Há um termo em inglês que os profissionais da aviação usam para descrever quem se amontoa na porta de embarque antes do seu grupo ser chamado no aeroporto: gate lice — em bom português, piolho de portão. Não é um termo simpático, mas é brutalmente honesto.
O aeroporto faz isso com a gente: tira a paciência, derrete conceitos de civilidade e transforma pessoas razoáveis em versões terríveis. Tudo isso antes de decolar. São as filas imprevisíveis, a tensão pelo julgamento da bagagem de mão, a pessoa à frente na esteira raio-x que nunca está preparada. São pequenos microcolapsos que fazem do aeroporto um dos lugares mais estressantes - mesmo que o motivo de estar por lá seja excitante...
O executivo, o mochileiro, a influencer com cinco malas e a família com três crianças: democraticamente, estão todos ali seguindo o mesmo roteiro e convivendo em paz — ou quase. A harmonia acaba quando o CEO resolve fazer sua reunião no vídeo (e aos gritos no saguão), a influ precisa ocupar ao menos duas tomadas para seus "instrumentos de trabalho" e as crianças, que correm em volta da sua cadeira, estão sendo crianças, mas, well, não são suas, então a paciência vai ao zero.
Nesse lugar provisório, de passagem, onde até o tempo parece correr diferente, as normas sociais precisam ser reforçadas para não virar barbárie. Até porque somos 129 milhões de brasileiros voando, por ano, entre o mercado doméstico e internacional... Nunca tanta gente viajou ao mesmo tempo — e talvez nunca tenha sido tão importante lembrar que o aeroporto é um espaço compartilhado, não uma extensão da sala de casa.
Aqui, confira as dicas da boa etiqueta do aeroporto para viver em um território de paz compartilhada, antes ou depois de passar pelo controle de segurança.
REGRAS ESSENCIAIS ANTES DE OCUPAR O SEU ASSENTO
• O primeiro mandamento básico nem é de etiqueta, mas de processo: calcule seu tempo. A fila no balcão é imprevisível, o sistema de check-in pode cair, a troca de portões pode acontecer... A antecedência ajuda a evitar situações de estresse que, acumuladas, transformam qualquer monge na pessoa mais malcriada do mundo. Chegar cedo é sinônimo de educação. Quem chega atrasado não ganha direito — nem com o jeitinho — de furar fila.
• Chegou atrasado? Acontece. Correr pelo terminal até é aceitável, mas não queria exigir que o mundo saia da sua frente. A sua emergência não é coletiva.
• Mesmo com os pequenos privilégios das categorias de ouro, platina, diamantes de viajantes frequentes, você não é mais importante do que ninguém. Adulação de companhia aérea não é desculpa para soberba.
• Exercite sua simpatia com quem está trabalhando. Em um mar de grosseria, gentileza gera gentileza.
• Necessita reorganizar a mochila? Redistribuir o peso entre as malas antes de despachar? Saiba que já está errado. Você deveria ter feito isso antes de sair de casa. Já que chegou a esse ponto, ao menos saia da frente do balcão, libere a fila e faça a Marie Kondo num cantinho.
• Os carrinhos de bagagem não vêm com valet. Não esvazie o seu e deixe-o atravessado de qualquer jeito. Se não houver uma área específica para guardá-lo, encoste-o em um canto inofensivo.
• No raio-x, aproveite a fila para ficar pronto antes de chegar à esteira. Puxa, se você sabe que o cinto apita, tire antes, né? Cada segundo conta - para você e para quem vem atrás.
• O detector de metal apitou? Não bufe, não discuta e nem crie caso. Apenas siga as regras e resolva rápido para sair da frente e passar o momento ileso.
• Não pare na saída da esteira para recolocar cinto, relógio, casaco e mochila. Há um espaço próprio para isso e que não atrapalha o fluxo.
• Fone de ouvido é lei, talvez mais aqui do que em qualquer outro lugar. Ligação no viva-voz, o vídeo bombando, reunião por chamada em volume de comício numa sala pequena com pessoas estressadas tentando ouvir o anúncio do voo. Isso é caso de saúde pública.
• Garanta o QR code da passagem, não deixe para abrir o aplicativo na hora em que ele precisa ser lido. Nessa hora, tenha certeza que o seu celular vai travar e atrasar todo mundo. Se usar a passagem em papel, deixe-a à mão. O mesmo vale para o passaporte.
• Não cole na pessoa da frente. O mesmo vale para o carrinho de bagagens: mantenha uma distância civilizada da panturrilha à frente.
• Na sala de embarque, o banco é seu. O banco do lado, não. Malas, mochilas e casacos não precisam sentar.
• Utilize as tomadas à vontade, mas apenas uma. Lembre-se que elas são escassas por ali. Não atravesse os fios para atravancar a passagem.
• Precisa tirar os sapatos enquanto espera seu voo? Você até pode até achar que sim, mas o mundo discorda. Andar descalço pelo terminal então… Apenas não.
• Fumantes, aproveitem que podem pitar em alguns aeroportos com áreas especiais para isso. Mas tenham a consciência de que o ideal é não fazer daquela sala o seu lounge até a hora do embarque. A ventilação não é das melhores e você sairá de lá parecendo um incenso de alcatrão, como se tivesse fumado dois maços de uma vez. Tenha consideração pelo seu colega de assento.
• Roupa confortável para o voo é essencial. Mas não precisa ser o pijama estampado de Bob Esponja, um top ou shorts minúsculo de malhação.
• Não revire os olhos quando chamarem os passageiros com prioridade por lei. Não questione a idade do senhor ou a gravidez da senhora.
• Precisou tirar um cochilo na conexão? Apesar de questionável, todo mundo vai entender. Mas encontre um portão menos disputado ou um lounge de descanso, comuns em aeroportos maiores. Nada de roncar ocupando três bancos no portão mais caótico em frente ao raio-x.
• Na hora do embarque: não seja um piolho. Respeite as prioridades, tanto as definidas por lei quanto as categorias da própria companhia. Elas não estão lá como hierarquia social, mas como organização. Seu grupo não foi chamado? Não precisa levantar, nem fazer fila. A aglomeração não vai fazer o voo sair mais rápido.















