“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” A frase virou título de exposição, mas nasceu canção — escrita por Raul Seixas em 1973 e transformada, na voz de Ney Matogrosso. Não é à toa que o Solar dos Abacaxis, no Centro do Rio, recorreu a ela para batizar Eu Prefiro Ser, mostra coletiva que reúne quase 50 artistas brasileiros e latino-americanos em celebração aos 85 anos de um dos nomes mais radicais da música e do comportamento no Brasil.
Ney nasceu em 1º de agosto de 1941, em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, e o Solar decidiu antecipar a festa, além de fazê-la em grande escala. A curadoria é assinada por Bernardo Mosqueira, diretor artístico do lugar, ao lado de Matheus Morani e do curador colombiano Pablo León de la Barra — o mesmo trio que também assinou Irradiar, exposição que marcou os dez anos da instituição no fim de 2025. Mosqueira faz questão de deixar claro que Eu Prefiro Ser não é uma retrospectiva cronológica nem biográfica.
“Nos últimos anos, tivemos livros, documentários, filmes, até enredos de escola de samba que já cumpriram essa missão," diz o curador, que resume o que a mostra faz de diferente: "propor uma imersão experimental nesses mais de 50 anos de criação, pensando sobretudo no impacto dele na nossa sociedade e na cultura visual brasileira."
A trajetória de Ney entra, então, como ponto de partida para pensar liberdade, metamorfose e recusa às normas. “O Ney sempre inspirou comportamentos não hegemônicos," diz Mosqueira, apontando o cantor como uma figura que desafiou normas de gênero e sexualidade dentro da própria música popular brasileira.
Essa não é uma homenagem de ocasião: segundo Mosqueira, o desejo de fazer essa exposição é anterior até à existência formal do projeto (remonta a 2015), e o desenvolvimento propriamente dito começou em 2017, ainda na antiga sede do Solar no Cosme Velho, com a intenção original de marcar os 80 anos do cantor.
A pandemia adiou os planos, e há mais de seis anos a equipe já sabia que a mostra sairia mesmo era no marco dos 85 anos. O resultado chega agora, alinhado a um eixo de pesquisa sobre liberdade que a instituição vem desenvolvendo desde 2025, e que também atravessou Irradiar.
Em quase dez anos de existência, o Solar já reuniu mais de 300 artistas em cerca de 40 exposições, consolidando-se como um dos pólos mais ativos da cena de arte contemporânea numa região do Centro do Rio que vem sendo cada vez mais disputada pela cultura e pela gastronomia locais.
A lista de artistas reunidos em Eu Prefiro Ser atravessa gerações e geografias, e ajuda a entender a ambição do projeto. Estão lá nomes centrais da arte brasileira do século 20, como José Leonilson, Rubens Gerchman, Tunga, Antonio Manuel, Flávio de Carvalho e Hudinilson Jr., ao lado de figuras internacionais como Keith Haring e a coletiva grega-americana SPIT!, de Despina Zacharopoulos.

Também compõem a mostra artistas que hoje discutem corpo, gênero e natureza a partir de vocabulários bem distintos dos anos 1970 (casos de Tadáskía, UÝRA, Rafa Bqueer, Manauara Clandestina, Laura Lima e Érika Verzutti).
A curadoria costurou ainda produções de coletivos como o Instituto Vida Livre e Yeguas del Apocalipsis, além de nomes como Adriano Costa, Alex Červený, Marcos Chaves e Vânia Toledo — um panorama que recusa qualquer linearidade e aposta na multiplicidade de leituras possíveis sobre a obra de Ney.
Um núcleo específico da exposição reúne obras encomendadas especialmente para o projeto. O coletivo assume vivid astro focus, mais conhecido como AVAF, é responsável pela peça mais monumental deste núcleo: um painel-instalação em larga escala que costura, numa única composição, retratos de Ney colhidos em momentos bem diferentes da carreira.

Tadáskía parte daquilo que, em Ney, sempre escapou às categorias, e entrega uma peça construída nessa chave. Rodolpho Parigi assina um retrato inédito que remete à icônica capa do primeiro disco do Secos & Molhados, de 1973 (o álbum que vendeu um milhão de cópias e projetou Ney nacionalmente).
Já Thix optou por fotografar o cantor hoje, cercado por bichos como tamanduá-bandeira e pássaros, um retrato que aproxima Ney de outras espécies, e não só de sua própria história.

Para quem acompanha a trajetória de Ney, a mostra funciona também como um lembrete de sua importância histórica — e a data redonda ajuda a medir a dimensão desse legado.
Ele se mudou para o Rio ainda jovem e depois para São Paulo, onde, em 1971, adotou o nome artístico e assumiu os vocais do Secos & Molhados, ao lado de João Ricardo e Gerson Conrad.
A estética andrógina do grupo, maquiagem pesada, roupas extravagantes, uma voz de contratenor pouco comum na música popular, provocou o público em plena ditadura militar e ajudou a inaugurar, no Brasil dos anos 1970, um debate sobre gênero e sexualidade que muitos artistas ainda hesitavam em enfrentar abertamente.
Depois da saída do grupo, em 1975, Ney construiu uma carreira solo longeva, com discos como Água do Céu-Pássaro e sucessos como Homem com H e Bandido Corazón, sem nunca abandonar a postura de recusa a rótulos que marcou sua entrada em cena.
A abertura para convidados reuniu parte do circuito de arte carioca. Entre os presentes estavam a artista Adriana Varejão, o fotógrafo Vik Muniz e a própria Anna Bella Geiger, uma das pioneiras da arte contemporânea brasileira e também parte dos artistas da mostra.

O clima de celebração antecipou o que a curadoria reivindica para o conjunto da exposição: festivo, mas também atento à urgência do momento presente. “Nesse nosso presente desafiador, que nos pede coragem para sonhar e viver coletivamente, a exposição vai convidar o público a expandir os horizontes do que podemos ser,” diz Mosqueira.
É esse espírito de invenção contínua que a curadoria de Eu Prefiro Ser tenta traduzir, colocando em diálogo obras separadas por décadas e geografias, mas unidas pela mesma pergunta: o que significa recusar a normatividade e insistir em ser, como diz o título da mostra, aquilo que se prefere ser.
Ao completar 85 anos em agosto, Ney ganha do Solar não uma retrospectiva de aniversário nos moldes tradicionais, mas algo mais próximo do espírito da própria obra: uma festa coletiva, plural e sem data de validade fixa.
Eu Prefiro Ser — Ney Matogrosso
Em cartaz até 17 de outubro de 2026.
Solar dos Abacaxis: Rua do Senado, 48, no Rio de Janeiro.
De quarta a sábado, das 10h às 18h. Entrada gratuita.













