Seu celular está reconfigurando o seu corpo

Seu celular está reconfigurando o seu corpo

Passamos tanto tempo diante das telas que elas já começam a deixar marcas físicas na anatomia humana

Já sabemos o que passar horas no celular faz com a concentração, a atenção e o sono. Mas e com o corpo? O pescoço que vive inclinado, os olhos que chegam ao fim do dia exaustos, o polegar que nunca parece ter descanso... Sim, o smartphone também está deixando suas marcas físicas, e os médicos têm um nome para esse conjunto de efeitos: phone body. É o corpo se adaptando, gesto após gesto, a um objeto que já não sai das nossas mãos.

Dados do relatório global DataReportal indicam que a população brasileira passa, em média, nove horas por dia olhando para telas – uma exposição prolongada que obriga o organismo a um processo de adaptação funcional e a alterações estruturais. A maioria não percebe essas mudanças acontecendo, pois a transição é lenta. No entanto, a sobrecarga mecânica diária e a exposição à luz dos dispositivos afetam a pele, a visão e a estrutura musculoesquelética.

Grande parte desses danos pode ser evitada com prevenção ativa, mas as alterações instaladas raramente se revertem de forma espontânea. O celular deixou de ser apenas um acessório e passou a ser um agente modelador da anatomia humana.

O impacto da tecnologia na pele manifesta-se de forma acentuada na região cervical, dando origem ao fenômeno conhecido como tech neck. A inclinação constante da cabeça altera a firmeza do pescoço e acelera o envelhecimento precoce do tecido cutâneo.

“A pele do pescoço é muito fina. Bem mais fina que a pele da face, por exemplo, e possui muito menos glândulas sebáceas. E, por isso, mais vulnerável à desidratação e à perda de elasticidade," diz a dermatologista Paola Pomerantzeff, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

“Ela também é comumente negligenciada pela skincare e proteção solar. E, agora, que ela fica ‘dobrada’ constantemente pelo uso do celular, pode ocorrer o aparecimento precoce de linhas horizontais (rugas estáticas), aumento da flacidez e papada. A flexão constante do pescoço cria dobras na pele do pescoço, que pela repetição, se tornam linhas permanentes. A pele fina com a flexão constante leva a quebra de fibras de colágeno e diminuição da elastina. Com isso aumenta a flacidez local.”

Para prevenir esses efeitos, a especialista recomenda manter o dispositivo na altura dos olhos, aplicar fotoproteção adequada e recorrer, quando necessário, a tratamentos de consultório como ultrassom microfocado, bioestimuladores e skinboosters para restaurar a densidade do colágeno. Além do fator mecânico, a exposição à radiação emitida pelas telas atua como um agente oxidante.

A dermatologista alerta para os riscos da iluminação dos dispositivos e da falta de higienização: “A luz azul, ou luz visível, emitida pelas telas de celulares, computadores e tablets, penetra na pele e produz radicais livres que causam stress oxidativo e acelera o envelhecimento cutâneo, a degradação do colágeno e da elastina. Além disso, a luz azul pode causar ou piorar manchas”. Ela conta que o que protege a nossa pele da luz azul (luz visível) é a “cor de base”. Portanto, o ideal é usar protetor com cor. E tem mais: a tela costuma estar suja e o contato direto com a pele pode piorar condições como acne e sensibilidade.

Paralelamente às alterações cutâneas, o sistema visual é submetido a uma exigência contínua devido à proximidade das telas. Embora o aumento global da miopia em idades jovens seja frequentemente associado à sua luz, evidências científicas recentes demonstram que o fator determinante reside no comportamento e no ambiente. “Hoje em dia, acredita-se que o impacto da luz azul que vem das telas de celular e tablets para os olhos é muito menor do que se pensava alguns anos atrás", diz o oftalmologista Rubens Belfort. 

“Até teve um movimento da indústria de deixar as telas do celular com filtro azul à noite – a tela do iPhone e do Samsung ficavam amarelinhas à noite para proteger os olhos. Também acreditava-se na importância de ter nas lentes dos óculos um filtro que bloqueasse a luz azul. E hoje em dia os trabalhos científicos mais modernos sugerem que apesar de, em laboratório, a luz azul ser danosa para os olhos, na vida real, aparentemente, esse impacto é muito menor. O problema maior não é a luz da tela, mas a distância de trabalho que a tela fica dos olhos.” Por isso, continua sendo importante para a saúde dos olhos, principalmente a das crianças, praticar atividades ao ar livre.

No que diz respeito aos adultos, o uso intensivo de smartphones não provoca alterações refrativas permanentes ou o surgimento precoce da presbiopia, mas gera desconforto funcional e sintomas de olho seco. “Não tem nenhuma evidência dizendo que o uso do celular afete de forma definitiva a visão, a saúde visual dos adultos. Não tem evidência que faz a presbiopia vir antes ou depois do momento biológico, mas está relacionado, sim, à secura dos olhos, a cansaço visual. Talvez mais relacionado às horas de trabalho, à posição, do que à tela propriamente dita. Você fica olhando no celular, presta atenção, e daí pisca menos, e o olho resseca, e acaba o dia com o olho ressecado e mais cansado.”

O contrapeso? Se no fim do dia seu olho está muito cansado, com sintomas de secura, sensação de areia, vermelho, visão que flutua, o ideal seria fazer pausas durante o dia para olhar para o horizonte. “Tem uma regrinha que os americanos gostam que, a cada 20 minutos, ficar olhando para uma distância maior do que 20 pés, por pelo menos 20 segundos. E é fácil falar, mas muito difícil num ritmo pauleira de trabalho, você se condicionar a cada 20 minutos fazer uma pequena pausa. Vale, sim, maneirar o número de horas de atividade em tela, tentar ter outras atividades no tempo livre que não sejam ligadas ao celular: esporte, atividades sociais. E também as medidas para lubrificar os olhos quando eles estão muito secos.”

O segmento musculoesquelético é talvez o que registra as transformações mais profundas decorrentes do uso diário do smartphone. 

A inclinação da cabeça para olhar para baixo altera radicalmente a distribuição do peso sobre a coluna cervical. Uma cabeça humana adulta pesa cerca de cinco quilos em posição neutra; ao inclinar o pescoço em um ângulo de 60 graus, a carga exercida sobre a musculatura e os discos intervertebrais pode atingir o equivalente a mais de 25 quilos.

“A cabeça pesa em torno de cinco quilos. Quando estamos de pé e olhando pra frente, ela está alinhada sobre o tronco, apoiada no próprio esqueleto. Quando inclinamos a cabeça para a tela, deixa de estar apoiada e passa a ser segurada pela musculatura da nuca, que entra em contração contínua e fica assim o tempo inteiro," diz Fábio de França Urquiza, ortopedista e cirurgião de mão. “Músculo foi feito para contrair e relaxar, não para sustentar continuamente. Daí vem a fadiga e aquela dor difusa no pescoço e nos ombros, que é a queixa mais comum de todas.”

O vilão não é o ângulo que o pescoço, é o tempo parado nele. Quem se movimenta ao longo do dia tolera bem olhar para baixo. “Por isso eu costumo dizer que a melhor postura é sempre a próxima," diz ele.

Paralelamente aos problemas cervicais, o manuseio repetitivo dos dispositivos tem gerado lesões de sobrecarga nos membros superiores, tais como a tenossinovite de De Quervain — popularmente chamada de "whatsappite" —, o dedo em gatilho e a compressão nervosa.

“Quando me perguntam se a redução da força de preensão que observamos hoje vem do celular ou do sedentarismo, eu respondo sem hesitar: vem do sedentarismo. A força de preensão cai porque a pessoa deixou de usar mais o próprio corpo. O aparelho foi concentrando dentro da tela o trabalho, o lazer, a convivência, a compra do mercado, o banco. As pessoas resolvem a vida inteira sentadas no sofá. É uma cadeia de eventos: o celular ocupa o tempo, o tempo parado se converte em sedentarismo, e o sedentarismo é o que derruba a força," diz Fábio.

O que move o ponteiro da força de preensão – a capacidade de gerar força muscular com os dedos, as mãos e os punhos para segurar ou apertar um objeto – é treino de força para o corpo todo, pelo menos duas a três vezes por semana, e usar mais o corpo na vida real.

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