Como o HYROX virou o fenômeno fitness da vez

Como o HYROX virou o fenômeno fitness da vez

A disputa que combina corrida e estações funcionais ganhou mais de 80 provas globais. Será que você tem o que é preciso para ser um atleta de HYROX?

Já ouviu falar em skierg, sled push, wall balls ou farmer's carry? Esses são alguns dos termos que definem a base de um circuito que ganhou escala internacional: o HYROX, competição indoor que combina corrida e estações funcionais em uma estrutura fixa — 8 km intercalados com oito estações — replicada globalmente.

Não é por acaso que a modalidade nasceu em Hamburgo. A cidade tem uma das culturas esportivas mais antigas e densas da Alemanha — um dos clubes atléticos mais antigos do país, fundado em 1816, é hamburguês, assim como a Cyclassics, uma das maiores corridas de ciclismo da Europa. Foi lá que Christian Toetzke e Moritz Fürste se conheceram: o primeiro, fundador da própria Cyclassics; o segundo, ex-campeão olímpico de hóquei sobre grama. Os dois tentaram levar os Jogos Olímpicos para a cidade e o projeto não avançou após um referendo público, mas a parceria seguiu. Em janeiro de 2017, retomaram a conversa e, dois meses depois, lançaram o HYROX.

A primeira edição reuniu cerca de 650 participantes. Hoje, o circuito opera como uma série internacional, com etapas em cidades como Londres, Nova York, Tóquio, Madri e Sydney, e um calendário contínuo que culmina no campeonato mundial, que vai ser realizado neste ano em Estocolmo, entre os dias 18 e 21 de junho. Ao longo da temporada, os participantes se classificam com base nos resultados das provas, gerando dados como tempo total, ritmo por quilômetro, transições e desempenho em cada estação, comparáveis globalmente. É a padronização que aproxima o HYROX mais de um sistema contínuo de competição do que de um treino isolado. Sem variação no percurso, o que muda é a execução e o progresso deixa de ser percepção — passa a ser medido, repetido e confrontado com o próprio histórico e com outros participantes.

No Brasil, o circuito chegou pelo olhar de quem enxergou a janela certa. Guilherme Leite, atleta e investidor da NXT, a primeira afiliada oficial brasileira, viu a oportunidade quando outras modalidades começaram a perder força e o público procurava novas formas de comunidade em torno do esporte. “Quando conheci o HYROX, entendi que era um protocolo único, com corrida e movimentos funcionais que, no geral, são mais democráticos e acessíveis a mais pessoas,” conta. “E entendi a oportunidade de apresentar ao país uma nova modalidade com movimentos que podem ser acomodados por todo tipo de atleta.”

Apesar do caráter competitivo, o HYROX não se restringe à elite esportiva. As categorias incluem provas individuais, duplas e revezamentos, reunindo pessoas de diferentes idades e níveis de condicionamento. Leite conta que a surpresa foi justamente a amplitude do público que o circuito atraiu: atletas de alta performance — de lutadores a triatletas, que chegam ao HYROX para trabalhar regiões do corpo que seus esportes raramente exploram — dividem espaço com um perfil completamente distinto. “Tem um público que quer o circuitão, queimar mais de mil calorias numa aula e curtir a comunidade, sem foco em competição.”

Para a empresária e influenciadora Shantal Verdelho, que se inscreveu na primeira prova depois que o marido entrou na modalidade, o que explica o crescimento de um formato tão estruturado de competição é direto: “Para quem é competitivo, ter uma prova pela frente é o que te faz treinar todo dia. Você precisa de um propósito.” O apelo também passa pela familiaridade com a corrida, que encontra no HYROX uma camada adicional de desafio. “Agrada muito quem já corre, porque todo mundo chega com o mesmo discurso: você vai ver como a corrida fica mais fácil, mais leve, porque, além de correr, você está sobrevivendo ao circuito,” diz.

O fator da competitividade também ajuda a explicar por que plataformas como o Strava e o uso de smartwatches ganharam tanta tração nos últimos anos, e por que o HYROX se encaixou tão bem nesse contexto. Existe um componente comportamental importante por trás de ambos: a tendência de transformar esforço em registro, e registro em comparação. Um estudo publicado no JAMA Network Open sobre o efeito da gamificação mostra que intervenções que combinam metas, acompanhamento contínuo e feedback aumentam de forma consistente os níveis de atividade física. Ao introduzir métricas e referências externas, esses sistemas ativam um elemento competitivo em que o indivíduo passa a se medir não apenas contra si mesmo, mas dentro de um contexto coletivo. O HYROX traduz isso para uma prova presencial, com cronômetro, plateia e pódio.

No plano comercial, poucas parcerias ilustram melhor a dimensão que o formato atingiu do que o acordo com a PUMA. A marca renovou antecipadamente o contrato até 2030, assumindo o fornecimento global de vestuário e calçados, além do patrocínio do campeonato mundial. O desenvolvimento de produtos passa a considerar as demandas específicas da prova, do impacto das corridas às transições entre exercícios.

O movimento não se limita às brand partnerships. O HYROX alcança cada vez mais adeptos com uma rede crescente de academias que incorporam a metodologia ao treino regular — no Brasil, já são cerca de 300 afiliadas. Na prática, o circuito deixa de ser evento e entra na rotina. Para quem se cansa da lógica de estímulos sempre novos, há um apelo claro na previsibilidade de saber o que vem pela frente e, ainda assim, ter um parâmetro concreto para evoluir.

Advertisement
Advertisement