Sem calcinha, às onze e meia da manhã
A casa já cheirava a bife acebolado quando abri os olhos. O vestido tinha aquele ranço esquisito de quando a roupa seca longe do sol. O rímel fazia um risco que ia da sobrancelha à ponta do nariz, colando a pálpebra na linha d’água. Mas o gosto era dos melhores.
Fechei os olhos e tentei repassar a noite anterior. As imagens vinham em flash. Jorros de água, crises de riso, uma dança aleatória no salão. Tirei o vestido, como se pudesse pensar melhor sem ele.
Não lembrava que tinha dormido sem calcinha.
Deixei minha mão deslizar meu corpo, acordando minhas memórias.
Voltei para o balcão empilhado de garrafas e desencontros.
Do nada, o André.
Mas não o de meses atrás, que tinha o rosto fechado e o ombro sempre doendo. Um André solar, de seis, sete anos passados, que assistia futebol no celular para me acompanhar no almoço chato de domingo, perdia a hora para me ver entrando no banho, deixava a carne passar do ponto porque eu tenho nervoso de comer sangrando.
Tentei fazer meu cérebro entender que ele tinha aberto a gaveta errada, mas me rendi. Daquele André eu gostava.
Deixei ele andar pelo salão, olhar os decotes, se embriagar com outros perfumes. O cara de ontem entrava, a gente começava a se beijar.
Fraco.
Eu que chegava. Acompanhada, íntima. Às gargalhadas com o cara de ontem.
Zero tesão. Próxima.
Meu ex chegava com outra. Eu andava até os dois. A mulher se levantava e, sem dizer nada, começava um jogo de espelho. Minha mão na dela, as coxas, a pele.
Também não.
Abri os olhos. O ventilador girava devagar no teto. Será que o moço da piscina sabe arrumar essa haste capenga? A panela de feijão apitava lá embaixo. Minha mãe gritava para não esquecer a salada.
Quarenta e poucos anos. Minha mãe fritando bifes na minha cozinha. Eu sem calcinha, às onze e meia da manhã. Que fase.
Voltei a fechar os olhos. Meu ex continuava ali. O cara de ontem também. A mulher dele, o homem do bar, o garçom. Uma plateia inteira.
Acho que é hora de voltar para a terapia.
Abri os olhos de novo. Dessa vez, o quarto ficou.














