
Nara Roesler, a galerista que ‘conectou dois Brasis’
No Brasil, muitas galerias de maior sucesso foram fundadas por mulheres e, entre elas, está Nara Roesler, que há 50 anos constrói pontes entre o local e o global
O Brasil tem uma característica marcante e atípica no mercado das artes global: muitas de suas galerias de maior sucesso foram fundadas por mulheres.
Pioneiras como Luísa Strina, Raquel Arnaud, Silvia Cintra e Marília Razuk abriram caminhos e formaram o mercado.
Outra dessas pioneiras, Nara Roesler está completando 50 anos de carreira – uma trajetória que começou no seu Recife natal, deslanchou em São Paulo e se estendeu até Nova York.
A primeira exposição da galerista foi em 1976, ainda no Recife, com nomes pernambucanos como Francisco Brennand, Aloísio Magalhães e José Cláudio. Mais de uma década depois, em 1989, mudou-se para São Paulo e fundou a galeria que leva seu nome.
“Desde o início eu buscava conectar ‘dois Brasis’: representava o José Cláudio, um artista local, mas já fazia exposições com expoentes como Iberê Camargo, Siron Franco e Sérvulo Esmeraldo,” Nara disse ao Page9. “Unir nomes consagrados a nomes incipientes, artistas locais a outros de grande projeção sempre foi uma das minhas marcas.”
A chegada a São Paulo não foi simples.
“Chegar aqui sozinha não é fácil. Eu conhecia muito bem os artistas locais, conhecia a imprensa, os críticos – mas não conhecia o colecionador. Essa parte foi mais complicada,” lembra. “Fui rompendo esse cerco mostrando o programa e os artistas.”
Hoje, Nara tem galerias em São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York, representa 57 artistas e emprega 75 funcionários. Seus sócios são os filhos, Alexandre e Daniel, e Fabíola Ceni, uma ex-modelo profissional que se reinventou como marchand e trabalha com Nara há 17 anos.
No início, os filhos não queriam saber do negócio da família. Daniel foi fazer um MBA em Columbia e na volta, em 1999, a mãe o convidou a ser sócio.
Nara sempre foi muito intuitiva para tocar a galeria. Daniel trouxe profissionalismo e organização a um negócio então muito informal. Dez anos depois, foi a vez de Alexandre se juntar ao negócio.
“Com meus filhos e a Fabíola, a galeria vai ter outros 50 anos de história.”
A personalidade de Nara dá o tom (e a energia) da galeria, que sempre teve uma linha curatorial ampla – o popular, o erudito, norte e sul – e aberta a novos artistas, muito diferentes entre si.
Desde 2019, o diretor artístico da galeria é o venezuelano Luis Pérez-Oramas, que vive em Nova York e foi curador da divisão de arte latino-americana do MoMA. A galeria foi a primeira das brasileiras a estabelecer uma presença internacional, em 2015, com a abertura em Nova York, e desde 2021 está em Chelsea, ao lado de powerhouses como a David Zwirner.
Em 2011 veio a editora própria, a Nara Roesler Books. “Em poucas palavras, acredito que minha missão como galerista é ser mediadora, ampliando as possibilidades de conexões geográficas, temáticas, estéticas e culturais que a arte é capaz de produzir e traduzir.”
A exposição comemorativa destes 50 anos de estrada, intitulada Festa das Falas, tem curadoria de Moacir dos Anjos, que selecionou obras que pontuam a trajetória de Nara.
Reunindo muitos artistas do Nordeste, em particular do Recife, o curador, seu conterrâneo, diz que a exposição “busca resgatar uma forma de falar, uma inflexão nessa linguagem, nesse repertório, de artistas que, independentemente de trazerem ou não referências visuais de um determinado território, fazem isso com certo jeito, uma afirmação de um pertencimento. Na fala de Nara, na voz de Nara, há esse sotaque, como há na minha fala também, e na fala de outros artistas que vêm dessa região.”
Apesar de todo o sucesso, de seu talento comercial e de um nome consolidado, Nara ainda sente o frio na barriga em cada vernissage, como se estivesse começando.
“Depois de 50 anos, cada exposição continua sendo a primeira para mim,” ela me disse. “Fico ansiosa: será que vai ficar montada a tempo? Será que vai ter imprensa? Será que vai vender? Eu não me acostumo.”
Rita Drummond escreve sobre arte no Page9.


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