A meca do estilo old school em São Paulo

A meca do estilo old school em São Paulo

Como Alessandro Bergamin fez da Paradiso Vintage um espaço de pesquisa, referências e achados que resistiram ao tempo

Encravado em Santa Cecília, bairro paulistano que vem consolidando sua vocação para endereços independentes e negócios com personalidade, a Paradiso Vintage é um convite a olhar para a moda com outros olhos – menos interessado na novidade imediata e mais atento à permanência das boas peças. À frente da loja está Alessandro Bergamin, arquiteto de formação, empresário e colecionador de referências estéticas que encontrou no vintage uma maneira de reunir algumas de suas grandes paixões: roupas, design, música, objetos e histórias.

Sobrinho do arquiteto e decorador Sig Bergamin, Alessandro cresceu em uma família de origem italiana, com raízes na região do Vêneto, e teve no tio uma importante referência de estilo. Depois de estudar arquitetura e urbanismo e trabalhar com Sig, seguiu seu próprio caminho. Abriu um escritório dedicado à arquitetura, ao design e à decoração e, no processo de desenvolver peças e produtos para seus clientes, acabou encontrando o embrião de um novo negócio. Assim nasceu o Studio Bergamin, inicialmente concebido como um ateliê de mobiliário, com sofás e poltronas de couro envelhecido que evocavam o universo de Ralph Lauren. A loja física completa seu 17º ano de atividade, mas foi a partir dessa experiência que surgiu uma vontade de explorar também o vestuário.

O interesse pelo estilo masculino, no entanto, vem de muito antes. Alessandro sempre gostou de se vestir bem, mas tinha dificuldade em encontrar roupas que correspondessem ao seu olhar apurado. A solução era comprar fora do Brasil. “Nova York teve papel decisivo nesse percurso, especialmente quando conheci de perto o universo de Ralph Lauren. A combinação de referências militares, náuticas, esportivas e da tradição britânica despertou meu interesse pelo estilo americano clássico e, naturalmente, pelo vintage,” diz Alessandro. Na época, o Upper East Side concentrava muitos dos endereços dedicados a esse tipo de garimpo. Hoje, a cidade continua sendo uma referência, mas divide espaço com destinos como Paris, Londres – especialmente a região de Brick Lane – e cidades italianas como Florença, Bolonha e Roma.

O garimpo, aliás, tornou-se parte importante das viagens de Alessandro, muitas vezes conciliadas com compromissos ligados à decoração e ao mobiliário. “Eu organizo listas e pastas no celular, separadas por cidades, reunindo lojas, restaurantes, endereços conhecidos e lugares que desejo descobrir. Também domino bem as minhas medidas e costumo fazer compras antecipadas pela internet, enviando os pedidos diretamente para o hotel,” diz. Em outras ocasiões, prefere percorrer pessoalmente feiras e mercados, como o tradicional Puces de Saint-Ouen, em Paris. A lógica é simples: viajar com pouca bagagem e voltar com boas descobertas – sobretudo sapatos.

No Paradiso Vintage, essa pesquisa se traduz em uma seleção que privilegia peças com personalidade, qualidade de construção e uma estética que atravessa décadas. Há roupas de trabalho francesas dos anos 1940 e 1950, como os tradicionais bleus de travail, com suas diferentes texturas, tonalidades e marcas de uso, além de peças militares da época da Guerra do Vietnã, nos anos 1960. Jaquetas japonesas de inspiração souvenir, jeans de modelagem clássica, calçados italianos, sapatos Paraboot franceses e Tricker's ingleses convivem com acessórios e joias de inspiração navajo. Entre os achados mais especiais estão um modelo original de mocassim Gucci Horsebit e peças cuja história está inscrita nos próprios sinais do tempo.

Para Alessandro, o interesse pelo vintage vai muito além da aparência. “Existe uma relação direta entre a qualidade dos materiais, a funcionalidade das roupas e a maneira como elas envelhecem. As peças militares da Guerra do Vietnã, por exemplo, eram confeccionadas em cetim de algodão, tecido resistente que conciliava conforto e elegância. O esgarçado, as descolorações e as marcas de uso não são defeitos a esconder, mas elementos que acrescentam personalidade. A modelagem também costuma ser mais generosa, com linhas retas, ganchos mais longos e proporções que contrastam com a obsessão contemporânea por silhuetas excessivamente ajustadas.”

É justamente essa combinação de autenticidade, conforto e permanência que ajuda a explicar o crescimento do mercado vintage. A preocupação com sustentabilidade e o desejo de consumir de maneira menos descartável contribuíram para aproximar uma nova geração desse universo. Mas, na avaliação de Alessandro, o estilo veio como consequência: roupas que já atravessaram décadas oferecem uma identidade difícil de reproduzir em peças produzidas em larga escala. Não por acaso, a moda contemporânea tem recuperado cada vez mais referências do passado, das calças com pregas às modelagens amplas e à alfaiataria de linhas relaxadas. “A tradição italiana sempre trabalhou bem essas proporções, especialmente nos paletós transpassados e nas construções mais confortáveis. Marcas japonesas também merecem atenção pelo cuidado em resgatar técnicas artesanais e processos tradicionais, sobretudo na fabricação do denim,” diz o empresário. 

As referências de Alessandro passam por personagens que ajudaram a construir o imaginário do estilo masculino. James Dean, Steve McQueen, Gianni Agnelli e Bruce Springsteen são presenças recorrentes nesse repertório. A capa do álbum Born in the U.S.A., de Springsteen, por exemplo, ajudou a consolidar o jeans Levi's 501 como um símbolo de autenticidade americana. O próprio Alessandro veste uma calça inspirada na modelagem 501 dos anos 1950. Sua combinação de jeans selvedge da Superstitch MFG – marca parisiense que trabalha com denim japonês –, mocassins italianos, óculos de acetato Jacques Marie Mage e joias navajo traduz bem essa mistura de referências. Entre as marcas contemporâneas, admira a japonesa Beams e acompanha com interesse o reposicionamento da Zara, especialmente quando identifica o diálogo entre as coleções atuais e a estética vintage.

A experiência do Paradiso Vintage, entretanto, não se limita ao que está nas araras. A música é parte fundamental da atmosfera e tem curadoria do próprio Alessandro. Soul, rock, clássicos americanos e sonoridades dos anos 1970 compõem uma trilha que pode passar por Minnie Riperton, Tim Maia e Elvis Presley. A intenção é transportar o visitante para outro ambiente, assim como o aroma desenvolvido especialmente para a loja, com notas de cravo, canela, madeira e vetiver. O resultado é um espaço em que roupas, mobiliário, objetos e música compartilham a mesma linguagem visual. Não por acaso, a estética do Paradiso se aproxima cada vez mais daquela explorada pelo Studio Bergamin, onde peças novas e vintage também convivem naturalmente.

O público acompanha essa diversidade. De adolescentes interessados em referências old school a homens mais velhos que reconhecem nas peças elementos de sua própria história, a loja atrai pessoas de diferentes gerações unidas pelo interesse em cultura e estilo. “Meu filho Pedro também participa desse diálogo, trazendo novas referências e contribuindo para ampliar o repertório da casa.” Os preços ajudam a tornar a experiência acessível a diferentes perfis: há camisetas a partir de R$ 99, enquanto casacos especiais podem chegar a R$ 1.800. O Gucci Horsebit original custa em torno de R$ 1.450, e sapatos da Paraboot aparecem na faixa dos R$ 980. 

A seção de vestuário, lançada no início do ano, teve uma recepção tão positiva que o maior desafio passou a ser manter o abastecimento. Alessandro está constantemente recebendo novas peças, mas não se incomoda com a rapidez com que alguns produtos desaparecem. “Pelo contrário: acredito que a escassez faz parte do encanto do vintage. A impossibilidade de encontrar duas peças exatamente iguais cria desejo, expectativa e transforma cada visita em uma oportunidade de descoberta.”

O próximo passo é levar essa pesquisa para uma coleção própria. Sob o nome P&Co., Alessandro prepara o lançamento de uma linha de roupas desenhadas a partir das referências que orientam seu olhar sobre o vintage. A estreia está prevista para o fim de novembro, com calças e casacos em quatro cores, seguidos por camisetas em 2027. A proposta é trabalhar com tecidos nacionais, atenção especial aos acabamentos internos e uma construção atemporal, com abastecimento mais contínuo do que o oferecido pelas peças garimpadas. A ideia é crescer gradualmente, incorporando também acessórios.

Essa atenção aos detalhes se estende a outra paixão: os relógios antigos. Alessandro reúne mais de 30 modelos, alguns das décadas de 1930, 1940 e 1950, e prefere usá-los a mantê-los guardados em uma coleção. No pulso, um Rolex Datejust dos anos 1960, acompanhado de uma rara pulseira de aço de época, resume bem sua relação com os objetos: a beleza está tanto na história quanto na possibilidade de incorporá-los ao cotidiano. Smartwatches, naturalmente, não fazem muito sua cabeça.

Há também uma dimensão afetiva por trás de algumas de suas escolhas. O avô José Bergamin, cuja presença imponente ficou na memória da família, costumava usar óculos de armação grossa, que sempre despertaram a admiração do neto. Alessandro prometeu que, quando precisasse de óculos, escolheria um modelo semelhante. Começou pelo Wayfarer e, desde então, transformou esse tipo de armação em uma de suas marcas pessoais. 

O Paradiso Vintage parece funcionar como uma extensão bastante fiel de seu fundador. Mais do que uma loja de roupas e objetos antigos, é um espaço de pesquisa e convivência entre épocas, referências e achados que resistiram ao tempo. Alessandro não parece interessado em reproduzir literalmente o passado, mas em identificar nele aquilo que continua fazendo sentido. “Talvez esteja aí a essência do meu estilo: uma elegância construída por escolhas pessoais, sem pressa e, sobretudo, sem prazo de validade,” diz.

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