24 horas saboreando Lima

24 horas saboreando Lima

Em um único dia, Lima entrega ceviches, croissants, coquetéis e ingredientes que só poderiam existir no Peru

LIMA — Em um único dia, Lima é capaz de justificar a fama que lhe rendeu o título de melhor cidade do mundo para comer pela revista Time Out. A capital peruana concentra alguns dos restaurantes e bares mais celebrados, mas rompe suas fronteiras e revela endereços de bairros que exibem uma culinária que transformou biodiversidade, técnica e identidade em um dos maiores patrimônios do país. Conheça boas apostas para uma passada rápida, rica e saborosa pela cidade. 

Café da manhã

A cafeteria, padaria e confeitaria Demo nasceu de um capricho de Juan Luis Martínez, chef do Mérito, um dos restaurantes mais badalados de Lima. Ele queria fazer croissants do jeito dele. Abriu em um espaço minúsculo e simples, colado no restaurante. 

A partir de fornadas bem-sucedidas e de bons cafés, migra para um espaço autônomo e charmoso numa das ruas mais icônicas de Barranco e se transforma em um dos principais pontos de encontro dos fins de semana para os limeños.

Serve cafés da manhã crioulos, cujo conceito está ligado às duas raízes da casa: a peruana e a venezuelana — e serve ainda itens de inspiração europeia, com o compromisso de trabalhar com ingredientes locais.

São preparos como as arepas, o tradicional perico — um ovo mexido venezuelano enriquecido com um refogado de tomate e cebola — e o sancocho, ensopado de longa cocção que reúne carnes, raízes e legumes num caldo encorpado. 

Almoço

O La Mar é uma instituição da gastronomia peruana. Aberto apenas no almoço, o restaurante de Gastón Acurio, chef que levou o ceviche aos quatro cantos do mundo e ajudou a projetar a cozinha peruana no cenário internacional, tem uma aura festiva e alegre em ambiente descontraído, no qual toda refeição é uma festa. 

O La Mar desmonta a ideia de que existe um único ceviche peruano. O menu percorre diferentes territórios do país em preparações que mudam conforme a estação e a pesca do dia. À frente da cozinha, Anthony Vasquez mantém a filosofia da casa: o melhor peixe não é o mais nobre, mas o que está em seu melhor momento. 

Ao clássico ceviche limeño, feito com leite de tigre e peixe recém-cortado, somam-se versões amazônicas aromatizadas com cúrcuma fresca e sachaculantro, uma erva aromática daquela região; receitas andinas com truta e leite de tigre de alcachofra; e especialidades do norte, como o ceviche de conchas negras de Tumbes, região de manguezais no extremo norte do Peru. Cada prato revela uma faceta distinta da extraordinária diversidade marinha e cultural do Peru.

Arte, cultura e compras

Quem quiser descobrir a riqueza criativa do país deve reservar um tempo para visitar a Dédalo. Instalada em um casarão de Barranco, o espaço inaugurado há mais de 30 anos reúne mais de mil artistas e artesãos sob uma cuidadosa curadoria. 

A cada sala aparecem cerâmicas, joias, móveis, objetos de decoração, roupas, acessórios e obras de arte que dialogam com técnicas tradicionais e design contemporâneo. 

Embora seja um endereço para compras, a Dédalo funciona como uma vitrine da diversidade cultural peruana, capaz de reunir, em um único passeio, referências das regiões costeira, andina e amazônica. 

Jantar 

Jantar no Kjolle é uma forma de experimentar a riqueza da cozinha peruana em um dos endereços mais influentes da gastronomia contemporânea. O restaurante divide uma antiga casa em Barranco com o Central e a Mater, centro interdisciplinar de pesquisa que reúne cozinheiros, cientistas, antropólogos e artistas para investigar a biodiversidade do Peru e convertê-la em conhecimento e cozinha.

Foi nesse ambiente que nasceu o projeto autoral de Pía León, que antes passou uma década à frente da cozinha do Central. Eleita a melhor chef da América Latina pelo Latin America's 50 Best Restaurants, em 2018, e a melhor chef do mundo pelo The World's 50 Best Restaurants, em 2021, Pía apresenta um menu-degustação de nove etapas que percorre diferentes territórios do país por meio de insumos pouco conhecidos. 

Foto: Gustavo Vivanco

Sua cozinha privilegia a leveza: em vez de esconder os ingredientes sob técnicas ostensivas, ela os apresenta em composições coloridas, delicadas e de sabores límpidos. Destacam-se a torta de tubérculos e raízes, a costela bovina servida com milho peruano e ají mochero, uma pimenta aromática nativa da costa norte do Peru, e as sobremesas elaboradas com variedades de cacau nativo, objeto de estudo profundo desse complexo gastronômico.

Foto: Camila Novoa

Hoje, o Kjolle figura entre os melhores restaurantes do mundo e é o primeiro comandado por uma mulher a alcançar o top 10 do ranking mundial.  

Bar 

Lady Bee foi batizado para homenagear uma espécie nativa de abelha sem ferrão conhecida no Peru como “abeja señorita”. Carrega o sentido simbólico da polinização e do trabalho colaborativo que orienta o trabalho do bar, um dos mais inventivos do Peru.

Eleito o 13º melhor bar do mundo e vencedor do prêmio de melhor hospitalidade do The World's 50 Best Bars 2025, o Lady Bee faz da biodiversidade peruana seu fio condutor. 

Foto: Camila Novoa

Fundado pela chef Gabriela León e pelo bartender Alonso Palomino em Barranco, o endereço figura entre os melhores do mundo graças a uma proposta que une cozinha e coquetelaria em torno de ingredientes sazonais vindos da costa, dos Andes e da Amazônia. 

A carta é organizada por ecossistemas do país e revela combinações pouco usuais, como o alga manzana, um drink refrescante de uísque, alga sargaço, maçã vermelha e água tônica, e o papa hongo pino, de perfil seco e umami, preparado com destilado de batata-roxa e cogumelo. 

Foto: Camila Novoa

A mesma lógica chega à cozinha no choro y café, em que mexilhões encontram cafés especiais, brioche e mastuerzo, uma planta herbácea, com leve toque picante, frequente na finalização de pratos no Peru. 

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