O dia em que eu terminei com o açúcar

O dia em que eu terminei com o açúcar

Formiga raiz, desses que não vive sem doce, teve um estalo que mudou sua vida: "O que eu estou colocando dentro do meu corpo?”

Eram 23h do dia 17 de maio de 2023. Eu estava sentado no balcão do Odeon, em Tribeca, um dos meus restaurantes preferidos de Nova York, cidade onde moro há 18 anos. Depois de pedir um cheeseburger e um martini, chegou a minha parte favorita da refeição: a sobremesa.

Pedi um sorvete de creme com calda de chocolate. Quando já estava quase na metade, percebi que a calda estava acabando e pedi mais. A nova porção chegou e, enquanto despejava ainda mais chocolate sobre o sorvete, tive um estalo. Pensei: "O que eu estou colocando dentro do meu corpo?”

Não sei exatamente por que esse pensamento surgiu exatamente naquele dia. Talvez tenha sido uma mistura de idade, maturidade ou simplesmente o momento certo. 

O fato é: aquele estalo do nada mudou completamente a minha relação com o açúcar.

Sempre fui formiga. Mas formiga profissional. Essa história de "como só um quadradinho de chocolate por dia" ou "acho muito doce para mim" sempre me pareceu coisa de gente chique. Eu era doceiro raiz. Nunca existiu doce ruim.

Nutella, bolo de brigadeiro com cobertura de chocolate, sorvete, tiramisù, mousse, trufas, doces portugueses, doces franceses... Eu gostava de tudo. Talvez só aqueles doces antigos, tipo abacaxi em calda, não me conquistassem tanto.

Não existia refeição sem sobremesa. Aliás, acabei de lembrar da bala de coco do Rodeio, em São Paulo, que acompanha o cafezinho. Eu comia umas dez.

Naquela noite, depois de raspar até a última gota daquele sorvete, tomei uma decisão aparentemente simples: tentar ficar uma semana sem consumir açúcar refinado. Eu não fazia ideia do que estava por vir.

O primeiro dia foi tranquilo. No segundo, o tempo fechou.

Meu corpo começou a pedir desesperadamente aquele docinho depois das refeições. Vieram o mau humor, a irritação e uma sensação muito parecida com abstinência. Os três primeiros dias foram difíceis de verdade. No quarto dia aconteceu algo curioso: passei boa parte do dia sem pensar em doce. Depois voltava. Depois sumia de novo.

Foi uma montanha-russa até completar sete dias.

Fisicamente, eu não havia sentido absolutamente nenhuma mudança. Era cedo demais para isso. Mas emocionalmente eu me sentia um campeão olímpico. Quando completei uma semana, pensei: "Se consegui sete dias, consigo um mês".

Foi aí que o desafio virou quase uma obsessão.

Comecei a ouvir podcasts, ler artigos científicos, assistir documentários e entender melhor o impacto do açúcar refinado na saúde. Descobri estudos que relacionam o consumo excessivo de açúcar ao aumento do risco de diversas doenças metabólicas e cardiovasculares e também pesquisas que investigam sua relação com doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, doença que levou minha mãe. Isso mexeu profundamente comigo.

Outra informação que me chocou foi descobrir que, segundo a American Heart Association, crianças e adolescentes deveriam consumir no máximo 25 gramas de açúcar adicionado por dia. Ainda assim, por muitos anos, um único café da manhã servido nas escolas públicas americanas poderia fornecer mais da metade e, em alguns casos, quase toda essa quantidade.

Quanto mais eu aprendia, mais difícil ficava justificar aquele "só um docinho".

O primeiro mês foi, sem dúvida, o mais complicado. Baixei o aplicativo Sugar Free para contar os dias. Lia tudo sobre o assunto. Pensava em açúcar o tempo inteiro, mas de uma maneira diferente.

Foi também nesse período que descobri a tâmara. Ela virou minha melhor amiga. Não substitui um brigadeiro, mas ajuda bastante quando bate aquela vontade de mastigar alguma coisa doce.

Quando completei um mês, ainda sentia muita vontade de comer açúcar. A diferença é que ela aparecia com menos frequência. E toda vez que surgia, eu pensava na quantidade absurda de açúcar que teria consumido se continuasse com os meus antigos hábitos. Isso me dava força para seguir.

Depois do primeiro mês, estabeleci uma nova meta: um ano. Continuei lendo, aprendendo, acompanhando meu progresso no aplicativo e comendo minhas tâmaras.

Até que, um dia, completei 365 dias sem açúcar refinado. Naquele momento percebi que já não fazia mais sentido pensar em metas. Não era mais uma dieta. Era simplesmente a minha vida.

Hoje não sinto falta. Meu paladar mudou completamente. Frutas ficaram mais doces, sobremesas industrializadas perderam a graça e aquela necessidade de terminar toda refeição com um doce simplesmente desapareceu. Minha disposição mudou radicalmente, não existe mais aquela moleza no meio da tarde, minha energia aumentou muito, a pele está infinitamente melhor. 

Nunca imaginei que conseguiria escrever essa frase. Mas consegui. E sigo muito mais doce!

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