando (Felipe Camargo), Cláudio (João Miguel) e Leonardo Villas-Bôas (Caio Blat) tiveram de fazer concessões a governos que desprezavam esse princípio.

Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho
Em 1964, Eduardo Coutinho e sua equipe começaram a fazer um filme sobre João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado na Paraíba dois anos antes. O golpe militar interromperia a filmagem — com truculência, aliás. Mas o documentarista retomou os trabalhos em 1981, reencontrando personagens como Elizabeth Teixeira, viúva de João Pedro. O resultado é o grande clássico do documentário brasileiro — um filme que retrata a história que o atropelou. Disponível na Doc Canal Brasil (assinatura pelo Prime Video).

Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund
Crônica da violência carioca, Cidade de Deus acompanha a favela que lhe dá nome do surgimento nos anos 1960 até sua tomada por traficantes e policiais corruptos vinte anos depois. Como tantas pessoas na história brasileira, Buscapé (Alexandre Rodrigues), o jovem protagonista, busca sobreviver nesse fogo cruzado. Disponível na HBO.

Ainda Estou Aqui (2024), de Walter Salles
Filme que no ano passado deu ao Brasil um inédito Oscar de Melhor Filme Internacional, Ainda Estou Aqui mostra o horror do ancestral autoritarismo brasileiro da perspectiva singular de Eunice Paiva, a mãe de família cujo marido foi levado pela repressão em janeiro de 1971 — para nunca mais voltar. Fernanda Torres interpreta Eunice em uma atuação ao mesmo tempo intensa e sutil. Disponível no Globoplay.















