Portobello: o espetáculo da inocência

Portobello: o espetáculo da inocência

Entre palco e julgamentos, minissérie da HBO relembra a história de ascensão e queda do apresentador de TV italiano Enzo Tortora

A primeira virtude de Portobello é arrebentar com o ditado que quem não deve não precisa temer. Muito alardeado e pouco confirmado, o dito popular não apenas não se confirma como, com frequência, destrói quem acredita que a simples verdade dos fatos garante tranquilidade. Não garante. Enzo Tortora, o protagonista, acreditou nisso. E perdeu.

Portobello é uma minissérie baseada em relatos reais, exibida pela HBO em seis capítulos. O roteiro se baseia em Lettera a Francesca, livro póstumo lançado em 2016, no qual Tortora dá a sua versão sobre o calvário que enfrentou.

Até o início dos anos 1980, Tortora (interpretado no filme por Fabrizio Giffuni) se destacava nacionalmente como apresentador da emissora italiana RAI. À frente de Portobello — programa exibido nas noites de sexta, que misturava números musicais, namoros na TV, espetáculos circenses e toda sorte de atrações — tornou-se em um fenômeno diante de 28 milhões de telespectadores.

Tudo começou a desmoronar em junho de 1983, quando ele foi preso sob acusações de ligações com a máfia e o tráfico de drogas. A denúncia partiu de alguém sem a menor credibilidade, que agiu de maneira leviana (ou vingativa, como dá a entender o desenrolar da história). No caso, o ressentido é Giovanni Pandico, nome de segunda linha da Nuova Camorra Organizzata, grupo criminoso de Nápoles liderado por Raffaele Cutolo. 

À época, as organizações criminosas haviam sido responsáveis por centenas de assassinatos, sequestros e atentados em toda a Itália. A população se encontrava revoltada e assustada. Assim, todos esses elementos contribuíam para que a paranoia se alastrasse. E qualquer denúncia fosse tomada como verdade

Coescrito e dirigido por Marco Bellocchio (italiano nascido em Bobbio, 86 anos, com mais de duas dezenas de longas-metragens e parcerias com Pier Paolo Pasolini, Glauber Rocha, Jean-Luc Godard e Bernardo Bertolucci), o filme é um reflexo das pretensões do cineasta: um criador que se caracteriza por imprimir em seu trabalho um forte caráter político. E a Itália do período abordado – o final dos anos 70 e o começo da década seguinte — era essencialmente política.

Culturalmente, Bellocchio é herdeiro de duas vertentes: o neorrealismo italiano e o cinema político surgido nos anos 60 e que deu ao mundo filmes como Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (de Elio Petri, 1970) e O Conformista (de Bernardo Bertolucci, 1970).

Em sintonia com esse passado, Portobello, à medida que a trama evolui, tem seu período de ação incrementado por outros ingredientes, como a transição ocorrida na Itália a partir do assassinato do primeiro-ministro Aldo Moro pelas Brigadas Vermelhas e o surgimento de novas forças políticas e econômicas. Um dos símbolos — talvez o maior — desse novo momento foi a ascensão de Silvio Berlusconi, que ganhou destaque como empresário de comunicação, no comando do primeiro grande grupo de TV no país, e, logo depois, ao chegar ao posto de primeiro-ministro. 

Portobello se equilibra bem entre o passado e o presente. Ao apresentar um fato ocorrido há mais de quatro décadas, o roteiro, sem precisar ser explícito, faz a ligação com acontecimentos atuais. É a prova de que em muitos lugares, em muitos momentos, as relações entre comunicação, política e poder pouco se modificam.

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