Dizem os brasileiros mais amargurados que o patriota brasileiro deveria cometer suicídio 24 vezes por dia. Todo patriota é mesmo um candidato a mártir.
Já lembrava a famosa canção patriótica: “morrer pela pátria e viver sem razões” são “antigas lições.” A guerra é velha como a espécie, quem nela se engaja, deve estar pronto para morrer. Essa disposição para o sacrifício está na origem do que viria a se chamar patriotismo.
A palavra "pátria" nos chegou do latim sem alteração ortográfica, mas "patriótico" então se referia a "quem ou o quê é do mesmo país" — mesmo sentido de nosso corrente "compatriota." O significado heroico de "patriota" vem bem mais tarde.
Se, na aurora da humanidade, caçadores-coletores morriam pelo grupo, na caça e na guerra, isso era um imperativo de sobrevivência sem maiores implicações morais. A partir da revolução agrícola, em torno de dez mil anos atrás, as batalhas já não se davam só entre famílias e clãs. Assim que sedentarizados, nós humanos nos organizamos em exércitos, mas não se pode chamar de patriótico o espírito daqueles soldados, eram apenas escravos mais bem alimentados. Arriscavam a vida, pois se não o fizessem iriam morrer por não fazê-lo.
Só ali pelo século XVI, a partir da ascensão do Estado-nação, a noção de pátria ganha contornos que irão produzir essa coisa chamada patriotismo. Por isso, os primeiros registros do uso da palavra "patriota" são do século XVII.
O curioso é que o patriotismo como virtude inequívoca não durou nem cem anos. A palavra "patriota," com o sentido de "amante leal e desinteressado, defensor de seu país e seus interesses" surge em torno de 1660, mas já no século seguinte é ridicularizada, ganha a acepção pejorativa de expressão demagógica.
Em 1741, o primeiro e mais longevo primeiro-ministro britânico, Robert Walpole, assim discursou no Parlamento: "A própria ideia de patriotismo verdadeiro se perdeu, o termo foi prostituído com os piores propósitos. Um patriota, senhor! Ora, patriotas brotam como cogumelos!"
No primeiro dicionário da língua inglesa de Samuel Johnson, de 1755, "patriota" é "alguém cuja paixão dominante é o amor por seu país." A quarta edição, 18 anos mais tarde, já inclui o adendo: "às vezes usada para se referir a um agitador anti-governo tendencioso." Em 1775, Samuel Johnson vai ainda mais longe e cunha sua célebre frase: "O patriotismo é o último refúgio de um canalha." "No Brasil, é o primeiro…," emendou trezentos anos depois, nosso genial Millôr Fernandes.
Patriotismo e nacionalismo se confundem, ambos significam "devoção ou forte apego ao próprio país." O que talvez explique a relação ambígua dos brasileiros com a ideia patriótica, paixão ambivalente, ora louvada, ora maldita, mão no coração e pé atrás.
Não deveria nos surpreender. O fervor patriótico, nacionalista, contagia os povos a partir de situações-limite, em que sua própria existência e liberdade se veem ameaçadas.
A Marsellaise, sublime hino francês, é um canto de guerra, composto para animar os enfants de la patrie, "filhos da pátria", os soldados. Para vencer uma batalha, é necessário crer na própria superioridade frente a tropas estrangeiras — uma das definições de patriotismo é acreditar que seu país é superior aos outros. Em inglês, o brinde clássico, "My country, right or wrong!," "Meu país, certo ou errado!," teria surgido numa cerimônia militar, em 1816, quando um herói naval declarou: "Que nossa pátria, em suas relações com outros países, esteja sempre certa; e sempre vitoriosa, certa ou errada."
Mais que o ridículo, as consequências trágicas do nacionalismo no século XX acrescentariam uma sombra de crime a cerrar o patriota. Depois do nazismo, o hino alemão, da música sublime de Joseph Haydn, perdeu os versos iniciais, de orgulho pátrio já inadmissível: "Deutschland über alles," "Alemanha, acima de todos?" Não, não mais, nunca mais.
Ou talvez, só comendo grama, na guerra alegórica do futebol...
Depois de dez anos como párias do mundo, é na Copa do Mundo da Suíça, em 1954, no triunfo final contra a Hungria — jogo que entrou para a história como a "Batalha de Berna" — que os alemães perdem a vergonha de gritar o nome de seu país e agitam outra vez sua bandeira.
É por esse caminho, entrando nas dimensões mais que simbólicas do futebol e do que ele representa, que talvez possamos entender porque tantas vezes, no Brasil, é difícil distinguir patriotismo de patriotada.
A nação brasileira não se fundou numa guerra de libertação, revolução gloriosa, ou levante de massa que unisse a todos como um só povo. Ao contrário, o Estado brasileiro precedeu a Nação e decretou sua existência, de forma artificial, por força da lei. Em 1922, liberados da colonização pelo grito do príncipe colonizador, éramos um país sem povo.
Não se cria identidade nacional por decreto.
Essa identidade surge tarde, em meados do século XX, por graça... da bola! Pela primeira vez em nossa história, o que nos une a todos brasileiros, de todas as classes, credos e regiões, é a Seleção, a "pátria de chuteiras." Funda-se, aos chutes, nossa singularidade nacional, num território imaginário que abriga a todos, o campo de futebol. Sob a inspiração do líder mais original, um rei negro como jabuticaba.
É bonito isso, patriótico, uma configuração nacional-universal que espelha e irradia nosso caldeirão étnico-cultural, abduzindo também o que nos é estrangeiro. "Soft power," em bom brasileiro, é "poder mole," malemolente, inzoneiro... Brasil, amálgama de civilizações, falso paradoxo: um patriotismo sem nacionalismo, cadê?
Desde o Império, do Estado Novo à ditadura militar e a disputas mais recentes pelos símbolos nacionais, a linguagem do civismo no Brasil sempre foi apropriada pelo discurso autoritário. Como sói acontecer na linguagem totalitária, tudo enfeitado em cores vivas: "Ninguém segura esse país!," "Brasil, ame-o ou deixe-o," clamava a onipresente propaganda do regime pós-64. Até que, no auge da repressão, em 1970, um jovem de 25 anos levantou o Maracanãzinho lotado, cantando de peito aberto: "O amor é o meu país!," um verso subversivo e incensurável. Pelos poderes da poesia, Ivan Lins declarava amor ao amor, pois seu país, naquele momento, estava longe de ser um amor...
Duvidar da ideia patriótica não quer dizer desamor pela pátria. Muito pelo contrário. Pois, pensemos bem: quem precisa proclamar sua paixão em altos brados dificilmente está apaixonado. As coisas do coração, mesmo as cívicas, batem dentro do peito, em quase silêncio. O amor é sempre segredo e, se público, deve ser confessado em sussurros. Declarações de amor não se ululam, pois não?
(Quando Fernando Pessoa disse que "todas as cartas de amor são ridículas," devia estar se remetendo a algo semelhante: balbuciar juras eternas é uma coisa, escrevê-las em tinta indelével... é quase uma traição ao caráter desvairado da paixão...)
Assim como negar algo enfaticamente pode significar resistência a admitir uma verdade incômoda, afirmar efusivamente convicções pode trair certa insegurança quanto a essas convicções. Quem ama, faz cerimônia com a palavra amor, evita usar as três palavrinhas à toa, "eu te amo." Como ensina Drummond, no poema Quero: "Quero que me repitas até a exaustão/ que me amas que me amas que me amas./ Do contrário evapora-se a amação/ pois ao dizer: Eu te amo,/ desmentes/ apagas/ teu amor por mim." É o que faz o patriota com seu amor embandeirado, de tanto prometer torna impossível o cumprir.
Mesmo os que acham bonito ser patriota — e não há como negar beleza em seu desejo —, podem reconhecer traços risíveis em sua devoção. É da natureza do humor: esforço demasiado para fazer alguma coisa provoca riso, está a origem do cômico. Daí virá o ridículo do patriotismo? Comportar-se como um amante exagerado, que leva flores em demasia, acompanhadas por serenatas sinfônicas, regadas a perfumes demais, dando no enjoo que o excesso provoca?
Talvez a contenção seja a chave para um patriotismo saudável. Um amor que não se expresse aos berros, do alto de um palanque, mas que se pratique no dia a dia, silenciosamente, em pequenos gestos. Nas mãos que se estendem solidárias ao vizinho próximo ou distante, semelhante ou diferente, compatriota ou estrangeiro. Patriotismo sem canhões, de irmãos não sanguíneos, unidos por um nacionalismo internacionalista.
Ou talvez eu tenha me tornado um alienígena em minha própria terra, um siderado doutro planeta. E, desse além mundo, patriota.














