“Vou te contar como pego açaí no pé e você me ajuda a encontrar bons jogos de lençol para a minha cama, combinado?” O ano de 2017 estava quase no fim quando tive um dos últimos encontros com o fotógrafo paraense Rafael Pavarotti. Estávamos na Casa Panamericana, residência modernista construída em 1955 no bairro de Alto de Pinheiros, em São Paulo, para fotografar a capa da Vogue de fevereiro do ano seguinte, estrelada por Caroline Trentini.
Já colecionava mais de dez anos trabalhando na revista; na época, ocupava a cadeira de diretora de moda e, assim como todos os outros jornalistas e editores do título, jamais tinha visto um talento tão pungente – e ao mesmo tempo tão bruto – desabrochar com tanta rapidez nesse ecossistema conhecidamente fechado e restritivo. Até então, os fotógrafos de moda que clicavam as capas de Vogue eram figuras conhecidas, respeitadas, com décadas de respaldo e repertório nas costas.
Pavarotti entrou no circuito quatro anos antes, em 2013, quando a então redatora-chefe da revista, Silvia Rogar, estava na reta final de gravidez e ligeiramente desesperada para encontrar alguém que fizesse alguns retratos no Rio de Janeiro para a edição de novembro da Vogue, que tradicionalmente homenageia a cidade. Ela ligou para Yuri Sardenberg, colaborador recorrente da revista no Rio, e ele, que não poderia atendê-la em sua pauta, recomendou que chamasse um morador de 19 anos do Morro do Vidigal, oferecendo inclusive o empréstimo do seu próprio equipamento. Usando as palavras de Sardenberg na ocasião: “pode confiar que um dia ele será o maior fotógrafo que teremos.” Silvia aceitou a indicação, tornou-se amiga de Pavarotti – adorava falar que a mãe dele era mais nova que ela, que na época tinha quase 40 – e, se não me falhe a memória, chegou até a hospedar Pavarotti em sua casa em São Paulo por ocasião de uma vinda sua à cidade.
Pavarotti tem essa coisa de despertar um certo instinto maternal nas pessoas. “Ele é meu irmãozinho, ajudo-o a marcar consulta no médico quando vem ao Brasil,” me contou Paula Raia nos bastidores de seu último desfile, em março. Raia também foi uma das primeiras a apostar no talento autorreferente do fotógrafo que, por alguns anos, também emprestou seu olhar honesto na hora de documentar o trabalho de uma das estilistas mais autorais do País.

Mas além do inegável carisma, o que afinal tem Rafael Pavarotti que o distingue tanto de seus pares? “Ele foi o primeiro fotógrafo do nosso meio a explorar, num ambiente internacional, códigos muito brasileiros. Na energia das imagens, na cartela de cores, na luz, no casting…,” diz a stylist Flavia Lafer, com quem Pavarotti trabalhou durante a primeira metade de sua precoce carreira.
“Para uma modelo, nada mais importante que trocar com um fotógrafo que sabe exatamente que tipo de imagem ele quer. É como se ele enxergasse a cena antes mesmo de acontecer e, a partir dessa visão clara, consiga fazer com que a equipe toda trabalhe para materializá-la,“ conta Carol Trentini, uma das tops brasileiras com maior projeção internacional até hoje, o que inclui diversos editoriais para a Vogue norte-americana.
O grande plot twist dessa história toda é que, mais ou menos por volta de 2020, Pavarotti foi “apadrinhado” pela nova-iorquina Art + Commerce e nunca mais trabalhou no País. Responsável pelos nomes mais robustos e unânimes do métier, da stylist Grace Coddington; que foi diretora de moda da Vogue America por quase 30 anos, ao fotógrafo Steven Meisel; praticamente uma entidade da foto-arte contemporânea, a agência se tornou uma espécie de tutora de sua carreira. Em dado momento, mudou-se de São Paulo para Londres, deletou todas as fotos de seu Instagram e parou de seguir os antigos colegas e amigos de seu início de carreira. Sob gestão da A+C, como é conhecida, assinou campanhas para marcas como Dior, Chanel, Balmain e Ferragamo, além de fotografar capas impressas históricas, a exemplo da icônica Vogue italiana de julho de 2024, estrelada por Bad Bunny; e da Perfect com Rihanna, em junho do mesmo ano. Raf, como é chamado pelos gringos, acaba de assinar a capa do disco Confession on the Dance Floor II de Madonna.

Anos depois de mudar de vida, cruzei com ele uma vez em Paris, durante a semana de moda, descendo da van de Edward Enninful, então editor-chefe da Vogue inglesa, ao lado de Naomi Campbell – foi para Enninful que Pavarotti clicou sua primeira capa de Vogue não brasileira, em fevereiro de 2022, reunindo sete modelos negras –; e, mais recentemente, em março passado, estava aguardando de pé o desfile da Comme des Garçons na mesma cidade quando avistei Pavarotti sentado na fila A entre o rapper Future e Carine Roitfeld. Um pouco mais à sua esquerda, Pharrell Williams. No texto que descreve seu trabalho no site da agência de talentos, lê-se que “o fotógrafo amazonense tem o compromisso de tratar a representatividade negra na imagem de moda através de narrativas históricas, e seu empenho em promover a visibilidade de populações sub-representadas nesse métier é um trabalho que ele faz para as gerações atuais e para as que nem nasceram ainda.”
Quando escrevi para ele através do inbox do Instagram contando que faria essa matéria e que adoraria conversar, ele me devolveu um texto delicado que perguntava como estava e sugeriu gentilmente que eu procurasse a Becky, sua agente na Art + Commerce. “Entendo a decisão do Pavarotti de não dar entrevistas neste momento – ele chegou a um lugar muito importante dentre essa geração de fotógrafos, e sua linguagem principal é a imagem, mais do que a palavra,” completa Lafer.
Em 2 de outubro de 2026, o Museu de Artes Decorativas do Louvre, em Paris, inaugura a primeira exposição que homenageia o trabalho do fotógrafo brasileiro de apenas 33 anos através de mais de 200 obras, entre retratos de figuras pop e imagens de moda que já entraram para a história, vide a primeira campanha da Chanel sob gestão criativa de Matthieu Blazy, lançada em fevereiro. Não tenho a menor dúvida que há pelo menos uma década Pava dorme em ótimos lençóis, espero que também não tenha esquecido como se faz para pegar as frutinhas de açaí do pé.

















