
Meu Querido Zelador: do prédio à presidência em quatro temporadas
Com Guillermo Francella no papel de um zelador que virou conselheiro presidencial, a série expõe, com humor ácido, os mecanismos invisíveis do poder
Meu Querido Zelador parte de um microcosmo — um edifício de classe média alta no bairro de Belgrano, em Buenos Aires — para fazer um dos mais detalhados retratos da alma argentina e, por que não, universal. Está tudo ali: disputa pelo poder, golpes e traições, encontros e desencontros, gestos elevados e mesquinhos.
As quatro temporadas (a mais recente em exibição na Disney+ desde o último dia 1º) acompanham a trajetória de Eliseo Basurto, funcionário que se comporta como dono do prédio e que sabe se impor — de maneira discreta e dissimulada — num sistema de mentiras, hipocrisias, chantagens e troca de favores. Suas bases são duas: a pequena casa do zelador, no terraço, e um enorme apartamento no mesmo edifício que herdou de uma moradora falecida. Sua área de atuação não tem limites.
Protagonizada por Guillermo Francella, a série de humor ácido foi criada pela dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat e marca uma das últimas aparições de outro grande ator argentino, Luis Brandoni, falecido no mês passado. Ele faz uma ponta como o mendigo Polaco, que vive numa praça e ajuda Eliseo em um de seus momentos mais difíceis. O quarto episódio é dedicado a ele.
Meu Querido Zelador se estrutura em cima da figura sombria e misteriosa de um funcionário subalterno, mas não submisso. Franzino, discreto, sem vaidade ou veleidade intelectual, Eliseo é monástico e não demonstra qualquer apetite pelas conquistas naturais — a exceção do dinheiro, que acumula e guarda na geladeira, evitando qualquer contato com o sistema bancário, de quem ele tanto desconfia.

Seu objetivo é o poder, alcançado pela brilhante intuição e capacidade pessoal de se mostrar imprescindível, interferindo na vida de todos. Isolado e discreto, sua única companhia é uma planta carnívora que ele alimenta com moscas.
Ao longo dos episódios é possível acompanhar a ascensão de Eliseo: primeiro, ele conquista o prédio, em seguida o quarteirão e, na sequência, o bairro, ao fundar a empresa de gestão de propriedades Soluciones Integrales Basurto (SIB). Nesta temporada, ele amplia o território e “conquista” o país. Após confrontar o sindicato dos administradores e se tornar um símbolo junto à opinião pública, o personagem chega ao ponto culminante: sua empresa é negociada por milhões com uma fintech e ele se transforma em conselheiro pessoal do presidente da República (Arturo Roig).
Dessa maneira, a série ganha um claro caráter de caricatura, como se o absurdo da trajetória de um zelador servisse para falar da ainda mais absurda situação da Argentina. O presidente não apenas se aconselha com Eliseo, como se submete a usar um ponto eletrônico para repetir nos discursos oficiais as sugestões estapafúrdias que o zelador fala em seu ouvido.
Como contraponto, surge o rival Matías Zambrano (Gabriel Goity), síndico igualmente sem ética, mas com estilo mais tosco. Aliado ao chefe de gabinete Darío Pittaluga (Diego Velázquez), Zambrano também mente, trapaceia e conspira, porém sem o charme de seu adversário. A única diferença é que, ao contrário de Eliseo, ele parece sentir remorso, o que pouco melhora a sua imagem.
Com dois inimigos obcecados em arruinar um a vida do outro, Cohn e Duprat deixam claro que nessas disputas não existem heróis — e que até para ser cafajeste é necessário educação e sutileza. Um belo ensinamento para os dias atuais.


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