
Primeiro cv aos 60. A mudança de rota de Lilian Pacce
Aos 60 ela montou seu primeiro currículo, virou avó e decidiu cursar mestrado em curadoria fora do País: tudo isso ao mesmo tempo. Ao Page 9, ela conta como o movimento aconteceu
Duas palavras poderiam descrever Lilian Pacce: curiosidade e inquietação. A jornada rumo ao posto de uma das jornalistas de moda referência do País teve muitos capítulos, entre eles a passagem pela Folha de SP (onde foi uma das editoras mais jovens da publicação, aos 23 anos), o portal que levou seu nome, o programa de TV no GNT, o canal no YouTube, a publicação de cinco livros e tantos outros projetos especiais.
Hoje, aos 64, Lilian escreve mais uma página nesta história: soma-se ao currículo o título de curadora — apesar desse “currículo” também ser algo inédito na vida dela. “Comecei a sentir a necessidade de mudança na pandemia, mas ao mesmo tempo não poderia estudar fora justamente por isso. Apliquei para um mestrado em curadoria em duas universidades de Londres e foi a primeira vez na vida em que fiz um currículo” disse em uma conversa com Page 9 em seu apartamento em Higienópolis, São Paulo. Uma casa com alma que respira arte e moda, com design brasileiro, fotografias da Amazônia, imagens de Sebastião Salgado, obras de Lenora de Barros, amiga de Lilian, e de Nelson Leirner — uma delas criada especialmente para ela a partir do olhar do artista para a moda.
A decisão por este movimento vem justamente dessa inquietação e da vontade de estar sempre fazendo algo novo, com propósito e que gere uma reflexão com empatia, profundidade e generosidade — qualidades que muitos usam para descrever sua trajetória. Ela, uma idealista nata que, além da moda, também tem a arte e a sustentabilidade como pilares, encontrou na curadoria mais um norte para sua vida. “Gosto de trabalhar com paixão. Quando algo começa a ficar um pouco enfadonho já não me serve mais. E o desafio é muito bom, aprender uma coisa nova, superar medos, desafiar a própria ignorância”, disse.
O plano estava desenhado, mas como a vida é uma história sendo escrita dia após dia, veio uma surpresa: a filha que mora na Austrália ligou com a notícia que estava grávida do primeiro neto de Lilian — e ele nasceu no período em que a jornalista inicialmente estaria em Londres. Tudo acabou se encaixando, o currículo deu certo, ela foi aprovada no Chelsea College of Arts, as aulas começaram um tempo depois do plano inicial, no começo de 2022, e ela conseguiu ver o neto nascer. “É louco pensar que no ano em que eu fiz 60 virei estudante e avó, dois papéis eu não imaginava acontecendo ao mesmo tempo. Uma das consequências? No fim daquele mesmo ano, a jornalista decidiu encerrar o site que levava seu nome (e que foi um dos responsáveis pela ascensão de Lilian no digital) para se dedicar ao novo desafio. O portal foi um celeiro de talentos com a seção Portfólio, onde publicava trabalhos de novas mentes criativas do mercado, e com a seção Recicle-se, lançada com o site em 2008 e espaço de discussões e reflexões sobre práticas sustentáveis na moda, assunto que até então não era tão debatido.
Os anos de estudo em Londres trouxeram mais que uma nova possibilidade profissional: representaram também novas descobertas e formas de ver o mundo. “Sempre amei arte. Quando trabalhei na Folha de SP, meu primeiro grande emprego, cobri arte por muito tempo para a Ilustrada. E sempre busquei trazer a arte para a moda na minha carreira. Em Londres, depois de 18 anos na televisão e de uma presença forte no digital, tive o benefício do anonimato. Lá eu não era uma pessoa da moda: eu era uma pessoa de arte descobrindo coisas novas.
E estava experimentando. Quando você volta para a universidade depois de tanto tempo, tem uma outra relação com o aprendizado. Uma das minhas melhores amigas do curso, por exemplo, é mais nova que meu filho de 25 anos, e as trocas são absolutamente incríveis”, disse. Vale lembrar que, apesar de ainda oferecerem muito a explorar, os oceanos da curadoria não são tão desconhecidos para Lilian. Em 2024 ela foi curadora adjunta da exposição Arte na Moda: MASP Renner, com 26 duplas de artistas e estilistas em diálogo, e, em 2017, foi curadora e organizadora de uma mostra grandiosa sobre trajes de banho no CCBB Rio, com mais de cem criações de moda do século 19 ao 21 e obras de arte contemporânea.
Com o mestrado concluído no início de 2024, ela busca manter viva a missão de unir moda, arte e sustentabilidade com o título oficial de curadora, olhando especialmente para artistas mulheres, estilistas, meio ambiente e pessoas. Como em uma peça de teatro ou mesmo em uma exposição, Lilian busca causar emoção e reflexão — como quando, por exemplo, comenta que a indústria da moda no Brasil é feita em sua maioria por mulheres, e que grande parte dessas mulheres é responsável pela educação e saúde dos seus filhos e sua família. “A curadoria é uma outra forma de comunicar moda e falar do social, do ambiental, de práticas regenerativas, do mundo”, disse. Não à toa, ela também lembra que “curadoria” vem do latim curare. Ou seja, cuidar.
Um dos projetos contados com carinho é o Brazil: Creating Fashion for Tomorrow, que foi criado e tem a curadoria de Lilian Pacce em parceria com Camila Villas e Marilia Biasi. A iniciativa acontece desde 2023 em Londres unindo moda, inovação e sustentabilidade em torno de práticas regenerativas. O que começou abrindo a Semana de Moda de Londres ganhou corpo e migrou para a Semana de Ação Climática de Londres, com uma edição inspirada na Amazônia em 2025. A deste ano acontecerá em junho e será inspirada na Caatinga, que muitas vezes é assimilada à miséria e à escassez.
O olhar será para a resiliência, para a tradição e para a inovação, com a participação de nomes que nasceram no sertão ou que têm uma relação com os materiais e com o bioma — um dos exemplos é uma mulher de um assentamento na Paraíba que tem produzido um pigmento de anil a partir de uma planta que era considerada praga na região. “Nossa proposta é colocar a moda em uma outra pauta, como solução e não problema. Sim, a moda é a segunda indústria mais poluente e vive de excessos. Mas mostramos que existem alternativas,” disse.
O olhar será para a resiliência, para a tradição e para a inovação, com a participação de nomes que nasceram no sertão ou que têm uma relação com os materiais e com o bioma — um dos exemplos é uma mulher de um assentamento na Paraíba que tem produzido um pigmento de anil a partir de uma planta que era considerada praga na região. “Nossa proposta é colocar a moda em uma outra pauta, como solução e não problema. Sim, a moda é a segunda indústria mais poluente e vive de excessos. Mas mostramos que existem alternativas,” disse.
Lilian Pacce foi corajosa? Ela acha que não: “Nem acho que eu fui tão corajosa assim. E as pessoas olham para isso como se eu tivesse aberto mão de tudo para estudar. Mas não abri mão, eu agreguei coisas novas. Acho que é isso que falta para as pessoas: perceberem que quando você vai por um caminho que sente que é o seu, você agrega tudo aquilo que construiu, não deixa nada para trás. Essa curiosidade, esse olhar para a vida faz a gente se sentir vivos e jovens. Quero mostrar para as pessoas que não podemos perder a curiosidade.”
Uma das próximas empreitadas? O retorno da “Lilian Pacce, a autora”, com um novo livro previsto para 2027. Afinal, ela é esse tipo de pessoa: interessada e sempre em movimento. Daquelas que não podem ser definidas ou descritas por uma única (ou sequer duas!) palavras.


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