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Lygia Pape detestava verdades absolutas. Esta mostra histórica lhe faz justiça

Lygia Pape detestava verdades absolutas. Esta mostra histórica lhe faz justiça

Galerias antecipam as comemorações do centenário de uma das figuras centrais da arte brasileira

Movimento transformacional na arte brasileira nos anos 1950-1960, o neoconcretismo foi ancorado por três artistas: duas Lygias e um Hélio.

Mas durante muito tempo, Lygia Pape ficou à sombra de Lygia Clark e Hélio Oiticica, mais reconhecidos pelo mercado e pelo grande público. Pape sempre foi mais citada nos circuitos acadêmicos e institucionais do que em feiras e leilões.

Agora, isso pode começar a mudar.

A galeria Mendes Wood DM assumiu a representação do espólio de Pape e organizou a mostra Sendo — com envergadura museológica — antecipando as comemorações do centenário da artista (1927-2004).

Em parceria com o Projeto Lygia Pape, tocado por sua filha Paula, a mostra, que está distribuída entre a sede da Mendes Wood na Casa Iramaia e o galpão da galeria na Barra Funda, traz trabalhos raramente exibidos que abrangem mais de cinco décadas de produção.

Pape é uma das figuras centrais da arte brasileira, e seu trabalho carrega uma universalidade que ainda ressoa atual 50 anos depois. Ela antecipou debates absolutamente atuais, como interatividade, a multiplicidade de meios e o rompimento da barreira artista/público.

Grande defensora da experimentação, Pape pregava o reequilíbrio da relação entre corpo e cérebro, entre o intelectual, o sensual e o popular, e criou além do circuito artístico, desenhando a identidade visual do Cinema Novo e das embalagens icônicas dos biscoitos da marca Piraquê.

“Hélio Oiticica descreveu Lygia Pape como ‘uma semente permanentemente aberta’: semente, porque suas obras são centros de energia aguardando o momento de irromper; permanentemente, porque ela gera constantemente ideias novas e evita se fixar num estilo reconhecível; aberta, porque suas obras são propostas sobre a realidade que convidam o espectador a participar e a produzir mudanças no comportamento,” escreveu o crítico de arte Guy Brett em seus estudos sobre Pape.

O curador Germano Dushá, que apoiou na organização da mostra e assina o texto curatorial, disse ao Page9 que a exposição reúne duas versões das Ttéias bastante distintas entre si. A Ttéia 1, B, de 2000, é feita de fios prateados tensionados no espaço, que formam volumes geométricos no limiar da aparição.

“Conforme você caminha, as formas mudam, e o que antes era sólido vai parecendo que é pura luz.” Já a Ttéia nº 7, de 1991, leva o visitante a uma sala escura onde duas pequenas pirâmides sobre tecido branco são banhadas por focos de luz azul.

“Quando se aproxima, percebe que estão cobertas por um pigmento azul, como se a própria luz tivesse se materializado em pó ao tocar aquelas formas,” explicou Dushá.

A divisão entre a Casa Iramaia e o galpão da Barra Funda foi pensada na relação das obras e dos espaços da galeria. Na Casa Iramaia a escala é intimista, com obras que vão de uma pintura raríssima dos anos 1950 a um Poema-Luz que flutua no espaço.

Já no galpão da Barra Funda há uma espécie de celebração da efervescência da forma, mostrando “a amplitude e o vigor do pensamento espacial da artista.”

A série Ttéia está nos maiores museus do mundo. O Inhotim dedicou um pavilhão para a obra e, recentemente, uma das séries causou comoção na Europa, com a primeira exposição individual da artista na França, na Bourse de Commerce em Paris, que ficou em cartaz até fevereiro.

As instalações têm uma materialidade mínima, construídas com fios metálicos que se alteram conforme a luz e o deslocamento do espectador. A beleza está justamente nessa fragilidade e no que parece escapar a qualquer momento — as obras existem no limite entre o visível e o invisível.

“Eu gostava, por exemplo, de andar de carro pelos viadutos,” Pape disse numa entrevista antiga. “Parecia que eu estava tecendo o espaço. Essa é a origem das Ttéias – uma obra na qual eu teci fios dourados num espaço inteiro. E isso veio da minha experiência na cidade.”

A artista carioca dizia que era fiel a seus desejos e delírios, não gostava de se repetir, e não ambicionava a posteridade. Acabou-a tendo mesmo sem querer. A exposição nos dois espaços da Mendes Wood DM é de importância histórica. 

Pape foi extraordinária porque se interessou por todas as formas de arte e perseguia a criação com uma coragem libertária – sem o menor apreço por tendências ou pelo mercado. 

“Eu gosto de ambiguidade,” dizia Pape. “Não gosto da arte fechada em si mesma. Detesto verdades absolutas.”

Como diria sua ilustre xará, a grande escritora Lygia Fagundes Telles: “A beleza não está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio tom, nessa incerteza.”

Uma certeza que fica é que o mundo em que essas três Lygias criavam, ativa e livremente, era um mundo muito melhor.

Rita Drummond escreve sobre arte no Page9.

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