VENEZA — Sob o forte calor europeu, até o dia 12 de setembro, todos os holofotes estarão na 83ª edição do Festival de Veneza, o mais antigo do mundo. Assim como aconteceu no Festival de Cannes deste ano, o evento no Lido não terá a presença dos grandes estúdios de Hollywood, mas contará com lançamentos importantes, que devem aparecer no Oscar 2027.
Frankenstein, Pobres Criaturas, Nomadland, Coringa, Nasce uma Estrela, La La Land e Gravidade têm em comum o fato de que todos foram exibidos pela primeira vez no Festival de Veneza, dentro ou fora de competição, e saíram do Lido diretamente para o Oscar, onde ganharam estatuetas. Já faz algum tempo que Veneza se transformou em principal palco para filmes que querem chegar ao Oscar, mas este ano o festival terá menos atrações do que de costume. Ainda assim, dois títulos aparecem, até o momento, com destaque: Ink, de Danny Boyle, e Wild Horse Nine, de Martin McDonagh.

Ink foi o filme de abertura de Veneza e mostrou que tem potencial para o Oscar 2027. Pela primeira vez concorrendo ali, o cineasta britânico Danny Boyle chegou com a credencial de vencedor do Oscar em 2009, com Quem Quer Ser um Milionário?. Em Ink, ele conta a história da compra do tabloide britânico The Sun pelo magnata da mídia Rupert Murdoch, em 1969. Ao lado do editor Larry Lamb, eles mudaram para sempre os rumos do jornalismo mundial. No elenco, Guy Pearce e Jack O’Connell brilham como Murdoch e Lamb.
Já Wild Horse Nine, de Martin McDonagh, causou alvoroço em sua exibição — foi ovacionado por 14 minutos na sessão oficial. O cineasta estreou seus dois últimos filmes no evento: o sucesso Três Anúncios para um Crime, vencedor do prêmio de roteiro em Veneza em 2017 e, posteriormente, ganhador de dois Oscars, e The Banshees of Inisherin (2022), que deu a McDonagh, novamente, o prêmio de roteiro e ainda a Coppa Volpi de melhor ator para Colin Farrell, além de nove indicações ao Oscar em 2023. Dificilmente McDonagh sairá de Veneza sem prêmios.

Wild Horse Nine se passa em 1973 e acompanha dois agentes da CIA, Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell), que viajam para o Chile numa missão. Lá eles se isolam na Ilha de Páscoa, conhecem duas jovens locais e Chris acaba revelando o motivo para estarem ali: os Estados Unidos estão financiando o golpe militar no Chile. Com roteiro inteligente, diálogos inspirados e atuação impecável de Malkovich e Rockwell, o filme deve brilhar na temporada de prêmios e já é aposta certa ao Oscar do ano que vem.
Na coletiva de imprensa, ao ser perguntado se já tinha seu discurso de vencedor do Oscar pronto, o veterano John Malkovich respondeu:
“É incrivelmente gentil. Para mim, é algo muito bonito. Mas o mais bonito é que o filme receba atenção. E o filme tem vários atores extraordinários, e é escrito e dirigido de forma maravilhosa. Isso é o que importa para mim.”
O cinema asiático também apareceu com força em Veneza, e deve brilhar no Oscar 2027. Provável candidato do Japão, Look Back, de Hirokazu Koreeda, conquistou público e crítica com a história de duas meninas que, apaixonadas por mangá, se unem numa amizade sensível e cheia de esperança. Com chances de representar a Coreia do Sul, Possible Love, trama que confronta dois casais e seus anseios, é outro favorito ao Leão de Ouro.

Apesar da boa seleção, Veneza ficou devendo vários títulos muito aguardados que eram dados como certos no Lido, entre eles Digger, de Alejandro González Iñárritu, com Tom Cruise em sua maior chance de, finalmente, ganhar um Oscar; The Social Reckoning, de Aaron Sorkin, a aguardada continuação de A Rede Social com Jeremy Strong como Mark Zuckerberg; e Cry to Heaven, de Tom Ford, que sempre lançou seus filmes em Veneza e vai marcar a estreia da cantora Adele como atriz.
Sobre as ausências, o diretor do Festival de Veneza, Alberto Barbera, disse: “É difícil, se não errado, culpar Veneza pela ausência dos estúdios norte-americanos. Hollywood passa por um período de turbulência, marcado pelo aumento dos custos, queda na bilheteria e pela crescente concorrência das plataformas de streaming. O único grande filme que poderíamos realisticamente ter esperado era Digger, que a Warner Bros decidiu lançar apostando no fator surpresa, contornando todos os festivais de outono. Simplesmente não havia outros títulos, ou eles não estavam prontos a tempo para as nossas datas”.
A única mulher a garantir uma vaga na competição principal do Festival este ano foi a diretora dinamarquesa May el-Toukhy, que estreou (com sucesso) seu drama Woman Unknown. A ausência feminina em Veneza já é uma tradição no evento, que foca em diretores e tramas protagonizadas por homens. Ao ser questionada sobre isso, a presidente do júri deste ano, a atriz, produtora e diretora norte-americana Maggie Gyllenhaal, brincou que “os homens fazem filmes melhores que as mulheres.” A brincadeira, no entanto, não repercutiu bem e causou constrangimento durante a coletiva de imprensa de apresentação do Festival.
Na ocasião, o diretor do Festival de Veneza, Alberto Barbera, saiu em defesa do evento e informou que o documentário Naza, que foi adicionado à competição dias antes do festival começar, era codirigido por uma mulher, Rachel Szor (que, ao lado de Yuval Abraham, ganhou o Oscar por No Other Land).

O cinema brasileiro volta a disputar o Leão de Ouro, principal prêmio do Festival de Cinema de Veneza, dois anos depois do sucesso no evento de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles — que abriu caminho para o longa vencer o Oscar de melhor filme internacional no ano seguinte. A coprodução Itália-Brasil, Retorno a Buenos Aires, de Marco Bechis (Alambrado), que também assina o roteiro ao lado de Vijaya Bechis Boll, está na Mostra Competitiva e será exibido nesta sexta-feira.
O filme narra a história de Mariano Guerra, que volta à Argentina para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e escravizaram durante a ditadura militar. Estrelado pelo italiano Adriano Giannini, Retorno a Buenos Aires reúne ainda os brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy em papéis de destaque, além das atrizes argentinas Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss.
Com três meses de pré-produção e quatro semanas de filmagens no Brasil, realizadas em Porto Alegre, além de três semanas em Turim, no norte da Itália, o projeto também consolida a atuação internacional da produtora brasiliense 34 Filmes e a parceria com André Ristum, que já colaborou em diversos projetos anteriores. O filme teve participação de técnicos brasileiros, entre os quais a direção de arte de Eduardo Antunes, a produção de elenco de Alessandra Tosi, o figurino de Coca Serpa, a produção executiva de André Ristum e Patrick de Jongh e o line producer Beto Rodrigues. A coprodução entre Brasil e Itália reúne a 34 Filmes e as italianas Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema.
O Brasil também compete na 41ª Settimana Della Critica de Veneza, mostra paralela do Festival dedicada a longas de estreia, com o filme London, dirigido por Victor Di Marco e Márcio Picoli, que recebeu vários elogios da crítica internacional. Na trama, London (protagonizado pelo diretor e roteirista Victor Di Marco) é um jovem com deficiência que ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches e tem a chance de descobrir a origem e o destino de sua deficiência em um exame médico.
Celebrando a trajetória enfrentada, Di Marco e Picoli comentam que estar em um dos maiores festivais de cinema do mundo é a confirmação de que vale a pena acreditar em projetos que parecem improváveis. “Essa estreia reafirma que histórias contadas a partir de corpos historicamente marginalizados também pertencem aos maiores palcos do cinema mundial. E o filme chegará em públicos de diferentes países e ampliará a forma como a deficiência é percebida: não como um limite ou uma falta, mas como uma potência criativa, uma linguagem e uma forma de produzir novas maneiras de olhar para o mundo.”
A diretora da Settimana Della Critica, Beatrice Florentino, afirmou que há anos não via um longa de estreia realizado com tamanha segurança, precisão e maturidade emocional: “London é uma celebração da vida, da delicadeza, do desejo e do amor. Um filme que abraça a sexualidade como uma força vital, recusa rótulos e nos lembra que o maior ato de coragem é simplesmente habitar o presente”.
Com forte ligação afetiva com a Itália George Clooney recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da sua carreira, e discursou emocionado.

“Vivemos em um período em que nos dizem que deveríamos ter medo uns dos outros, mas não é assim e a história nos ensina que as pessoas que tentam calar não são os políticos, são os jornalistas que tentam fazer as perguntas certas, são os artistas, os atores, os músicos. As histórias sempre são perigosas para quem se aproveita do medo: por isso os filmes com certeza não abaixam a inflação, mas nos lembram que os desconhecidos talvez sejam os heróis da história de outra pessoa e que ainda podemos nos sentar em uma sala escura e nos interessar pelas histórias de pessoas que não conhecemos,” disse ao receber o prêmio.
Clooney também participou de uma Masterclass no Festival, série de palestras voltadas para estudantes de cinema, com acesso de jornalistas credenciados. Ele falou sobre sua trajetória no cinema e anunciou, em primeira mão, seu próximo projeto. “Estou prestes a fazer uma série de TV, acho que em Veneza mesmo. Na verdade, vamos filmar algumas coisas aqui, a partir do próximo ano,” disse.
Assim como Clooney, a atriz Ellen Burstyn, de 93 anos, receberá o Leão de Ouro pelo conjunto de sua carreira e exibirá dois filmes no festival: o curta Flesh Impact, de Maggie Gyllenhaal, e Place to Be, de Kornél Mundruczó. Uma das maiores lendas do cinema, ela é vencedora do Oscar pelo clássico Alice Não Mora Mais Aqui (1974).
Outros veteranos estão mostrando seus filmes no Festival: o cineasta alemão Werner Herzog, de 83 anos, compete com Bucking Fastard, estrelado pelas irmãs Kate e Rooney Mara, e o ator vencedor do Oscar Geoffrey Rush, de 75 anos, está no elenco de Mr. Nelson, Did You Killed People?, de Shinya Tsukamoto. Fora de competição, o roteirista e diretor Paul Schrader, de 80 anos, volta a Veneza com The Basics of Philosophy, produzido por Martin Scorsese, retomando a parceria iniciada em Taxi Driver (1976), escrito por Schrader e dirigido por Scorsese.
Entre os destaques dessa edição estão ainda Acontecerá Esta Noite, do italiano Nanni Moretti, que retornou após 37 anos de ausência do Festival. O longa, que tem no elenco a italiana Jasmine Trinca e o francês Louis Garrel, foi exibido no último sábado, e agradou público e crítica. Quem também já passou pelo tapete vermelho de Veneza foi Robert Pattinson, astro de Primetime, estreia na direção de longa de ficção de Lance Oppenheim.

O documentarista de apenas 30 anos é um dos mais jovens cineastas a concorrer ao Leão de Ouro. A veterana Susan Sarandon também brilhou no tapete vermelho. Ela faz uma participação em The Echo Chamber, do cineasta italiano Andrea Pallaoro, estrelado por Luca Marinelli e Alicia Vikander.

Outros nomes que estiveram em Veneza no último final de semana foram os irmãos Liam e Noel Gallagher, que acompanharam o lançamento do documentário Oasis: Don’t Look Back in Anger. A atriz francesa Marion Cotillard, que é a nova tutora da Biennale College Cinema, workshop que permite que cineastas em ascensão desenvolvam e produzam filmes de longa-metragem com micro-orçamento, patrocinado pela Chanel; e a atriz americana Amanda Seyfried, que participou de um painel da marca Miu Miu voltado para mulheres que trabalham com a sétima arte.

A diretora Chloe Zhao, vencedora do Oscar e do Leão de Ouro em Veneza com Nomadland (2020), conduziu uma masterclass, e Gael García Bernal participou da Mostra Spotlight com o filme O Homem na Água (o terceiro que ele dirige), que tem a brasileira Débora Nascimento e o cantor Ricky Martin no elenco. O longa traz um olhar bem-humorado para a América Latina e faz várias referências ao Brasil.

O Festival ainda vai receber nomes como Penélope Cruz e Javier Bardem, vencedores da Coppa Volpi de melhor atriz e ator no evento e protagonistas de Bunker, de Florian Zeller, cineasta ganhador do Oscar de melhor roteiro adaptado por Meu Pai, de 2021. O filme concorre ao Leão de Ouro, assim como Company, de Casey Affleck, que trará ao Lido o veterano Nick Nolte.

Russell Crowe chega nos próximos dias para lançar o documentário What Love Builds, fora de competição, e a atriz Saoirse Ronan estreia como diretora com Paper Plan, curta-metragem que está na Mostra Orizzonti, a segunda mais importante do festival.














