Viviane Mosé: a filósofa que está lotando os teatros do Brasil

Viviane Mosé: a filósofa que está lotando os teatros do Brasil

Ao traduzir conceitos complexos a públicos heterogêneos, protagoniza solo teatral que evoca memórias pessoais

Não há nada de estranho em ver Viviane Mosé no teatro. A filósofa, poeta e psicanalista capixaba de 62 anos, pelo menos, conta que sempre viveu em um palco. Onde tem um improviso, ela entra e garante dominar o ambiente.

Foi assim na equipe de ginástica olímpica na infância, no curso de interpretação da igreja na adolescência e no grupo de teatro da faculdade de psicologia, no começo da década de 1980, em Vitória.

Morando no Rio de Janeiro, nos anos de 1990, participou de saraus literários, fez workshops com o diretor Gerald Thomas e levou à cena um de seus livros, Toda Palavra, sob o comando de Ana Kfouri. 

Viviane, porém, ganhou a fama de filósofa pop ao apresentar o quadro Ser ou não Ser, no Fantástico, programa dominical da TV Globo, em 2005 e 2006. “Sempre tive o domínio da fala,” disse em entrevista ao Page9. “Desde os 8 anos, na sala da minha casa, eu ensaiava poemas.”

Só que, agora, Viviane é a protagonista do monólogo Um Sim à Vida, o que conota uma responsabilidade maior. Em cena, ela costura fragmentos de seus livros, conceitos filosóficos, memórias nem tão tranquilas e até dança. “Os movimentos são meus, eu que crio, trouxe a técnica da ginástica olímpica,” avisa.

Não existe um texto formal. As narrativas são “mais ou menos decoradas” para ordenar o raciocínio. Mas é bom avisar: pouco tem a ver com as palestras que ministra há 22 anos – sempre na base da improvisação, às vezes descobrindo o tema horas antes de encarar o público.  

Sob a direção de Lee Taylor, Um Sim à Vida fez duas apresentações, nos dias 6 e 7 deste mês, no Teatro Prio, no Rio, emendou um par de noites, 12 e 13, no Teatro J. Safra, em São Paulo, e, de acordo com a agenda cheia de Viviane, começa a correr o Brasil. 

Em 1º de agosto, o solo volta à capital fluminense, no Festival de Teatro do Rio, e em 19 de setembro faz uma sessão em Vitória, no Teatro da Universidade Federal do Espírito Santo. Curitiba, Goiânia e Belo Horizonte devem ser as próximas paradas. O resultado pode ser considerado surpreendente, porque, de onde menos se espera, a fala de Viviane ganha contornos de atriz.

Um Sim à Vida começa com a protagonista, entre os corredores da plateia, avisando ao público que, só por todos estarem em um teatro, a experiência será diferente. O dom de comunicadora em poucos minutos segura a atenção da maioria, e a arte cênica se manifesta nos primeiros minutos em uma proposta de imagem que prova a ambição.

Viviane pega uma garrafa de água fechada e a compara à civilização. É o líquido preso, restrito ao vidro. Ao derramá-lo no chão, segundo ela, é deflagrada a vida, que sai do controle com o transbordamento e vem a liberdade.

“Só que quando a vida invade, ela dá trabalho e nem todo mundo gosta,” disse. E, assim, a filósofa vai desfilando teorias, evoca textos do alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) e cita Arthur Schopenhauer (1788-1860), Immanuel Kant (1724-1804) e Sigmund Freud (1856-1939).

Quando a razão parece dominar, Viviane dá um golpe de emoção próximo às peças autoficcionais comuns nos palcos brasileiros. Ela conta que recebeu uma visita da mãe quando seu filho tinha quatro meses e, naquele momento, as duas, que sempre viveram uma relação conturbada, ensaiaram uma contracena. “Eu não estava lá quando você nasceu. Meu peito estava, mas eu não,” disse a mãe, desculpando-se por não ter desempenhado bem o papel cobrado pela sociedade. 

Esta cena é o melhor exemplo do trabalho construído por Viviane e Lee Taylor, ator consagrado nos espetáculos do encenador Antunes Filho (1929-2019) entre 2004 e 2013, rigoroso na técnica e ciente do método. Sem forçar, o diretor faz a protagonista saltar da posição de narradora para a de intérprete. 

Um efeito semelhante é alcançado em outra passagem, quase no fim da peça, quando Viviane conta que, depois de uma decepção amorosa, aos 22 anos, cruzou os corredores de uma rodoviária chorando e prevendo que, daquela dor, tiraria uma transformação. “Eu viveria tudo outra vez, várias vezes, do jeito que foi,” ressalta.

O desejo de ampliar o estilo de palestra ou aula-show para uma encenação nasceu na pandemia. Viviane enfrentou uma separação dolorosa, ficou desestruturada e tomou consciência das influências dos traumas com a mãe em seus relacionamentos. “Senti que precisava fazer algo que fosse importante para mim e me colocar no palco como eu realmente sou,” disse.

Dirigida por Amir Haddad, em 2022, ela assinou a dramaturgia e interpretou Nietzsche no espetáculo Zaratustra — Uma Transvaloração dos Valores, do grupo Tá na Rua. 

Para não deixar a coragem desaparecer, marcou presença em apresentações do poeta Fausto Fawcett e da cantora Badi Assad e escreveu a peça Desato, dirigida por Duda Maia. “O que eu precisava era assumir o palco,” reconhece. “Nas palestras, sou eu quem está ali e, no teatro, sei que não, eu saio do chão.”

Filósofa, poeta, psicanalista, escritora com 14 livros publicados, e atriz. Viviane faz milhares de coisas e resume que, como tem uma personalidade limítrofe, gosta do “meio” em tudo. “Sou muito maleável, meio psicologia, meio filosofia e meio poesia, meio teatro,” define ela, que deixou de clinicar há 12 anos. 

No final das contas, Viviane acredita que conquistou uma certa harmonia porque faz o que gosta. Tem uma casa no Alto da Boa Vista, no Rio, um apartamento alugado, um sítio para descansar e o filho, Davi, de 22 anos, é músico, designer e toca a própria vida. “Eu me dei conta de que sou uma pessoa feliz e de sucesso,” conclui.