Mais alma e menos escala: os cobiçados sapatos brasileiros

Mais alma e menos escala: os cobiçados sapatos brasileiros

Uma geração de marcas autorais ganha espaço com sapatos feitos à mão e forte identidade

Durante décadas, a indústria brasileira de calçados foi reconhecida sobretudo por sua capacidade produtiva. Agora, uma nova geração de marcas independentes busca reposicionar esse legado ao transformar criação, excelência técnica e processos sustentáveis em identidade. 

É um movimento em sintonia com consumidores que passaram a questionar a origem do que compram e a valorizar produtos com história, autoria e longevidade. Essas grifes conquistam espaço ao oferecer aquilo que a produção em massa dificilmente entrega: autenticidade. O movimento revela um mercado mais maduro, disposto a reconhecer valor no tempo, no saber-fazer e na construção de um design genuinamente brasileiro.

“O País aprendeu a reconhecer o que é seu e a sentir orgulho disso,” diz Marcela Basto, fundadora da carioca Marcela B., criada em 2011. Em comum, as marcas independentes operam em escala reduzida, produzem em pequenas fábricas que preservam técnicas artesanais e, cada vez mais, começam a conquistar espaço no exterior. 

Lá fora, chamam a atenção pelo design, cores e valorização do artesanato nacional. “Levamos um ano desenvolvendo um trabalho com as artesãs que fazem a renda singeleza, executada com espinhos de cactos, no Rio Grande do Norte,” diz Bruna Botti, que exporta suas criações para os Estados Unidos e Dubai. Com estruturas enxutas, essas grifes também encontraram no avanço do e-commerce um aliado para ampliar as vendas. 

No dia a dia, entretanto, os desafios são grandes. “O maior deles é crescer sem perder consistência. É preciso equilibrar criação, produção, comunicação, operação e saúde financeira, mantendo a qualidade, a proximidade e a identidade que deram origem ao projeto,” diz Victoria Nakane, que junto com o irmão Caio toca a Viga desde 2020. 

Conheça, a seguir, marcas autorais com forte DNA que preservam o fazer manual e estão redefinindo o design brasileiro de calçados.

Marcela B.

A carioca Marcela Basto ainda vivia em Milão quando decidiu lançar, em 2011, a Marcela B., unindo a experiência em lingerie couture aos conhecimentos de sapataria artesanal italiana. A bossa das suas criações está na natureza brasileira – presente em materiais como palha, vime, rede e, sobretudo, o bambu – transformados em elementos de luxo.  Os modelos Beta e Chloe, ambos com salto de bambu, sintetizam esse DNA. 

“Cada par carrega horas de trabalho artesanal e uma beleza que é impossível de padronizar,” diz a designer. Ao longo da trajetória da marca, ela diz ter aprendido a editar mais, eliminar o supérfluo e a confiar no que é verdadeiro. Com lojas no Rio e em São Paulo, Marcela conta que cada par é pensado para atravessar o tempo. “O sapato precisa ser da mulher por muitos anos, como uma joia,” compara. A essa segurança, acrescenta experimentações, como o pelo natural que dá textura à coleção deste inverno. 

Manolita

Débora Leal via as mulheres reféns da meia-pata e sonhava criar um sapato que unisse conforto e elegância. Foi assim que, em 2012, nasceu a Manolita em Vitória, Espírito Santo. Começou pelas flats feitas à mão. “O início foi difícil, mas o motivo pelo qual eu não vendia foi o que me fez vender depois,” diz a diretora criativa, referindo-se aos quatro primeiros anos da marca. 

A seu favor pesaram a estética arrojada e a virada de tendência. Nessa fase, a marca estava expandindo para São Paulo e integrava o portfólio da Farfetch. Arte e arquitetura são fontes de inspiração constantes para suas coleções repletas de itens atemporais e autorais. Da pesquisa sobre o mobiliário de Sergio Rodrigues e da cadeira de balanço Rio, de Oscar Niemeyer, por exemplo, nasceu a linha Palhoça, com trançado de palha, em 2016, e reeditada até hoje. A sustentabilidade também orienta o desenvolvimento dos produtos. Nos saltos, a marca utiliza madeira de reflorestamento e reaproveitamento de tubos de PVC, tecnologia criada por Débora que, desde 2019, já reutilizou cerca de uma tonelada do material descartado. Atualmente, a Manolita mantém operação em Nova York, exporta para países da América Latina e participa do projeto Brésil à La Samaritaine, que vai até 26 de agosto, em Paris. 

Arque

É o design autoral guiado por elementos pinçados da arquitetura que dá o tom às criações da Arque, marca paulista fundada no ano passado pela designer de moda Eduarda Arrosi e por Lais Senra Domingues, que cursou negócios da moda e comanda a estratégia e o financeiro da operação. “Estudamos as obras, os arquitetos, materiais e texturas. E estamos cada vez mais apaixonadas pelo modernismo brasileiro,” conta Lais. Os sapatos são construídos um a um, artesanalmente. “O maquinário é utilizado apenas para algumas costuras e prensagem, fundamentais para dar forma ao sapato e trazer a estrutura e ergonomia que planejamos”, acrescenta. A sapatilha Anunciação, a primeira a ser produzida, ocupa lugar de destaque nas coleções, ao lado da família Martinelli, com suas linhas modernas e diagonais. 

Botti

Dona de sucessos como o bordado que lembra um ouriço e que consome uma semana de trabalho para produzir um único par, a designer Bruna Botti trabalhou por uma década em marcas grandes antes de lançar sua grife própria há cerca de 15 anos. “Queria unir conforto e design. Fui construindo a Botti junto com um artesão que trabalha comigo até hoje,” diz ela. Suas criações inspiradas no artesanato brasileiro e em memórias afetivas da família são endereçadas a mulheres que querem ter opções para expressar estados de espírito diversos. “Isso também me trouxe faixas etárias diferentes. Atendo a avó, mãe e filha,” diz. No processo produtivo, busca minimizar os resíduos enfatizando detalhes e não renuncia a experimentações com texturas e manualidades. Mesmo investindo no formato de ateliê, Bruna já exporta para os Estados Unidos e Dubai, enquanto abre frentes na Europa. 

Viga

O diretor criativo Caio Nakane gosta de trabalhar modelos clássicos a partir de uma perspectiva própria e assim exercitar proporções, volumes, materiais e construções para dar estética streetwear a novos brogues e mocassins sem gênero, que vão da numeração 34 a 46. A Viga chegou ao mercado em 2020, depois que ele e a irmã, Victoria, assumiram a antiga fábrica de calçados da família. Com background do universo artístico, Caio une referências pinçadas da moda, música, tatuagem e de objetos que atravessam gerações. “Cada coleção aprofunda uma linguagem que evolui com o tempo,” diz Victoria, CEO do negócio que tem loja física em São Paulo. No processo de produção, ela conta que técnicas tradicionais, como costuras manuais, se aproximam de novas formas e necessidades de uso. “Queremos criar produtos consistentes, pensados para envelhecer bem e acompanhar muitos anos de uso.”. 

Juliana Bicudo

Arquiteta que flertava com a moda ainda na faculdade, Juliana Bicudo começou a marca que leva seu nome vendendo para as amigas e participando de bazares. A loja, na Vila Madalena, em São Paulo, surgiu em 2010, consolidando a etiqueta, que carrega influências dos traços da Art Nouveau e Art Déco. A junção de linhas sinuosas e retas renderam algumas das assinaturas do seu processo criativo, como o detalhe em leque dos modelos Cosi.

“Mesmo em um mocassim simples eu tento acrescentar algo diferente, como um pesponto maior. Adoro explorar técnicas diferentes com os artesãos,” diz. O design de Juliana tem charme vintage, o que contribui para a atemporalidade dos modelos feitos à mão em pequenas fábricas na capital paulista. A coleção para noivas, com coração vermelho no solado, é um dos seus sucessos. Outros são a customização, que permite alterar a combinação de cores e os saltos com prazo de entrega de 60 dias, e a personalização com o nome do cliente. 

Izabella Aurora

Era 2014 e a designer Izabella Aurora Suzart estudava design industrial quando se apaixonou pela produção artesanal de calçados. O primeiro par ela fez sozinha no laboratório da PUC-Rio. Com estrutura de produção montada, começou a marca Aurora sob encomenda. Seus modelos criativos inspirados na cultura brasileira, arte contemporânea e em narrativas invisibilizadas integraram a exposição O Design e a Madeira no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 2015, e foram parar no Gallery Calendar, calendário produzido anualmente com calçados criados por designers de várias partes do mundo. 

No ano passado, Izabella ganhou o prêmio Black Stars Rising, promovido pelo Consulado-Geral dos Estados Unidos no Rio. Depois de um reposicionamento, a marca passa agora a se chamar Izabella Aurora. “A mudança vem da necessidade de fortalecer ainda mais o caráter autoral e honrar minha herança familiar de costureiras e alfaiates,” diz ela que, para democratizar suas criações, oferece numeração que vai do 34 ao 43. 

Miti

A designer Natalia Miti Morita ainda desenvolvia projetos de calçados, bolsas e cintos para o atacado de outras marcas quando, em paralelo, idealizou a Miti, em 2012. Seu objetivo era produzir um calçado autoral que unisse beleza e sabedoria. “Sabedoria aqui significa ser feito para durar e cuidado com a cadeia produtiva (matéria-prima e pessoas). Um produto que mereça existir,” ressalta ela, que cursou design de produto. Isso se reflete também nos pilares da marca: produção local, mão de obra feminina e jornada de trabalho diária de seis horas.

 “Meu pensamento sempre foi: se não for para eu fazer diferença na vida das pessoas e da indústria em que eu estou atuando, por que eu vou abrir uma empresa?,” diz. Suas referências criativas e de business vêm da sua origem japonesa. Com produção manual distribuída por três fábricas, ela conta que entre seus clássicos estão a flat Rafaela decorada com rufos, os modelos Shoji, inspirados nas portas de mesmo nome, e a sapatilha Leque. 

A Mafalda

Foi no projeto de conclusão do curso de design de moda na faculdade Belas Artes, em São Paulo, que Maria Fernanda Sodré se encantou por sapatos. Seu primeiro ponto de venda foi a loja de roupas da mãe. “Comecei desenvolvendo modelos para as clientes dela, que logo viraram minhas também. Foi assim que surgiu A Mafalda,” diz a designer, que batizou a marca com o seu apelido. De 2008, quando lançou a marca, para cá, conta que seu processo criativo evoluiu, assim como o olhar mais atento para as tendências. “Uso as referências de mercado para complementar, sem deixar que definam o caminho da marca.” São detalhes que atualizam modelos que nunca saem de produção. “A essência continua sendo a de peças atemporais, artesanais e com identidade própria,” diz. Segundo ela, a meta é criar menos, mas criar melhor. 

E-Marchi

Na adolescência, a catarinense Elisa Marchi sonhava em ser artista plástica. Hoje, ela exercita o dom nas pinturas manuais que dão apelo artsy a vários calçados masculinos e femininos da E-Marchi. “Tudo que sai do óbvio chama minha atenção. Provavelmente porque estou dentro do espectro autista,” diz. Formada em Fashion Design pelo Istituto Marangoni de Milão, conta que também gosta de experimentar formas diferentes de misturar materiais e texturas. Seus modelos artesanais em couro livre de componentes químicos são feitos sob encomenda no site da marca e levam 30 dias para ficarem prontos.

“Para me destacar usei as ‘desvantagens’ a meu favor. Tenho uma marca pequena em formato ateliê (são apenas ela, o marido e um artesão), então posso criar modelos que fábricas de processo industrial não podem, mais complexos e com um tempo longo de produção,” diz, destacando que não faz coleções. “Muitos dos nossos clientes são apaixonados por um modelo específico e sempre que precisam de um par novo eles podem comprar novamente.”

Le Borô

Foi a gíria borogodó, que descreve algo com um charme irresistível, que inspirou o nome Le Borô. “Desde o lançamento, em 2020, nosso propósito sempre foi ser irreverente e autêntico, lançando conceitos independentes das tendências, mas ainda assim, comerciais,” diz Gabriela Volpi, co-fundadora da marca junto com a tia, Juliana Case. 

O resultado aparece em criações divertidas e lúdicas, como as sandálias Daisy (o primeiro sucesso) e Pomodoro, o slingback Olives e a família Piercing. “Meu olho brilha com o surrealismo e flerto com o dadaísmo,” diz. Ex-advogada, Gabriela recorda que a dupla começou a marca com R$ 7 mil investidos em uma pequena coleção em cetim. “Ficou ruim, mas conseguimos vender. Reinvestimos o que arrecadamos em outras criações, que também não geraram capital. Mas persistimos até alcançar os primeiros modelos perfeitos, feitos com materiais rastreáveis. E fomos evoluindo junto com os mesmos fornecedores,” comemora. Hoje, a marca tem loja em São Paulo e está presente em mais de 40 multimarcas no Brasil e algumas no exterior. 

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