O que o BTS aprendeu com a escola Motown

O que o BTS aprendeu com a escola Motown

O fenômeno global do K-pop tem raízes na lendária gravadora americana que produziu ídolos como uma linha de montagem

Na quarta-feira passada, o grupo coreano de K-pop BTS pisou nos palcos brasileiros depois de sete anos. 

Três performances no Morumbis, em São Paulo, para um público estimado em mais de 250 mil pessoas, sendo que algumas pagaram cerca de R$ 4 mil por um “pacote VIP”. O ingresso inclui, além de acesso antecipado ao local do evento, prioridade na compra de merchandising e até uma conferida na passagem de som dos sete rapazes, responsáveis por sucessos como Dynamite, Boy With Luv e Butter.

As críticas ao septeto, aliás, são tão frequentes quanto a massa de adolescente que tomou a capital paulista de assalto nos últimos dias: a opinião geral sobre o K-pop é que ele seria um gênero fabricado em linhas de montagem, com músicas que trazem uma fórmula fabricada e, algumas vezes, são feitas para “durar um verão” (embora o pacote de hits do BTS traga canções que estão prestes a completar uma década de vida). 

Mas e se eu disser — ou melhor, escrever — que há conexões entre a fórmula do K-pop e a Motown, maior gravadora americana de música negra e jovem de todos os tempos?

Quando Berry Gordy Jr. criou a Motown, em janeiro de 1959, sua ideia era refletir — nas palavras dele — o “som da jovem América.” Mas ele fez mais do que isso: ex-funcionário da Ford, a empresa automobilística baseada em Detroit (trabalhou numa fábrica das marcas Lincoln e Mercury), Gordy adaptou o processo de linha de montagem da companhia para o seu empreendimento. 

Os futuros ídolos passariam por várias etapas de evolução, que incluíam desde aulas de canto, dança e etiqueta; um time de compositores, arranjadores e produtores, que moldava canções para o perfil de cada um dos jovens intérpretes. 

“Na fábrica, os carros começavam apenas como uma estrutura, sendo puxados por esteiras transportadoras até surgirem no final da linha. Eu queria o mesmo conceito para a minha empresa, só que com artistas, músicas e discos. Queria um lugar onde um jovem vindo da rua pudesse entrar por uma porta como um desconhecido e sair por outra como um artista contratado — uma estrela,” disse Gordy, em sua autobiografia.

O toque final ficava por conta do “controle de qualidade” — outra estratégia que o seduziu na Ford — em que Loucye Gordy, irmã do executivo, selecionava as canções postulantes a sucesso e organizava audições para todos os funcionários da companhia, a fim de que eles dessem notas para o que tinham acabado de escutar. 

Os singles também obedeciam a certos, digamos, mandamentos: nenhum deles poderia passar de três minutos porque as rádios detestavam músicas longas, assuntos como política e religião eram proibidos. 

O cast era composto em sua maioria por afro-americanos, mas as produções da Motown eliminavam todo e qualquer traço de “negritude” na pronúncia de seus contratados: a ideia era criar uma música que fosse assimilada por negros e brancos.

O K-pop é um dos reflexos da influência maciça da cultura americana no país asiático, iniciada após a Guerra da Coreia, que durou de 1950 a 1953 e que contou com a colaboração das forças armadas dos Estados Unidos (que até hoje possuem bases por ali). 

Os laços se estreitaram ainda mais com a chegada da AFKN, emissora que transmitia os programas mais populares da terra de Berry Gordy. 

E a música, assim como os desenhos animados, teve uma importância vital para a nova cultura coreana. O namoro com os Estados Unidos gerou até uma atração local — as Kim Sisters, trio que emulava a soul music americana e chegou até a se apresentar nos Estados Unidos (um proto K-pop, talvez?).

A grande aposta do país asiático em relação à cultura se deu em 1994, quando o Conselho Presidencial de Ciência e Tecnologia da Coreia do Sul enviou um estudo ao então presidente Kim Young-sam, no qual informava que o lucro obtido por Jurassic Park, de Steven Spielberg, equivalia à venda e exportação de 1,5 milhão de carros da Hyundai. 

Foi criado, no ano seguinte, o Departamento da Indústria da Cultura a fim de produzir um material cultural para a exportação — ou seja, o sucesso de produções como O Parasita, vencedor do Oscar de melhor filme de 2020, e inúmeras novelas coreanas que assistimos nos dias de hoje, e, claro, o K-pop, são frutos desse investimento.

O gênero musical sul-coreano assimilou a linha de produção da Motown — que, posteriormente, inspirou fenômenos como New Edition, Boyz II Men, Backstreet Boys e N’Sync — e os uniu com os estilos musicais consumidos na época pelo mercado americano. Ou seja, R&B (a soul music moderna), hip hop, trap, música eletrônica e até rock. 

Todos os astros do K-pop, assim como os da Motown, fazem parte de um pacote que inclui música, visual (o que eram aqueles terninhos dos astros soul e o que são as roupas descoladas de BTS e ATEEZ?) e, claro, muita memorabilia para vender. 

As canções do K-pop, ainda que modernas, vez ou outra trazem uma reverência ao fenômeno Motown. Boy With Luv, que o BTS lançou em 2019, traz participação da americana Halsey — uma das estratégias de Gordy era unir astros do seu catálogo para fortalecer a marca no mercado. Dynamite, também do BTS, traz o balanço da disco music típica dos anos 1970 e Nobody, das Wonder Girls, remete às Supremes, trio liderado pela cantora Diana Ross. 

O fenômeno Michael Jackson é outro fator importante na assimilação da Motown pelo K-pop. A visita do cantor a Seul, em 1998, como parte da HIStory Tour, não apenas mexeu no universo musical do país, como causou um incidente bizarro: durante a execução da música Earth Song, um admirador mais exaltado escalou a grua na qual Michael estava pendurado e abraçou o cantor — por pouco não causou uma tragédia. 

O K-pop abraçou a música e o visual do cantor de Thriller mas também se “inspirou” (o correto seria dizer que surrupiou) diversas das coreografias do popstar americano — o moonwalk, os chutes no vácuo, os giros rápidos e até o uso do chapéu são frequentes nos clipes dos astros de K-pop.

A Motown possuía um time de compositores e produtores para criar os sucessos cantados pelos astros de seu catálogo. Casos do trio Holland/Dozier/Holland, de Smokey Robinson e da dupla Nick Ashford e Valerie Simpson, autores de boa parte dos clássicos pop que escutamos. 

No K-pop, esses hitmakers atendem pelo nome de Teddy Park,  Bang Si-hyuk (Hitman Bang, que trabalha muito com o BTS), KENZIE e Brave Brothers.

A diferença principal entre a Motown e o K-pop é que, tempos depois, astros como Marvin Gaye e Stevie Wonder se rebelaram contra as normas da companhia e ganharam uma certa independência, revolucionando o mercado. 

O pop coreano tem seu quinhão de compositores — Hongjoong, do ATEEZ, Zico e G-Dragon, entre outros —, mas nenhum deles criou qualquer revolução estética na música. Aguardo ansiosamente pelos próximos capítulos.

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