Vida longa ao Verissimo

Vida longa ao Verissimo

Livros, exposições, acervos e objetos pessoais mantêm em evidência a obra do grande cronista brasileiro que teria feito 90 anos

O cronista que nos deixou no ano passado e completaria 90 anos em 2026, Luis Fernando Verissimo (1936-2025) volta a ter um livro lançado — e a ser lembrado. 

E quem é lembrado permanece vivo.

Crônicas de Domingo (Companhia das Letras, compre aqui) — um recorte específico de vida e de criação intelectual — recupera parte da extensa produção do cronista, que por mais de cinco décadas acumulou milhões de leitores e a eles ofereceu o melhor de seu vasto e múltiplo repertório, não apenas como colunista de jornal, mas ainda como redator para programas televisivos, roteirista, romancista, publicitário, cronista esportivo, chargista e humorista.

O livro reúne os últimos textos do autor gaúcho antes da aposentadoria compulsória, quando problemas de saúde o afastaram de seus textos e afetaram sua comunicação com as pessoas. Publicados originalmente nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo entre 2016 e 2020, os textos selecionados permaneciam inéditos em livro.

A chegada de Crônicas de Domingo é complementada pela exposição Traçando Verissimo – O Mundo Fabuloso do Mestre do Humor, em cartaz no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo, até fevereiro de 2027. A exposição recupera 300 itens do seu acervo, incluindo desenhos inéditos, manuscritos, objetos pessoais (como o sax que ele tocava), fotos de família e cadernos de infância.

E vem muito mais por aí, como detalha na entrevista a seguir o músico Pedro Verissimo, filho mais novo do autor e organizador da antologia. 

Suponho que a maior dificuldade tenha sido filtrar, já que o material era extenso. Qual foi o critério (ou critérios) que usaste?A produção do meu pai nesses 50 e tantos anos de atividade é impressionante, para dizer o mínimo. Na maior parte desse tempo, ele escreveu ao menos uma coluna inédita por dia, além das tirinhas (também diárias) das Cobras, de roteiros de TV, colunas avulsas, Família Brasil etc. Para se ter uma ideia, numa pesquisa inicial que fiz entre 1998 e 2020, apareceram umas 4 mil crônicas. Isso só nos arquivos do Estadão, fora os outros jornais e revistas.

Mas minha intenção era focar nos últimos anos. O livro anterior, Ironias do Tempo, foi lançado em 2018 e eu sabia que dali em diante havia muita coisa boa inédita em livro. E acabei indo só um pouquinho mais para trás, até 2016, procurando o que não tinha entrado no Ironias. Então, o primeiro critério foi esse: crônicas inéditas em livro.

O segundo foi deixar de lado algo que fizesse o leitor parar e tentar lembrar o que estava acontecendo na época em que o texto foi escrito. Queria um livro mais fluido e que fosse independente do calendário.

E, do momento que meu pai parou de escrever até agora, muita coisa aconteceu. Tantos personagens e enredos novos que mesmo uma figura como o Queiroz, dos Bolsonaro, acabaria precisando de uma notinha de rodapé.

Você nota bem que quando ele passou a publicar “apenas” três vezes por semana, ele deixou para o domingo algo mais próximo da crônica, da ficção, e menos do relato em cima do noticiário. Ele tinha bem claro na cabeça dele essa divisão?

Acho que essa separação era bem clara, sim. E acredito que intencional. Meu pai era surpreendentemente organizado, fazia listinhas com palavras-chave para o que ia escrever em qual dia e onde. Às vezes, claro, era atropelado pelos fatos do dia… e às vezes era o que saía na hora mesmo. Ele próprio dizia que o prazo era sua grande musa inspiradora. Na exposição, há algumas dessas cadernetas e anotações, ótimas para dar uma espiadinha na cabeça dele e entender como ela se organizava. 

Mas, grosso modo, a divisão era bem essa: nos dias de semana os fatos políticos, filmes em cartaz, coisas do momento. E aos domingos as coisas mais perenes, as tais ficções, reflexões e memórias. Nem sempre, mas quase sempre.

Você conta que só descobria o resultado das crônicas como todos os leitores: no dia seguinte ao abrir o jornal. Teu pai não mostrava nada a ninguém (tuas irmãs, tua mãe, algum amigo) enquanto escrevia?

Não escondia nada nem se incomodava se fôssemos no computador espiar, mas também não pedia opinião — mesmo que sempre aceitasse pitacos e sugestões com tranquilidade. Se concordasse, usava. E, muitas vezes, quando ele falava de algum assunto determinado, dava para pressentir qual seria o tema da próxima crônica — mas eu nunca perguntava se seria mesmo. Preferia esperar o jornal e ver se eu tinha acertado.

E acertava bastante. Acho que eu já tinha essa sensibilidade bem treinada.

Temos um livro e uma exposição. O que mais está sendo previsto?

O acervo dele, que está em comodato na Unisinos, entrou num edital de digitalização proposto por eles e vai — finalmente! — ser digitalizado e organizado de forma a permitir pesquisas. E isso certamente vai resultar em algumas edições organizadas por temas ou datas.

Nos planos da editora está uma nova e mais completa antologia As Cobras, por exemplo. São pastas e mais pastas dos originais das tirinhas, uma imensidão. Esse já está amarrado. No horizonte também está uma edição revista do Poesia numa hora dessas?! com desenhos inéditos.

E ainda tenho a ideia de fazer o Who’s Who do Verissimo. Bastou uma olhada nos arquivos desses anos que pesquisei para ver que tem muitas crônicas sobre pessoas reais, às vezes como personagem de alguma ficção, alguns obituários, perfis. Pretendo ver se rende um livro inteiro.

E, por fim, o que ele estaria achando da situação do Internacional?

Acho que o mesmo que estaria achando do País, um misto de horror e de torcida para que não acabe de vez.

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