Anthony Bourdain foi uma das raras figuras capazes de transformar comida em ferramenta para compreender o mundo. Antes mesmo da gastronomia ocupar o centro das conversas sobre identidade, cultura e pertencimento, o chef e escritor americano já usava refeições como ponto de partida para falar sobre pessoas.
Viajava para conhecer lugares, mas parecia voltar das viagens interessado sobretudo em quem tinha encontrado pelo caminho. Essa característica aparece repetidamente quando se conversa com quem conviveu com ele, e também quando a educadora gastronômica Rosa Moraes relembra a primeira vez que o encontrou.
Era fim de setembro de 2001. Os ataques às Torres Gêmeas tinham acontecido poucas semanas antes e Nova York ainda tentava retomar alguma sensação de normalidade. Rosa morava em Connecticut naquele período, onde trabalhava como correspondente para publicações gastronômicas brasileiras, e decidiu pegar o trem para Manhattan com os dois filhos para uma sessão de autógrafos de A Cook's Tour, livro recém-lançado por Bourdain.
O público era menor do que o esperado e o momento histórico explicava parte disso. A baixa movimentação acabou criando uma oportunidade improvável para um evento daquele porte: uma longa conversa. Quando o assunto chegou ao Brasil, Bourdain contou que já tinha passado por São Paulo e que a cidade não havia lhe causado uma grande impressão. Parecia caótica, difícil de entender. Rosa discordou imediatamente e prometeu que, se um dia voltasse, mostraria a cidade por outra perspectiva. Quando chegou em casa e abriu o livro, encontrou uma frase escrita na dedicatória: See you in São Paulo.
Dois anos depois, Anthony Bourdain apareceu.
Naquele momento, Rosa já era uma figura respeitada na gastronomia brasileira — em 1999, havia implantado o primeiro curso superior de Gastronomia do País na Universidade Anhembi Morumbi e, desde então, acompanhava de perto a transformação que ajudou a construir. Quando Bourdain voltou para gravar em São Paulo, encontrou alguém que conhecia profundamente a cidade e que também havia participado ativamente da formação de sua cena gastronômica contemporânea.
Ao relembrar aqueles dias, porém, Rosa fala menos dos lugares que visitaram do que da pessoa que encontrou. "O Tony era um chef, eu sei, mas era um escritor sublime," diz. "Na verdade, era um contador de histórias."

Essa curiosidade aparecia também na forma como trabalhava. Ela lembra que as gravações aconteciam de maneira muito diferente do padrão televisivo da época. Não havia perguntas decoradas, respostas repetidas ou pausas constantes para refazer uma cena. "A câmera ligava e a conversa acontecia."
Mesmo sem conhecer profundamente as pessoas antes de chegar a um lugar, ele parecia completamente presente: o interesse era genuíno, a escuta era atenta e seguia assuntos inesperados, deixando que a conversa encontrasse o próprio caminho.
A mesma lógica aparecia fora das gravações. Ainda que houvesse um roteiro definido pela produção para a passagem pela capital paulista, algumas das lembranças preferidas de Rosa nasceram justamente fora dele — uma delas em um bate-volta à Barra do Sahy. Em algum momento entre a praia, as conversas e 14 caipirinhas, Bourdain decidiu entrar no mar. O único detalhe é que não tinha levado roupa de banho, mas, para ele, não parecia um problema — pegou uma tesoura, cortou a própria calça jeans na altura dos joelhos e entrou na água. Havia algo naquela espontaneidade que parecia resumir bem quem ele era: Bourdain passava longe do tipo de viajante interessado em observar um lugar à distância — gostava de, literalmente, mergulhar nos locais que visitava.

Ele completaria 70 anos hoje. Desde sua morte, em 2018, tornou-se quase impossível falar sobre televisão gastronômica sem mencionar sua influência. Mas, ouvindo Rosa relembrar aqueles encontros, a impressão é que seu legado não está apenas na comida, mas também na curiosidade, na disposição para ouvir e na capacidade de chegar a um lugar sem a pretensão de explicá-lo antes de entendê-lo. E, acima de tudo, naquilo que dá nome a esta história: a arte de prestar atenção.
Obrigada, Anthony.
















