Madonna volta às pistas com seu melhor trabalho em vinte anos

Madonna volta às pistas com seu melhor trabalho em vinte anos

Com “Confessions II”, a rainha do pop abandona as tentativas de seguir tendências e retorna ao que sempre fez melhor: criá-las

Autora de uma das principais biografias de Madonna — Like an Icon, de 2008, lançada para aproveitar o cinquentenário da cantora —, a jornalista inglesa Lucy O’Brien defende a ideia de que sua biografada se sai melhor quando cria tendências ao invés de percorrer um caminho pré-estabelecido. 

É por isso que discos como Like a Prayer, de 1989, e Ray of Light, de 1998, são marcos do pop e na popularização de vertentes da música eletrônica, mas Hard Candy, de 2008, e Madame X, de 2019, foram tentativas frustradas dela se integrar ao universo do hip hop moderno e do reggaeton.

Confessions II, felizmente, pertence à primeira categoria. É seu melhor disco desde… Confessions on a Dance Floor, de 2005, uma ode às pistas de dança que trouxe, inclusive, samples de canções do quarteto sueco ABBA (Gimme! Gimme! Gimme! A Man After Midnight, presente em Hung Up) e do grupo de soul/funk S.O.S. — Take Your Time (Do It Right), presente na ótima Get Together

O produtor dos dois álbuns, aliás, é o mesmo: Stuart Price, colaborador de Pet Shop Boys, da cantora Kylie Minogue e da sensação do pop Dua Lipa.

O novo trabalho, de certa forma, dá prosseguimento à proposta de The Celebration Tour, que ela mostrou nos anos de 2023 e 2024 e rendeu uma performance histórica nas areias de Copacabana para mais de 1,6 milhão de pessoas. 

Uma autobiografia musical da popstar e uma reafirmação de sua importância na cultura pop das últimas quatro décadas — inclusive seu pioneirismo no empoderamento feminino e na luta contra a Aids. 

Confessions II prossegue essa — merecida, diga-se — vertente autobiográfica ao exaltar sua relação com a dança e o clima das discotecas de Nova York nos anos 1980. 

“A dança está no meu DNA. Cria comunidades e, às vezes, relacionamentos,” declarou recentemente numa entrevista ao apresentador irlandês Graham Norton. 

Foto: Divulgação/ Rafael Pavarotti

Uma dessas recordações está presente em Danceteria, onde homenageia a discoteca que costumava frequentar antes do sucesso. “Então eu vejo que Martin Kamis é o DJ/ Ele é o DJ, esconde a cocaína/ Tocou minha fita Everybody,” diz a letra que cita o produtor, morto em 2013, e que ajudou a dar seus primeiros passos na carreira — a letra traz ainda referências à atriz Debi Mazar, sua amiga até hoje, o artista plástico Keith Haring, e os popstars B-52's e Nile Rodgers, entre muitos outros.

Uma das qualidades de Confessions II está no fato de não haver separação entre as faixas: se assemelha a um set de DJ de uma hora e três minutos, com sequências de tirar o fôlego. 

As três primeiras faixas — I Feel So Free, Good for the Soul e One Step Away — são uma espécie de suíte de doze minutos, que traz uma batida pulsante, sample de French Kiss (clássico da house music perpetuado por Lil Louis) e reflexões sobre a importância das pistas de dança. “Às vezes gosto apenas de me esconder nas sombras/ Posso ser quem eu quiser, criar uma nova persona,” diz a letra.

Bring My Life traz um dueto com Sabrina Carpenter, acólita de primeira hora — ela chegou a recriar vestidos da diva pop em suas recentes aparições e incluiu Material Girl e Like a Virgin (precisa dizer de quem são?) em suas turnês. 

As duas debutaram a canção na recente aparição de Sabrina no festival Coachella, na qual Madonna usou a roupa utilizada na turnê de Confessions on a Dance Floor. É outra reconexão com a house music. Traz samples de Good Life, do Inner City. Outras citações surgem aos poucos: o piano de One Step Away e a batida de Love Without Records são pequenas homenagens aos subgêneros da dance music dos anos 1980 e 1990.

As novas confissões de Madonna nem sempre celebram o hedonismo. Há uma certa parcela de dor nas canções mais íntimas de seu repertório. Fragile, por exemplo, com seus vocais distorcidos, relembra o irmão, Christopher, morto em 2024, e com quem ela teve uma relação de amor e ódio. 

Em 2008, ele lançou A Vida com Minha Irmã Madonna, na qual dá detalhes sórdidos de sua convivência com a diva pop. Os dois fizeram as pazes antes dele morrer. “Nós dividimos um nome, um lar/ Dividimos um laço frágil/ Rimos, choramos, nos demos as mãos/ Pertencíamos um ao outro,” diz a canção. 

The Test é outra DR, dessa vez com Lola Leon, sua primogênita. “Minha pequena estrela, eu te coloquei num pedestal/ Você nunca pediu essas luzes, não imaginei como isso poderia te machucar,” desculpa-se.

Em outra reconexão com o passado, Betrayal, que tem coprodução de Mirwais (o mesmo de Music, revolucionário disco dela de 2000), é outra canção confessional. 

Nela, Madonna usa o piano de Gnossienne Number 1, obra do século XIX do compositor Erik Satie (1866-1925) — e que teria sido inspirada no ocultismo — para trazer uma reflexão de Madonna sobre seu estado de espírito. “Abra a represa/ Deixe a água invadir/ Deixe fluir, deixe fluir,” professa.

Dançante e reflexivo ao mesmo tempo, Confessions II recoloca Madonna de volta ao topo de diva máxima. E aqui vai uma informação importante. 

Num momento em que a música pop constrói canções de no máximo três minutos e que entregam o refrão nos momentos iniciais para não perder a atenção do ouvinte, a cantora nos traz um álbum em que o repertório tem faixas de cinco minutos e são construídas de uma maneira tal que temos de implorar pelo refrão. 

Talvez essa seja mais uma inovação de Madonna: fazer com que o universo pop privilegie a composição ao invés de repetir fórmulas consagradas.