Se você nunca disputou uma partida de Mahjong, provavelmente já deve ter visto o jogo em filmes.
Nos de Hollywood, por exemplo, as peças “semelhantes” às do dominó (a grosso modo) aparecem nas mãos de senhorinhas chinesas que se debruçam horas a fio às partidas. Porém, o Mahjong não é só mais coisa de cinema, de idoso ou da China. Prova disso é o investimento crescente de casas de luxo ocidentais nos conjuntos, além do aumento das transmissões online de partidas.
A Louis Vuitton vende, por US$ 81,500, um “kit” semelhante a um pequeno baú com gavetas, marcado com o clássico monograma LV. Já a Hermès criou uma versão com peças de mogno gravadas a laser, que sai por US$ 13,800. Brunello Cucinelli não ficou de fora e desenvolveu este jogo em nogueira, vendido por US$ 10 mil.
No âmbito digital, o assunto é gigante. Especialmente entre os jovens da Geração Z. Segundo dados do TikTok, a qualquer minuto do dia, em todo o mundo, há uma média de 2 mil pessoas assistindo a partidas de Mahjong. Nas comunidades do jogo, nesta rede, é comum superar um milhão de visualizações.

Já de acordo com um levantamento da Yelp, as buscas por clubes de Mahjong nos Estados Unidos cresceram 4.467% entre 2025 e 2026, enquanto as pesquisas por aulas aumentaram 819%. Por fim, dados da Eventbrite, publicados pela Axios, mostram que os eventos relacionados ao jogo cresceram 179% entre 2023 e 2024 nos EUA.
“Isso tudo se dá pelo desejo de fugir das telas e pela vontade de reconexão com as origens, ou por um desejo de fazer parte de uma cultura com a qual se tem afinidade,” diz o presidente da Associação Brasileira de Mahjong (ABM) Amauri Murai. O Mahjong promove interação e necessita de atenção total. Logo, para quem o joga, o celular perde a preferência e a socialização toma espaço. “Buscar o analógico acaba sendo a resposta mais desejada quando somos bombardeados com dispositivos digitais,” diz Murai.
“Minhas primeiras memórias do jogo vêm da socialização, do ritual dos chineses de se reunirem, às vezes mais do que uma vez por semana. Meus familiares na China sempre jogam, principalmente em momentos de lazer,” diz a influenciadora Priscila Jinn.

Raízes e regras
O jogo remonta à China de meados do século XIX, durante a dinastia Qing. Porém, antes já houve uma versão com cartas. Independente do formato, o Mahjong envolve habilidade, estratégia, cálculo e, inevitavelmente, uma dose de sorte. Sua disseminação é popular em muitos países asiáticos, sendo compartilhado entre amigos, família e até no trabalho.
Algumas empresas japonesas, principalmente da área financeira, fazem torneios como parte do processo seletivo. Assim, a companhia analisa a forma com que os candidatos reagem às situações do jogo, traçam perfis e identificam profissionais mais alinhados à si.
O Mahjong funciona da seguinte maneira: é jogado entre quatro pessoas e o objetivo é montar grupos de pedras (que podem ser trincas, quadras ou sequências). Cada pessoa inicia com 13. Na sua vez, compra uma e descarta outra. Quem completar uma mão primeiro, ou seja, unir quatro conjuntos e um par (14 peças), é o vencedor. Ah, e não esqueça de gritar “Mahjong!”
Estima-se que, hoje, existam pelo menos 40 variações no mundo. Os Estados Unidos, Singapura e Japão, por exemplo, adotaram versões próprias. Tamanho é o crescimento pelo apreço ao jogo que, invariavelmente, uma série de debates a respeito de apropriação cultural tem surgido.
Apropriação ou apreciação?

“Por um lado, é interessante para o jogo toda essa atenção, pois demonstra que o Mahjong está, pouco a pouco, ‘furando a bolha’ e ficando conhecido pelo grande público,” diz Amauri. “Por outro, é preciso ter cuidado, pois ao mesmo tempo que as grandes marcas lucram com a fabricação de kits de luxo, artesãos que fazem um trabalho único e incrível em vilarejos deixaram de ter sua fonte de sustento.”
Quem faz coro é o diretor do Ibrachina, instituto de promoção de integração entre Brasil, China e países de Língua Portuguesa, André Sun. “Quando existe reconhecimento da origem, respeito pela história e interesse genuíno em compreender seu significado cultural, estamos diante de um processo de apreciação cultural. Hoje, o jogo vive uma verdadeira ‘renascença’ entre os jovens.”
O Mahjong não envolve apenas estratégia. Ele representa a convivência, respeito, tradição e construção de vínculos sociais. O Brasil, vale destacar, é um país formado por diferentes influências culturais e conta com uma longa história de integração com a comunidade chinesa. “Esse tipo de intercâmbio fortalece o diálogo entre os povos,” diz André Sun do Ibrachina.














