Museu dedicado ao acervo de Cérès Franco reabre no sul da França

Museu dedicado ao acervo de Cérès Franco reabre no sul da França

Após quatro anos de reforma, o museu Cérès Franco, em Montolieu, reabre ao público e homenageia uma pioneira das artes

No sul da França, entre a renascentista Toulouse e a medieval Carcassonne, em uma charmosa cidade de casas cor-de-rosa na encosta de uma colina, esconde-se um improvável fragmento de história do Brasil. 

A pequena Montolieu, que abriga uma quinzena de livrarias para os seus 800 habitantes, é também a sede do Museu Cérès Franco, dedicado ao acervo dessa brasileira que se instalou em Paris nos anos 1950 e ajudou a construir a história das vanguardas artísticas. 

Fechado para reformas desde 2022, o edifício reabre ao público com homenagem à colecionadora que teria completado 100 anos em maio.

Pioneira no mundo das artes

Colecionadora e crítica de arte, Cérès Borba Farinha nasceu em Bagé (RS) em 1926 — o sobrenome Franco veio mais tarde, com seu primeiro casamento. Aos 22 anos, ávida de liberdade, descobertas e independência, ela deixou seu Pampa natal para estudar história da arte em Nova York, graças a uma bolsa da Fundação Rockefeller. 

Na Universidade de Columbia, ela teve como professor Meyer Schapiro, historiador e crítico de arte, autor de um célebre ensaio sobre Van Gogh, artista que Cérès admira desde criança. De lá, desejando ver de perto as obras que conhecia apenas através de livros, seguiu para Paris, onde se instalou definitivamente em 1952.

Desde sua temporada americana, ela passou a atuar como correspondente para jornais brasileiros como O Jornal, O Cruzeiro e o Correio da Manhã, mas a originalidade de seu percurso reside em uma outra atividade. 

Poucos anos após sua chegada em Paris, Cérès Franco passou a organizar exposições de arte inovadoras na França e na Bélgica. Ela é considerada, assim, como uma das precursoras da curadoria de arte independente. 

Seu olhar radicalmente aberto e internacional é respeitado tanto por críticos quanto pelos artistas que ela convidou para seus projetos. Visionária, sua primeira façanha foi a mostra “Formas e Magias” (1962), apresentada em um pavilhão do Bois de Boulogne, com nomes como Jean Cocteau, Pablo Picasso e Max Ernst. Mas foi no ano seguinte que ela realmente deixou a sua marca.

A aventura L’Œil de bœuf

Em busca de um novo conceito para suas exposições, Cérès Franco teve uma ideia audaciosa: apresentar uma seleção de obras inéditas, exclusivamente em telas de formato redondo ou oval, também conhecido como formato olho de boi. 

A mostra L’Œil de bœuf, apresentada na Galeria 7 em 1963, foi um sucesso. Ao longo dos anos 60, outras edições foram organizadas tanto na França quanto no exterior, confirmando o interesse do público pela empreitada. 

“A pintura contemporânea permitiu todas as liberdades, mas ela permaneceu ‘emoldurada’ no retângulo. Eu proponho aos artistas a possibilidade de utilizar e conquistar um novo tipo de espaço”, disse a colecionadora em 1965. 

Ela também organizou mostras emblemáticas no Brasil, como Opinião 65, no MAM-Rio, onde Hélio Oiticica apresentou seus famosos Parangolés.

Em 1972, Cérès Franco abriu sua própria galeria, naturalmente batizada Galerie L’Œil de bœuf, nas imediações de onde, poucos anos mais tarde, seria inaugurado o Centro Pompidou. 

Nesse espaço de liberdade total, regida pelo lema da arte sem fronteiras, ela promoveu diálogos pictóricos em torno de figuras clássicas ou de temas lúdicos, e não temeu trazer nomes pouco conhecidos. 

Longe das tendências da moda, a eclética Cérès Franco reuniu vanguarda brasileira, nova figuração francesa, artistas do movimento CoBrA, pintores autodidatas e populares vindos do Brasil, de Marrocos ou da Tunísia, outsiders e figuras influentes do mundo da arte. 

A programação de sua galeria também incluía artistas refugiados e exilados da América do Sul e da Europa Oriental, que fugiam de ditaduras militares, totalitarismos e zonas de conflito. 

Defensora de uma criação “sem passaportes”, seus eventos viam passar nomes como Victor Vasarely, Sonia Delaunay, Antonio Berni, Anna-Eva Bergman e Niki de Saint-Phalle, além dos brasileiros Rubens Gerchman, Waldomiro de Deus, Francisco da Silva, Heitor dos Prazeres, Rosina Becker do Valle, Tania Pedrosa, Arthur Luiz Piza, entre inúmeros outros. 

Seu papel de pioneira incontestável na cena cultural parisiense e internacional rendeu a Cérès Franco o título de Chevalier des Arts et des Lettres concedido pelo governo francês em 1975.

Seu legado entra para o time dos grandes

É desse caldeirão de vanguardas que nasce o acervo Cérès Franco. Composto por 1743 obras de 323 artistas, representando 39 nacionalidades, doadas pela colecionadora ao governo da região durante seus últimos anos de vida, ele deu origem a um pitoresco museu inaugurado em 2015.

Após quatro anos fechado para reformas, o local reabre suas portas em 2026, totalmente renovado e repensado.

Situado no coração da cidade histórica, o edifício típico da arquitetura industrial do século XX foi construído em 1939 para abrigar uma cooperativa vinícola. Seu estilo Art Déco se alia à funcionalidade, em uma estrutura feita de concreto armado e materiais regionais cuidadosamente selecionados. 

Cercado por vegetação e preservado em sua autenticidade, o local oferece amplos espaços para receber o público e valorizar a coleção, ao mesmo tempo em que conserva o charme e a identidade de seu passado industrial.

A recente reforma aumentou a superfície expositiva, além de ter adequado o espaço às normas exigidas de instituições museológicas. O que antes era uma pequena cooperativa para um acervo exibido de forma quase artesanal transformou-se em um verdadeiro museu, conquistando inclusive a desejada certificação de “Musées de France”. 

Essa prestigiosa etiqueta exige o respeito de uma série de critérios técnicos, como acessibilidade, segurança, controle de umidade e de temperatura, percursos didáticos, centro de documentação, programas de mediação e projetos de restauração e conservação. 

Justamente, antes de reintegrar sua casa nova, a totalidade das obras teve direito a um tratamento especial: a colocação em uma bolha hermética durante seis semanas, processo que elimina os insetos nocivos através da privação de oxigênio.

Ao longo de sua carreira, Cérès Franco buscou uma arte intransigente, livre das amarras acadêmicas e ocidentais, privilegiando artistas desconhecidos ou oriundos de países tidos como periféricos. Plenamente reconhecida pelos seus pares em sua época, sua morte em 2021 a deixou fora dos holofotes da história por alguns anos. 

Com a reabertura de um espaço modernizado para sua coleção, ela entra para o time dos grandes. E com data e hora marcadas: a partir do dia 20 de junho de 2026, Montolieu se tornará uma parada obrigatória na rota da Occitanie, com duas exposições inaugurais: Les aventuriers de l’oeil-de-boeuf: 100 artistes en hommage à Cérès Franco e Corneille, Chaïbia, Cérès Franco: des poèmes pour le monde, em cartaz até 03 de janeiro de 2027. 

La Coopérative-Musée Cérès Franco

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