Numa rua normalmente tranquila de Higienópolis, quase mil pessoas esperavam num sábado para visitar Surrealismos: Arte para Além da Razão, a exposição que inaugura a nova sede da Pinakotheke.
Depois de décadas atuando entre Rio, São Paulo e Fortaleza, a galeria de Max Perlingeiro trocou o Morumbi por Higienópolis num momento em que o bairro se consolida como um polo cultural, próximo ao Instituto Moreira Salles, ao novo Itaú Cultural e às galerias Vermelho, Central e Gomide.
Instalada em um terreno de 700 metros quadrados, a casa foi inteiramente reformada e tem a mesma atmosfera da sede carioca, no bairro de Botafogo.
Max já planejava há dez anos uma ambiciosa exposição sobre os 100 anos do surrealismo – mas jamais imaginou que centenas de pessoas formariam fila para visitá-la.
A exposição blockbuster é co-curada pelo próprio Max e Tadeu Chiarelli, que assina um belo texto do catálogo propondo uma leitura ampliada do surrealismo, que atravessa décadas e geografias, incluindo artistas que não são imediatamente associados ao movimento.
A Pinakotheke está exibindo 100 obras de 60 artistas, incluindo os mais famosos surrealistas, como Dalí, Magritte, Chagall, de Chirico, Miró e Duchamp – e outros não tão óbvios, como Picasso, Giacometti e Escher.
O resultado é uma visão mais ampla – por isso o título no plural – que inclui artistas que abordam o sonho, o inconsciente e o fantástico.

Algumas obras poderiam estar em museus como o MOMA ou a Tate, como as pinturas La Fin du Monde (1963), de Magritte, St. Tropez (1939), de Picabia, e Le Bouquet dans le Ciel de Paris (1978), de Chagall.
Somente duas artistas têm um espaço exclusivo: Maria Martins – a artista brasileira mais próxima do movimento, dado seu relacionamento com Duchamp e Breton – e Louise Bourgeois, que embora não fizesse parte do grupo tem uma obra que aborda o inconsciente, os traumas e distorções corporais.
Além de Martins, diversos artistas brasileiros compõem a mostra. Uma obra importante de Tarsila do Amaral abre a exposição. A pintora modernista nunca integrou o movimento surrealista, mas pintava personagens distorcidos em ambientes fantasiosos. Max reuniu obras de qualidade excepcional do pintor paraense Ismael Nery, talvez o surrealista brasileiro mais autêntico, marcadas por metamorfoses e corpos torcidos e unificados. Outros artistas latino-americanos também estão presentes, como o argentino Berni e o mexicano Rivera.
Impressiona o País ter tesouros dessa magnitude nas paredes de residências privadas, a maior parte no Rio de Janeiro. Durante nosso tour da exposição, Max ressaltou a generosidade dos colecionadores que emprestaram as obras; muitas jamais haviam saído de suas residências, e provavelmente permanecerão fora do alcance do público quando a exposição terminar.

Os empréstimos só foram possíveis em função do prestígio que Max – um homem discreto e elegante, com uma bagagem de quase cinco décadas no sistema de arte brasileiro – tem junto aos maiores e mais antigos colecionadores de arte do Brasil.
Em 1979, a família Perlingeiro inaugurou a Pinakotheke Cultural no Rio de Janeiro. No ano seguinte, criou as Edições Pinakotheke – a mais antiga editora em atividade no mercado de arte.
Em 1987 abriram a Multiarte (hoje também chamada Pinakotheke) em Fortaleza e, em 2002, a filial paulista no Morumbi. Hoje, cada um dos quatro filhos de Max lidera uma dessas frentes. A galeria foi uma das pioneiras a ter mais de um espaço em diferentes estados, algo incomum 25 anos atrás.
Max iniciou sua trajetória em um período em que o mercado de arte nacional ainda era concentrado, e ficou conhecido pela formação e administração de importantes coleções ao longo de décadas – hoje já trabalha com a segunda e até a terceira geração de colecionadores.
Ele possui o raro talento de transmitir conhecimento e um entusiasmo pela arte que ultrapassam a formação de um patrimônio: é a continuidade de uma paixão que, em sua clientela, costuma passar de pais para filhos.

A pesquisa é a base de todas as suas atividades, Max disse ao Page9. As exposições exigem investigação, estudo e tempo de maturação, assim como seu trabalho editorial. Ao longo das últimas décadas, ele cuidou da publicação de mais de 90 livros dedicados à história da arte brasileira dos séculos XIX e XX – muitos premiados, incluindo três vencedores do Jabuti.
As exposições da Pinakotheke do Rio são famosas por sua qualidade e rigor curatorial, como a importante mostra dedicada ao centenário de Lygia Clark e a exposição Anjos com Armas.
Mas nenhuma exposição sua, em nenhum dos seus espaços – e por melhor que fossem as resenhas da crítica especializada – atingiu a dimensão de público de Surrealismos. Não me lembro de outra galeria do eixo Rio-São Paulo que tenha tido uma mostra com filas intermináveis na porta como esta.
O interesse maciço surpreendeu Max, mas talvez não devesse. Uma exposição de altíssima qualidade, com rigor intelectual e obras relevantes, merece todo o reconhecimento do público e da crítica.
Trata-se, aqui, de um trabalho impecável.












