O brasileiro gosta de não gostar de Romero Britto

O brasileiro gosta de não gostar de Romero Britto

O artista tornou explícito algo que o mundo da arte prefere manter sob iluminação museológica: arte também é mercado e marca

O Brasil nunca esteve tão polarizado nas ideias e tão descolorido nos humores, mas existe um ponto em que o País segue unido: todo mundo gosta de não gostar de Romero Britto. Virou esporte nacional, o que já revela a falta de assunto e de heróis numa época em que até a Copa do Mundo divide opinião. 

Rejeitá-lo sem conhecê-lo virou hábito, sustentado apenas por ouvir falar do que ele produz. Faz mais de 40 anos que o artista plástico ocupa uma zona de desconforto no imaginário brasileiro; deixou de ser apenas um talento duvidoso para se tornar referência de mau gosto, uma unidade de medida informal. Uma sala pode ser “meio Romero Britto”, uma estampa pode estar “muito Romero Britto”, uma combinação de cores pode parecer “um Romero Britto”, e todos compreendem imediatamente o diagnóstico, inclusive pessoas que provavelmente nunca estiveram diante de uma obra original sua. 

Pouquíssimos artistas conseguem transformar o próprio sobrenome em adjetivo. No caso dele, conseguiu e ainda levou uma vaia. O momento atual acrescenta alguns ingredientes a essa velha implicância. Em ano de eleição, seu nome ativou algumas lembranças capazes de engatilhar velhos traumas. Britto pintou Jair Bolsonaro num passado não muito remoto e atualmente está com uma obra numa exposição em Washington que celebra os 250 anos dos Estados Unidos, encomenda de Donald Trump e companhia. Curiosamente, é o mesmo homem que explica pouco depois que prefere manter distância da política porque um artista deveria conseguir conversar com todo mundo. Para definir sua posição, encontra uma expressão maravilhosa: “Sou um tipo de artista suíço.”

A Suíça de Romero tem palmeiras onde canta um sabiá com sotaque cubano e Bentleys estacionados na garagem. Vive em Miami, onde garante ter virado o endereço das pessoas e empresas mais inteligentes do mundo, citando Google, Apple e Jeff Bezos como provas recentes de que escolheu o lugar certo décadas antes de virar clichê. 

Entre Romero e Miami existe uma relação de ovo e galinha: ninguém sabe ao certo quem é a cria de quem, ou quem acabou com a cara de quem. É mimetismo, simbiose, uma sinergia alucinógena e psicodélica que só um Xanax ajudaria a contemplar com calma e tempo suficiente para separar as camadas. 

Nosso personagem construiu boa parte da carreira recusando-se a ver contradição onde os outros insistem em enxergar apenas isso: arte e dinheiro, original e reprodução, museu e shopping caminham juntos por um emaranhado de contratos de licenciamento que não para de crescer. A última delas, uma parceria com a Skechers, a marca de tênis preferida de hipertensos e turistas, que promete colocar cinco milhões de pares no mundo inteiro logo na primeira coleção. 

Romero pertence a uma linhagem 100% brasileira de gente que fez tanto sucesso lá fora que a conquista virou, em casa, um tipo de agravante. Paulo Coelho conhece bem o fenômeno; durante décadas, seus milhões de exemplares vendidos, traduções e leitores distribuídos pelo planeta conviveram com uma rejeição quase xamânica de parte da intelectualidade brasileira, para quem bruxaria, destino e espiritualidade dificilmente constituíam os materiais mais recomendáveis para entrar pela porta da frente da literatura. O mundo lia Paulo Coelho enquanto nós discutíamos se ele poderia ser chamado de escritor, opinião que, vista décadas depois, diz tanto sobre o Brasil quanto sobre O Alquimista.

Com Romero aconteceu algo semelhante por outros caminhos. No lugar do esoterismo, veio o licenciamento; no lugar dos milhões de livros, milhões de objetos. Seus desenhos deixaram a tela e passaram a aparecer em praticamente tudo aquilo que possuía uma superfície disponível para recebê-los, da papelaria às malas, dos relógios às bonecas, dos carros às embalagens, louças e utensílios domésticos. Coca-Cola, Disney, Mattel e uma procissão considerável de marcas participaram dessa expansão. 

O problema, para seus críticos, é que em algum momento ficou difícil saber onde terminava a obra e começava o souvenir, embora essa separação só pareça indispensável quando o artista em questão é Romero Britto. “Sou o artista mais licenciado da história da arte,” diz, informação que atribui a uma reportagem da CNN. Não foi encontrado um ranking de licenciamento artístico, mas o volume de produtos existentes torna a pretensão ao menos compreensível. 

Momento Wikipedia: Britto não nasceu Britto. Seu registro civil diz Romero Francisco da Silva Brito, com um único T, lavrado em Recife no ano de 1963. O segundo apareceu na assinatura artística e funcionou tão bem que acabou transformando Britto em algo maior do que um sobrenome: marca, logotipo e, como vimos, até adjetivo. O artista tentou fazer a burocracia acompanhar os acontecimentos e levou à Justiça o pedido para acrescentar oficialmente a segunda consoante, mas o STJ decidiu em 2021 que a notoriedade do nome artístico não constituía razão suficiente para alterar o patronímico familiar. Romero conseguiu imprimir Britto numa quantidade formidável de papéis pelo planeta, mas encontrou finalmente uma que resistiu à personalização: o cartório.

Autodidata, nasceu numa família de nove irmãos e começou a pintar aos 8 anos em jornais, papelão e sucata. “Na condição de criança pobre no Brasil, tive contato com o lado mais sombrio da humanidade, pintava para trazer luz e cor à vida,” disse em outra entrevista. Na adolescência, fez amizade com os filhos de um diplomata, cônsul em Londres, e a curiosidade despertada o levou a sonhar com o Itamaraty; aos 17 anos entrou na faculdade de Direito da Universidade Católica de Pernambuco de olho nessa carreira, mas não foi adiante. Em 1983, viajou a Paris e ao descobrir a obra de Matisse e Picasso acabou desenvolvendo uma linguagem própria, que instituições hoje situam entre o cubismo e a pop art. Para imaginar o que seria, é como se uma obra de Roy Lichtenstein fosse batida no liquidificador com uma sombrinha de frevo e depois derramada no saguão de um duty free. Não digo isso como crítica, pois a esta altura Lichtenstein provavelmente também estaria assinando uma mala de bordo. Seus quadros originais são majoritariamente acrílica sobre tela, por secar mais rápido e ser compatível com a produção em volume – às vezes com caneta a óleo para os contornos e detalhes, ou técnica mista com colagem, folha metálica e verniz.

Romero fez dessa técnica uma máquina incessante de retratos, colorindo a fuça de um número impressionante de gente famosa. Jackie Kennedy e John F. Kennedy aparecem juntos na obra American Dream; Michael Jackson, Bill Clinton, Madonna, Dilma Rousseff, o príncipe William e Kate Middleton também passaram, em diferentes momentos, por seu tratamento cromático. 

É uma galeria ecumênica o suficiente para abrigar democratas, republicanos, monarcas, popstars e brasileiros de campos políticos que dificilmente aceitariam sentar à mesma mesa, embora sob seu olhar todos acabem submetidos a uma diplomacia idêntica de cores fortes, contornos pretos e otimismo compulsório. Conflitos, escândalos, tragédias, tiros, impeachments e outras pequenas inconveniências da vida pública parecem suspensos por um coração azul no rosto e algumas faixas vermelhas ao fundo – o século XX teria sido menos complicado se tivesse descoberto isso antes.

Quando conversamos, Romero tinha acabado de passar duas semanas no Japão, país que visita há mais de 30 anos e onde diz que seu trabalho faz “o maior sucesso.” Hoje existe também uma razão íntima para essas viagens: Brandon Britto, seu único filho, de 36 anos, vive em Tóquio e trabalha na Sega como engenheiro de som. Romero fala dele com orgulho e depois volta aos japoneses, que, segundo acredita, possuem uma ligação especial com sua obra: “Eles têm realmente afinidade relacionada aos trabalhos com mensagem positiva e alegre, como o meu.” 

Nosso papo via Zoom sai por alguns minutos das artes plásticas e entra na vida privada. É viúvo; a mulher, Cheryl Ann Britto, morreu em 2018, aos 69 anos. Diz que está bem sozinho e tem a arte, devolve a pergunta e quer saber sobre minha vida afetiva. Pintou um clima com o pintor? Nada, não sou dado a amizades coloridas com ricos e famosos. 

Seguimos a entrevista, tudo em nome da velha arte de confrontar artistas, esses seres tão iluminados que, sempre que assumo meu posto de jornalista, acabam encontrando uma maneira de me lembrar que repórter é mesmo um serzinho desinformado. Eu, por exemplo, não fazia ideia que o pernambucano comandava uma organização com mais de 100 pessoas, entre galeria, licenciamentos e produção. Não sabia que trabalhava num estúdio de cerca de 5.500 metros quadrados, que ele apresenta como o maior do mundo, “maior até que a Casa Branca”... Tampouco imaginava que estava construindo um museu próprio, aberto ao público, algo que o ateliê atual, reservado a colecionadores e convidados, não é. 

A conversa mal tinha começado e minha ignorância já causava certo incômodo no ar. Outro lapso: não sabia que Romero havia sido tema de um documentário lançado durante a semana da Art Basel Miami Beach, em 2024. A história de sua vida virou The Britto Doc, dirigido por Patrick Moreau, com depoimentos de Gloria Estefan, Marc Anthony, Martha Stewart e grande elenco. É uma trajetória com praticamente todos os ingredientes de que o imaginário americano gosta: origem modesta, ambição, imigração, trabalho árduo, dinheiro a rodo, pencas de celebridades e a convicção inabalável de que sempre existe espaço para fazer tudo um pouco maior. Romero Britto é o American Dream traduzido ao pé da letra, pintado e grafitado, carimbado, copiado, pasteurizado, impresso, espalhado e finalmente explodido em escala industrial.

A alegria é uma palavra proferida quase que obsessivamente – vamos chamar de mantra para deixar tudo mais leve – porque entendeu há muito tempo que ela é, ao mesmo tempo, o produto que vende e a acusação que lhe fazem. Em 1992, de acordo com a sua organização, nasceu o Happy Art Movement com a missão de difundir felicidade, amor, diversão e otimismo através da arte. O manifesto oficial vai além e apresenta seu trabalho como uma filosofia de vida, chegando à “essência platônica da felicidade.” Entre Platão e um porta-colheres colorido existe, portanto, um caminho; era apenas necessário que Britto o encontrasse. 

Uma visita à loja oficial do artista ajuda a entender o conceito em sua plenitude material. Originais e esculturas convivem com malas, relógios, copos, canecas, utensílios de cozinha, chaveiros, bichos de pelúcia, quebra-cabeças e uma variedade de objetos que demonstra que, quando Romero diz acreditar que a arte deve ser compartilhada, não está falando metaforicamente. 

A expressão “arte para todos” costuma soar democrática nos discursos de museu e ele teve a imprudência de levá-la da cama até a cozinha. A operação possui inclusive sua própria economia da felicidade, com um programa chamado Happy Points, no qual compras e outras interações acumulam pontos que podem ser trocados por recompensas. No universo Romeriano, felicidade traz dinheiro e dinheiro compra felicidade – Warhol não só teria entendido, como riscado de seu caderninho o nome de Britto da lista dos famosos por apenas 15 minutos.

Hoje, sua obra está espalhada por galerias e coleções em todos os continentes, como também em aeroportos e espaços públicos em sua terra de adoção e adoração. Em 2016, Romero foi incluído no Florida Artists Hall of Fame, a maior honraria concedida pelo estado a artistas, passando a integrar uma lista que inclui Ray Charles, Tennessee Williams, Ernest Hemingway e Robert Rauschenberg. Como o próprio organismo o descreve, Britto é um “Miami-made” com trabalhos exibidos em mais de 100 países, além de ter participado do Salon de la Société Nationale des Beaux-Arts no Carrousel du Louvre e sido o primeiro artista vivo convidado a expor no Museo Soumaya, na Cidade do México. 

Romero não parece isolado do mundo da arte que tantas vezes o tratou como corpo estranho. Pelo contrário, faz questão de dizer que conhece Jeff Koons, é amigo dele e também coleciona seu trabalho. Em outros momentos aparecem o empresário e bilionário Carlos Slim, a filantropa e bilionária Alice Walton,  fundadora do Crystal Bridges Museum of American Art, o músico e bilionário Elton John, o ex-ator e político bilionário Arnold Schwarzenegger, o tenor bilionário Andrea Bocelli, os estilistas bilionários Dolce & Gabbana, o rei bilionário Charles, e Barack Obama, que deve ser bilionário. Tem também o amigo que pagou US$ 42 milhões para ir ao espaço, Guy Laliberté, do Cirque du Soleil, citando seu feito com a mesma naturalidade de quem menciona alguém que foi à padaria. 

Romero pinta todos os dias, é um legítimo workaholic made in USA. Observo que seu jaleco está estrategicamente manchado de tinta como se um estilista da Bicho Comeu tivesse passado por ali para estampá-lo. Ele mostra os sapatos e a calça igualmente “sujos” e conta que chega ao estúdio com vários trabalhos simultaneamente em andamento, sem a fantasia romântica de sentar diante de uma tela branca esperando que uma epifania dê o ar da graça. “Já chego sabendo o que é preciso entregar e para quem, são muitas encomendas. Não tenho tempo de ficar tipo ‘Oh my God, o que eu vou fazer hoje?’” 

Talvez seja essa ausência de angústia performática que continua perturbando tanto; Romero não parece desejar o papel do artista que sofre pela arte, tampouco o do intelectual que precisa explicar por que aquilo que faz é importante. Trabalha, vende, licencia, viaja, encontra presidentes, reis e bilionários, manda um emoji via WhatsApp para Jeff Koons, pinta mais, vende mais e, quando alguém pergunta sobre a crítica, responde que prefere saber a opinião de Alice Walton. 

O homem que passou décadas ouvindo que não pertencia ao mundo da arte construiu uma realidade paralela em que já não precisa pedir licença para pertencer. “Não sou o primeiro artista a ser criticado, ou não ser entendido,” responde, acrescentando que “as pessoas têm muita inveja também.” Picasso, Warhol e Salvador Dalí surgem em seguida para testemunhar que ele não está sozinho. É uma característica deliciosa de Romero: pergunte sobre rejeição e ele se lembrará de um gigante que também foi rejeitado; pergunte sobre incompreensão e aparecerá outro gênio que precisou esperar pelo tempo; fale de licenciamento e Warhol estará disponível para depor em favor da defesa. Romero possui uma habilidade admirável para jamais permanecer sozinho numa frase sobre a história da arte.

Inveja seria apenas uma explicação conveniente se a rejeição a Romero no Brasil não tivesse adquirido contornos que ultrapassam a crítica estética. Em maio de 2015, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem intitulada “Odiar Romero Britto é fácil”, que procurou 22 representantes do mundo das artes para discutir sua obra; metade recusou-se a falar, e a justificativa atribuída à assistente de um galerista era extraordinária em sua concisão: falar de Romero Britto “pega mal.” A crítica é legítima, mas o constrangimento social é mais interessante. Mais do que gostar ou não do artista, o que pesava era o risco de contaminação por levá-lo a sério.

O mesmo pudor não aparece do outro lado do balcão. Em 2017, a venezuelana Madeleyne Sánchez, dona do restaurante Olé Olé and Tapelia, em frente à galeria de Romero em Miami, acusou o artista de maltratar sua equipe durante uma refeição no local. Semanas depois, comprou uma das esculturas de porcelana dele, a Big Apple, avaliada em quase R$ 26 mil, e a atirou no chão bem na frente dele. O vídeo, gravado por uma funcionária da galeria, só viralizou em 2020, três anos depois do episódio, prova de que a implicância com Romero Britto tem paciência e memória longas.

Existe um velho hobby entre os intelectuais, e não apenas os brasileiros, de desprezar com empenho quem não chega munido dos códigos que deveriam autorizar sua entrada. Origem, sotaque, escola, repertório, sobrenome, roupa e a maneira correta de demonstrar indiferença ao dinheiro continuam funcionando como pequenas senhas de pertencimento em ambientes que adoram se imaginar imunes às distinções de classe. 

Isso não significa que toda crítica ao seu trabalho esconda preconceito de classe ou ressentimento. Seria uma maneira eficiente de interditar qualquer discussão sobre sua obra e uma defesa tão preguiçosa quanto dizer que seus quadros são ruins porque há corações demais. É perfeitamente possível olhar para um Romero Britto e achá-lo feio, afinal a humanidade sobreviveu a discordâncias estéticas mais graves. 

O que chama atenção é a necessidade de transformar a preferência estética alheia numa falha moral. O grande pecado de Romero foi tornar explícito demais algo que o mundo da arte prefere manter sob iluminação museológica: arte também é mercado, marca, circulação, desejo, status, investimento e consumo. Murakami fez Louis Vuitton, Yayoi Kusama transformou suas bolinhas em bolsas da mesma grife, e museus descobriram há muito tempo que a loja na saída da exposição também faz parte da experiência cultural. Romero simplesmente chegou cedo à festa e, como de costume, trouxe cores demais. 

Talvez seja cedo para a intelligentsia entender o legado e a real dimensão do seu trabalho; a complexidade da simplicidade, da repetição exaustiva de sua obra, talvez exija um distanciamento histórico que o presente ainda não oferece. Basta uma curadora decidir com mesma retórica que um Damien Hirst vale cada centavo de investimento e que gastar os tubos num gouache assinado por Banksy também é uma boa ideia. Quem sabe chegue a vez de Romero. 

Ele já escolheu o endereço: “quero estar num lugar onde todos possam me ver, como o Grand Palais, em Paris”. Até lá, Britto sonha alto, pensa grande, pinta um mural gigante e espera o dia em que o MoMA o pendure na parede. “Eventualmente vai acontecer,” profecia. É questão de tempo. Como tudo na vida. Até lá, há cinco milhões de pares de Skechers soltos pelo mundo.

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