Os hotéis de luxo querem potencializar a performance física, mental e espiritual

Os hotéis de luxo querem potencializar a performance física, mental e espiritual

Com tecnologias de atletas de elite e parcerias com Djokovic e Sharapova, redes como Aman e Six Senses transformam o descanso em otimização biológica.

Você conhece alguém que já tirou férias para dormir? Provavelmente não. No entanto, quando se fala em bem-estar na hotelaria de luxo, a primeira imagem que vem à mente é a de um spa suntuoso ou de um programa de sono com lençóis de mil fios. Mas a fronteira do wellness já se moveu para muito além do descanso passivo.

Enquanto o turismo do sono se populariza como tendência, as redes de ultraluxo estão redefinindo o bem-estar como um processo ativo e mensurável de regeneração. O objetivo não é só apenas relaxar, mas otimizar. A nova hotelaria de luxo não vende descanso, vende performance.

“O sono não é tempo de inatividade passivo, mas um processo ativo e mensurável de regeneração,” diz Yuki Kiyono, head global de desenvolvimento de saúde e bem-estar do Aman. “Cada detalhe, da iluminação circadiana à regulação de temperatura, contribui para o equilíbrio restaurador. O sono se torna uma métrica vital de vitalidade.”

Nessa nova era, os hotéis se transformam em laboratórios de otimização biológica. O Aman, por exemplo, firmou em 2024 uma parceria com o tenista Novak Djokovic, que se tornou o primeiro consultor global de wellness da marca. Juntos, criaram programas de longevidade que integram corpo, mente e alma, baseados na filosofia de “otimização biológica,” que define a carreira do atleta sérvio. O roteiro com o nome do atleta dura dois dias e inclui massagem na sauna, crioterapia, meditação e ioga. 

Os hóspedes do grupo do bilionário russo Vladislav Doronin não apenas treinam com técnicas de atletas de elite, mas também aprendem a cultivar a resiliência mental com a ex-tenista Maria Sharapova, em um programa que ela estreou no Amanzoe, na Grécia. “Ao combinar mindfulness guiado, condicionamento cognitivo e diálogo honesto, ela capacita os hóspedes a cultivar a mesma força mental e compostura que definiu sua carreira,” explica Yuki.

O tradicional hotel gym dá lugar a um ecossistema de performance e conexão, onde os hóspedes treinam, se recuperam e trocam ideias com uma rede de indivíduos com interesses semelhantes. Tecnologias como crioterapia, terapia de luz e banhos de contraste, antes restritas a centros de treinamento esportivo, agora são amenidades-padrão.

Mas a grande inovação está no Cellgym®, tecnologia que simula condições de alta altitude para aumentar a eficiência celular de oxigênio. Disponível em propriedades como Aman New York e Amanzoe, o equipamento permite que os profissionais meçam e otimizem respostas fisiológicas em nível celular, criando intervenções adaptadas ao perfil metabólico e de recuperação de cada hóspede.

Na rede Six Senses, essa abordagem se traduz em “medicina circadiana aplicada”. O programa de sono da marca utiliza wearables e sensores ambientais para monitorar padrões circadianos em tempo real, medindo o impacto de variáveis como luz, ruído e temperatura (idealmente entre 18 e 22° C para promover a melatonina).

“Os hóspedes recebem análises personalizadas que geram dados acionáveis, como ajustes nos horários de exposição à luz para combater o jet lag”, explica Javier Suarez, diretor de wellness do Six Senses Douro Valley, em Portugal. “Esses insights não só melhoram o descanso individual, mas contribuem para uma base de dados científica coletiva que informa futuras inovações.”

A gastronomia também entra nessa equação. O Six Senses integra ciência nutricional em menus personalizados que otimizam a função cerebral e a energia sustentada. Superfoods neuroprotetores como açaí rico em antocianinas e adaptógenos como ashwagandha são medidos através do Integrative Wellness Screening pré e pós-refeição, rastreando métricas como níveis de estresse e claridade mental.

“A gastronomia deixa de ser prazer efêmero para se tornar uma ferramenta data driven que eleva a performance mental”, diz Javier.

Os Biohack Recovery Lounges, presentes em unidades como Douro Valley, Ibiza, Crans-Montana e Kyoto, funcionam como clubes sociais onde executivos e atletas usam ferramentas como Theragun (terapia de percussão) e botas de compressão Normatec para acelerar a recuperação muscular. A tecnologia preditiva, com scanners de estresse corporal e monitores de HRV (variabilidade da frequência cardíaca), ajusta automaticamente a iluminação e a temperatura do quarto para otimizar o descanso.

No mercado brasileiro, conhecido por valorizar o calor humano e o prazer sensorial, essa tendência de otimização biológica se traduz no interesse crescente pelos dados e pela tecnologia aplicada ao sono, mas o público de luxo ainda valoriza muito o lado humano e sensorial. “No Asaya, o que funciona é a combinação dos dois: usamos avaliações físicas e insights de wearables, mas sempre conectados a uma experiência acolhedora, conduzida por profissionais experientes”, diz Ana Flores, gerente de wellness e spa do Rosewood São Paulo.

Segundo Ana, o brasileiro quer dormir melhor e recuperar energia, mas sem abrir mão do cuidado pessoal, do toque e do ambiente que fazem parte da cultura local. “Para nós, a tecnologia orienta, mas quem transforma é a experiência humana.”

Tecnologias como crioterapia, boots de compressão, drenagens avançadas e terapias de luz têm excelente aceitação no mercado brasileiro, mas principalmente quando associadas a protocolos de beleza e recuperação física. “As pessoas buscam resultados rápidos e mensuráveis, desde que integrados a uma experiência agradável e esteticamente refinada”, afirma Ana.

Essa busca por uma experiência que une tecnologia e humanização está impulsionando um mercado em plena expansão. O setor de hotelaria de luxo no Brasil deve receber R$ 8,4 bilhões em investimentos até 2028, com um crescimento anual de 30%, segundo dados da consultoria JLL.

“Vejo o Brasil como um laboratório de possibilidades”, diz Ana Flores. “Somos um país onde o bem-estar é cultural, vivido no corpo, no toque, no ritmo. O que fazemos aqui tem o potencial de inspirar a hotelaria de luxo global pela maneira como entendemos humanização, alegria e presença.”

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