
Os bilionários querem um lugar na moda
Da primeira fila dos desfiles aos grandes patrocínios, eles se aproximam de um universo onde pertencimento sempre foi mais importante do que dinheiro
Durante décadas, a moda foi um dos poucos territórios onde dinheiro, sozinho, não garantia acesso. Era preciso ter estilo, repertório e sensibilidade estética.
Ser bilionário não bastava. Sem capital cultural ou um olhar apurado para estética, dificilmente alguém ocuparia a primeira fila de um desfile importante. Na moda, o verdadeiro passaporte sempre foi o gosto — ou o reconhecimento desse gosto por um sistema altamente curado de gatekeepers, responsáveis por selecionar quem entra e quem fica de fora.
Esse é um comportamento das elites, que sempre usaram o gosto como mecanismo de distinção, uma forma de separar quem pertence e quem não pertence. Mas agora, parece que o capital econômico começa a avançar sobre o capital cultural. E se isso for verdade, é uma mudança estrutural no sistema da moda.
É por isso que a presença de Mark Zuckerberg e sua esposa, Priscilla Chan, no desfile da Prada, em fevereiro passado, provocou espanto. Zuckerberg nunca foi uma figura associada a estilo ou cultura fashion, tampouco uma presença particularmente querida no imaginário público global. Ver o fundador da Meta sentado na primeira fila de uma marca como a Prada — historicamente ligada a valores intelectuais e culturais que refletem a formação política e estética de Miuccia Prada — tornou o momento ainda mais simbólico desse novo tempo.

E este não é um caso isolado. Jeff Bezos e sua esposa, Lauren Sánchez, também andam circulando pelo mundo fashion, da primeira fila de desfiles como Dior ao patrocínio milionário do Met Gala, que funciona como uma espécie de coroação anual do poder cultural da moda.
O casal será presidente honorário da próxima edição do evento, em maio, ocupando um lugar historicamente associado a famílias cuja riqueza vinha acompanhada de décadas de filantropia e patronato artístico, como os Whitney ou os Vanderbilt.
Segundo relatos, eles entram com uma doação na casa dos oito dígitos, que inclui o financiamento da exposição do Costume Institute, associação pública à noite de gala, grande influência na lista de convidados e enorme visibilidade cultural.
Soma-se a isso os rumores de que Bezos pretende comprar a Vogue e entendemos que eles não estão apenas “participando” da moda, e sim financiando o sistema cultural que a sustenta.
Nunca antes, bilionários buscaram tanto acesso e reconhecimento da indústria da moda. Uma indústria, diga-se de passagem, para a qual essas figuras sempre foram VIC, mas raramente protagonistas.
Algo mudou. E os sinais estão por toda parte.
O primeiro deles é que, curiosamente, essa aproximação acontece num momento em que o próprio mundo da tecnologia começou a falar sobre gosto. Greg Brockman, presidente da OpenAI, disse recentemente que: “Taste is a core skill” (gosto é uma habilidade central). Ter bom gosto virou uma qualidade estratégica.
Essa frase faz muito sentido e é mais uma confirmação de que mergulhamos fundo na era da curadoria e do discernimento. A inteligência artificial pode escrever, criar imagens e vídeos, compor música e até oferecer conselhos, mas não constrói gosto. Reconhece padrões, combina referências, simula estilos. Mas não tem vivência, nem memória afetiva, nem intuição cultural. Não sabe por que algo emociona ou por que uma escolha toca mais do que outra.
De fato, gosto nasce da experiência humana de crescer em lugares específicos, ser exposto a determinadas referências culturais e desenvolver um ponto de vista próprio. É a nossa vida vivida que nos dá a capacidade de escolher e reconhecer o que importa e o que tem valor estético.
E se gosto virou um ativo — que não pode ser automatizado -, faz sentido que os bilionários queiram se aproximar de quem produz e define esse valor: a moda.
O segundo sinal é poder.
Para quem já conquistou força econômica, tecnológica e política, a próxima fronteira é a influência cultural.
E a moda é esse playground estético, um espaço onde circulam beleza, criatividade, glamour, prestígio e onde muitas conexões são construídas. Mas para estar ali, você precisa pertencer. Não basta dinheiro. É preciso se alinhar a certos códigos.
E aí está o ponto. Os magnatas do tech já dominam praticamente todas as infraestruturas do mundo contemporâneo: Mark Zuckerberg controla nossas redes de comunicação, Elon Musk influencia o debate político em escala global, Jeff Bezos redesenhou nossa maneira de consumir.
Nesse contexto, a entrada na moda é uma tentativa de ocupar também o campo do imaginário, do belo e do desejo. E esse tipo de reconhecimento funciona de outra forma: aparições em desfiles e eventos icônicos não são apenas presença, são validação.
Estar em um lugar de prestígio e poder na moda certamente irá ajudar muito os negócios de Jeff Bezos, que vêm tentando posicionar a Amazon dentro da alta moda. É daí que vêm as especulações da compra da Vogue, porque ela é o caminho mais rápido para isso acontecer.
Então, se bom gosto virou uma habilidade central para a economia contemporânea, não surpreende que os homens mais poderosos da tecnologia estejam tentando se aproximar de um dos poucos sistemas onde esse tipo de “capital” sempre foi produzido — e, até então, não podia ser comprado com facilidade — a moda.


For You

A duas horas da capital francesa, Lyon promete (e entrega!) sabor sem o frenesi da capital
Ivna Chedier Maluly


O nome brasileiro mais disputado pela moda internacional – e não é o de Gisele

Primeiro cv aos 60. A mudança de rota de Lilian Pacce

O Brasil virou laboratório da alta joalheria. E o mundo está prestando atenção

O erro calculado de Francesca Monfrinatti, a estilista da vez segundo fashionistas exigentes

