Por que os homens não vão para a terapia?

Por que os homens não vão para a terapia?

A análise pode assustar e até representar um risco ao ponto de equilíbrio em uma vida estável. Mas é importante lembrar que mostrar fragilidade e humanidade é, de fato, humano

“Tenho 45 anos, nunca fui à terapia e minha mulher insiste para que eu vá. Minha vida funciona e tenho medo de que, se eu for, tudo que me sustentou até aqui desmorone.”

Essa pergunta chama atenção por um motivo específico: o receio não está na terapia fracassar, mas no efeito que ela possa produzir.

Aos 45 anos, você construiu uma vida estável. Trabalho, casamento, rotina, responsabilidades. Existe uma forma de vida que sustenta tudo isso. O receio de iniciar uma terapia aparece porque você suspeita que ela possa mexer justamente nesse ponto de equilíbrio. Muita gente evita terapia por razões parecidas. Surge o medo de descobrir algo que depois exija uma decisão. “Vou acabar me separando.” “Vou largar meu emprego.” “Vou perceber que construí a vida errada.”

A passagem de Ulisses e das sereias em Odisseia ajuda a refletir sobre sua pergunta. No poema, as sereias atraíam os navegantes com um canto irresistível. Os homens abandonavam o rumo da viagem e acabavam destruídos no mar. Ulisses decide ouvir o canto, mas teme o efeito que ele possa ter sobre si. Então pede para ser amarrado ao mastro do navio enquanto os marinheiros tapam os ouvidos com cera.

Entrar em terapia costuma aproximar alguém de perguntas adiadas há muito tempo. O mal-estar muitas vezes aparece antes de ser formulado. Irritação constante. Cansaço. Conversas evitadas. Uma distância difícil de explicar. Um entusiasmo que desaparece. A vida segue organizada enquanto alguma coisa perde sustentação.

Em muitos casos, a resistência à terapia passa também pelo medo de se fragilizar, de mostrar uma humanidade que a vida inteira precisou permanecer contida. Curiosamente, essa resistência costuma ser o ponto de partida da própria análise. Boa parte das pessoas consegue viver assim durante anos. E às vezes precisa. Há filhos, dinheiro, compromissos, medo de perder o que foi construído. Existe uma razão para certas perguntas demorarem tanto a surgir.

Talvez por isso sua resistência faça sentido. Enxergar certas coisas costuma cobrar uma posição. A decisão sobre o que fazer com isso, porém, continua pertencendo à pessoa. Também vale notar outro ponto. A insistência inicial pertence à sua mulher. Mas foi você quem trouxe a pergunta até aqui. Importa menos descobrir o que ela quer do que entender por que essa insistência começou a produzir efeito em você.

Dizer que a vida funciona é legítimo. Muitos arranjos sustentam uma existência inteira. Garantem estabilidade, preservam vínculos, evitam perdas maiores. O problema começa quando a pessoa já não consegue ignorar o custo desse equilíbrio. Reconhecer um conflito não obriga ninguém a transformar a própria vida. Existe uma diferença entre aquilo que uma análise revela e as decisões que alguém consegue tomar a partir disso. 

Nem todo desejo precisa virar ato. Nem toda verdade exige ruptura imediata. Mas certas perguntas, depois de formuladas, passam a exigir uma posição. Ulisses pediu para ser amarrado ao mastro porque queria ouvir o canto sem ser destruído por ele. Talvez a sua pergunta já faça parte desse movimento.

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