
Maria Martins: um recorde de US$ 3,17 milhões e um enigma de procedência
Entre cifras recordes e lacunas documentais, Impossível recoloca Maria Martins no centro do mercado global da arte
A venda de Impossível, o icônico bronze de Maria Martins, no leilão Post War & Contemporary Art da Rago, na quinta-feira passada, marca um momento decisivo na reavaliação internacional da artista.
Estimado entre US$ 150.000 e US$ 200.000, a escultura alcançou US$ 3.170.000, multiplicando de forma extraordinária sua estimativa inicial e reposicionando Maria Martins no centro das discussões sobre o Surrealismo, a escultura moderna latino-americana e a circulação de obras históricas brasileiras no mercado global.
A venda foi conduzida pela Rago/Wright, uma casa de leilões em Nova Jersey, um detalhe que, por mais surpreendente que pareça, chamou a atenção de conhecedores do mercado.
Afinal, como uma obra desse calibre chegou a uma casa de perfil mais regional, e não às grandes plataformas internacionais de Nova York, como Christie’s e Sotheby’s, justamente durante a temporada de leilões?
O resultado, porém, não deve ser lido apenas como um recorde isolado. Ele ocorre em um momento de crescente atenção institucional e comercial em torno de Maria Martins, mas também dentro de um contexto em que a circulação de esculturas históricas brasileiras levanta questões complexas de procedência, documentação e validação técnica.
Para além de seu expressivo resultado de mercado, entendemos que a obra poderia ter sido adquirida por um importante museu latino-americano, o que ampliaria ainda mais sua relevância pública e institucional.
Maria Martins nasceu em Campanha, Minas Gerais, e tornou-se uma das artistas brasileiras mais associadas ao Surrealismo internacional. Após casar-se com o diplomata Carlos Martins Pereira e Sousa, sua trajetória passou a ser marcada por deslocamentos entre Europa, Ásia e Américas.
Maria iniciou sua formação escultórica em Bruxelas, nos anos 1930, mas foi nos Estados Unidos da década de 1940 que sua linguagem atingiu plena maturidade, durante um período decisivo para a consolidação do Surrealismo em Nova York. Aproximou-se de André Breton, Max Ernst e Marcel Duchamp, e desenvolveu uma prática escultórica que fundia biomorfismo surrealista e mitologias amazônicas.
Dentro dessa trajetória, Impossível ocupa um lugar central. Criada a partir de 1945, a obra é sem dúvida a escultura mais icônica da Maria Martins e um dos exemplos mais poderosos de seu período nova-iorquino.
A escultura apresenta duas figuras frente a frente, aparentemente repelidas uma pela outra. Seus corpos são atravessados por formas agudas, vazias e extensões orgânicas que transformam a obra em uma imagem de tensão, desejo e incompatibilidade.
O próprio título anuncia a impossibilidade do encontro: uma relação em que proximidade e repulsão coexistem no mesmo gesto, lida por diversos críticos como uma possível alusão à relação intensa, desejante e ambígua que Maria Martins manteve com Marcel Duchamp durante os anos 1940.
O Impossível em bronze teria sido, segundo a casa de leilões, fundido em pelo menos três versões distintas por volta de 1945-1946, sendo o exemplar agora vendido provavelmente a primeira delas.
Essa versão se distingue das demais pelos braços ovoides que emanam da figura feminina, característica anteriormente conhecida por meio de fotografias de Maria Martins em seu ateliê em Nova York e, aparentemente, por registros da Exposition Internationale du Surréalisme, realizada na Galerie Maeght, em Paris, em 1947.
Segundo a casa de leilões, o gesso desta primeira versão de Impossível foi apresentado pela primeira vez na segunda exposição individual de Maria Martins na Valentine Gallery, em Nova York, inaugurada no final de abril de 1946.
O ponto crucial é que, de acordo com o próprio texto do leilão, naquele momento a versão em bronze ainda não estava pronta; por essa razão, a artista teria exibido um gesso inacabado, posteriormente reproduzido por Edward Alden Jewell em sua crítica para o The New York Times.
É precisamente aqui que a venda recente ganha uma camada adicional de complexidade. Se, por um lado, o resultado milionário confirma a força de Maria Martins no mercado internacional, por outro, torna indispensável uma verificação aprofundada da procedência, do histórico expositivo e da materialidade desta versão específica de Impossível, uma obra que ressurge no mercado pela primeira vez, quase como um fantasma.
A inquietação é reforçada por um precedente recente: em novembro passado, uma outra obra de Maria Martins chegou a ser anunciada em leilão pela Sotheby’s, mas foi retirada sem explicação pública aparente, desaparecendo posteriormente dos registros visíveis no site da casa. Em um mercado já atravessado por questões de procedência, documentação e autenticação, esse tipo de apagamento contribui para ampliar a zona de incerteza em torno da circulação das obras históricas da artista.
No caso de Impossível, a lacuna de procedência entre 1947 e 2019, a ausência do nome do espólio intermediário, as questões de conservação e a dificuldade de reconstruir a genealogia das diferentes versões mantêm a obra em uma zona de investigação ainda aberta. Mesmo no âmbito museológico, o mapeamento não é simples: a versão I, com braços, aparece reproduzida nos arquivos do MoMA de Nova York em 1946, enquanto a obra hoje conservada pelo museu corresponde à versão III. Essa sobreposição de datas, versões e trajetórias transforma o bronze vendido em um verdadeiro teste para a pesquisa documental e técnica em torno da arte moderna brasileira.
De forma sintomática, o resultado de Impossível revela como as lógicas do mercado podem se deslocar: a obra foi claramente elevada à condição de objeto de desejo, apesar das lacunas documentais e das zonas de silêncio que ainda a cercam.
O caso revela como, hoje, entre colecionadores e instituições, a força simbólica da imagem e o estatuto histórico que ela carrega podem, em certos momentos, se sobrepor à exigência de provas materiais plenamente consolidadas.

Sophie Su é uma art advisor. A versão mais integral deste artigo está no Substack da autora.


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