Nelson Rodrigues segue em cartaz — e nunca foi tão necessário
Foto: Divulgação/Pedro Martins

Nelson Rodrigues segue em cartaz — e nunca foi tão necessário

Espetáculos baseados na obra do dramaturgo surpreendem pela relevância ao tratar temas como cancelamento e feminicídio

A peça O Beijo no Asfalto, de Nelson Rodrigues (1912-1980), fala sobre a distorção das narrativas e o cancelamento de um indivíduo. 

Na trama, um homem recém-atropelado pede um beijo antes de morrer a um desconhecido que lhe socorreu. O gesto, flagrado por um repórter sensacionalista, destrói a reputação do sujeito que atendeu ao último desejo da vítima. 

Considerado uma obra-prima, o texto ganhou os palcos em 1961 e impressiona pela contemporaneidade do discurso. Sob a direção de Marco André Nunes, O Beijo no Asfalto estreia uma nova versão nesta quinta no Teatro Glaucio Gill, no Rio de Janeiro, e é um dos tantos espetáculos que atestam o fôlego do maior dramaturgo brasileiro. 

O ator Eduardo Sterblitch interpreta Arandir, o rapaz que beija o acidentado e vê o casamento com Selminha (papel de Luisa Arraes) afundar diante da cobertura do jornalista Amado Ribeiro (o ator André Mattos). 

Foto: Divulgação/Lucio Luna

A hipocrisia é desencadeada de vez quando o sogro de Arandir, Aprígio (vivido por Edson Celulari), confessa uma paixão reprimida pelo genro e se torna um dos seus algozes. 

O carioca Marco André Nunes, de 54 anos, conheceu Nelson Rodrigues através da adaptação cinematográfica da peça dirigida em 1981 por Bruno Barreto e protagonizada por Ney Latorraca (1944-2024) e Tarcísio Meira (1935-2021). 

Ele assistiu ao longa-metragem em uma fita VHS em um aparelho de videocassete aos 14 anos. “Eu fiquei tão impressionado que a minha percepção mudou muito pouco com os anos”. lembra Nunes, em entrevista ao Page9. “O Arandir é vítima de uma escalada de interesses que reproduz uma série de fake news e promove o seu cancelamento em todos os ambientes.”      

Para Nunes, a reverberação da obra de Nelson Rodrigues se deve a uma forte humanidade na concepção dos personagens e a uma falta de piedade em relação ao público. 

O seu discurso é sofisticado e brutal e, por isso, tem leituras renovadas por revelar pulsões, desejos e medos coletivos. “O Nelson é como um legista que expõe o que há dentro dos corpos de todos nós e incomoda por trazer à tona diferentes faces da sociedade.”

Único monólogo escrito pelo dramaturgo, Valsa nº 6, é de 1951 e mergulha no inconsciente de Sônia, uma adolescente assassinada enquanto tocava ao piano o tema do compositor Frédéric Chopin (1810-1849). 

A atriz Carol Costa interpreta a personagem na montagem intimista que acomoda quarenta espectadores no palco da Sala Paschoal Carlos Magno, do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo.  

O diretor do espetáculo, o goiano Jorge Farjalla, de 48 anos, é um especialista em Nelson. Entre tantas obras do autor, já encenou Doroteia, Senhora dos Afogados e Álbum de Família e promete para o ano que vem Boca de Ouro, Uma Ópera Suburbana, versão da peça sobre um bicheiro carioca musicada por Zé Rodrix (1947-2009). 

Em Valsa nº 6, ele ressalta o abuso sexual, a violência contra a mulher e o feminicídio que liquida uma garota de 15 anos. 

Entre os fragmentos de memórias, Sônia recupera as relações com a família, com Doutor Junqueira, um médico estuprador, e Paulo, um homem que até desperta paixão na garota, mas é um abusador. 

“O Nelson é absolutamente atual, e acredito que Valsa nº 6 esteja mais clara em suas intenções hoje do que há 70 anos,” diz Farjalla. “É um grito sobre o que acontece com milhares de mulher todos os dias.”

Farjalla justifica que a proximidade estabelecida na encenação entre Carol Costa e o público funciona como um pedido de socorro. Tanto que a atriz interrompe as falas da personagem para inserir depoimentos pessoais. “É como se ela contasse um segredo no ouvido do espectador e o obrigasse a pensar em como ajudá-la,” explica. 

Na esteira do sucesso de Senhora dos Afogados, peça de 1947 dirigida por Monique Gardenberg no ano passado, outra obra do autor ocupa o Teatro Oficina, em São Paulo. Os Sete Gatinhos, peça escrita em 1958 e até hoje considerada ousada pela abordagem da prostituição em família, ganhou encenação da carioca Joana Medeiros, de 56 anos, para sublinhar o feminismo e a decadência do sistema patriarcal.

Foto: Divulgação/Pedro Martins

No original, um chefe de família, desiludido ao saber que a caçula supostamente virgem está grávida, transforma a casa em um bordel para explorar as cinco filhas. A leitura de Joana rejeita a subserviência e estabelece uma revanche contra a figura paterna.

 As filhas recusam a ideia de abuso e, depois da morte do patriarca, batem a porta em busca de escolhas próprias. “Nesta peça, ninguém presta, ninguém vale nada, mas achei importante mostrá-las com a autonomia de abandonar o lar,” declara a diretora, que interpreta Noronha, o pai aspirante a cafetão.    

Joana considera uma “balela” chamar Nelson Rodrigues de conservador porque, mesmo diante de uma plateia jovem e liberal, como a que frequenta o Teatro Oficina, ela percebe o espanto de alguns com as mensagens contidas na peça e as opções da sua montagem.

Entre as mais impactantes está a escalação da atriz trans Zizi Yndio do Brasil para o papel de Silene, a filha virgem. “Esta peça fala com o público gay, transexual, negro e foi natural romper gêneros na formação do elenco,” afirma Joana. 

“As novas gerações são radicais nas reivindicações relacionadas ao corpo, mas se assustam com Nelson e o consideram tão louco quanto décadas atrás.”   

Não é apenas a ficção rodrigueana que se mantém forte. O jornalista, escritor e diretor Carlos Jardim, de 63 anos, recuperou as declarações do dramaturgo em entrevistas e textos publicados na imprensa para transformá-lo em personagem do monólogo Nelson Rodrigues – O Passado Sempre Tem Razão, que volta ao cartaz neste mês no Teatro das Artes, no Rio. 

“Eu não me preocupei em montar a biografia de Nelson”, afirma Jardim. “Quis mostrar as obsessões recorrentes em sua obra e pensamento.”  

O solo, protagonizado por Bruce Gomlevsky, ressalta um posicionamento controverso em relação à política e à sociedade que encontra eco nas opiniões de boa parte da população nos dias de hoje.  

“Nelson foi taxado de obsceno e conservador, atacado pela direita e esquerda e, num mundo polarizado, derruba obviedades,” observa Gomlevsky, que, como diretor, levou ao palco as peças Anti-Nelson Rodrigues, Os Sete Gatinhos e Bonitinha, mas Ordinária. “Talvez seja justamente isto que o faça atemporal.”           

Foto: Divulgação