Quer entrar no icônico clube Berghain, em Berlim? Pergunte-me como
BERLIN, GERMANY - SEPTEMBER 30: The main entrance door at Berghain club stands closed at night during the coronavirus pandemic on September 30, 2020 in Berlin, Germany. Clubs in Berlin are still closed for indoor reveling as part of measures against the coronavirus. While some, like Berghain, have opened outdoor areas and introduced other means of creating income, all are struggling financially during the pandemic. Across Europe, governments are reining in nightlife with policies that range from curfews to outright closures, hoping to curb Covid-19 with a more targeted approach than the blanket lockdowns of the spring. During the recent surge of Covid-19 cases, people between the ages of 15 and 49 account for about 80% of those testing positive, according to the European Center for Disease Prevention and Control. Bars and clubs, with their young demographics, close quarters, and flowing alcohol, are seen as ripe environments for spreading coronavirus. Even when allowed to remain open, main venue owners have struggled to remain viable, with curfews and occupancy limits making deep cuts into their revenues. (Photo by Sean Gallup/Getty Images)

Quer entrar no icônico clube Berghain, em Berlim? Pergunte-me como

O que acontece no clube noturno que inspirou Rosalía e Harry Styles costuma ficar entre quatro paredes. Mas muito mais que uma noitada de drogas e dias virados na pista, a igreja do techno é sobre boa música e boa companhia

São onze da manhã de um feriado em uma segunda-feira. Em Berlim, faz sol e a rua está cheia de pessoas correndo ou passeando com seus filhos. Eu, totalmente vestida de preto com uma legging de napa, bota pesada, casaco de couro e óculos escuros, faço parte de um outro grupo de berlinenses: aqueles que, a essa hora da manhã, rumam para os clubes de música eletrônica mais concorridos da cidade — no meu caso, o Berghain, clube mais icônico (e restrito!) do mundo e um patrimônio cultural da cidade. Muitas pessoas viajam para a capital da Alemanha só para conhecer o lugar, mas nem todas conseguem. Minha missão: não ser barrada na porta da balada conhecida pela política de entrada restrita.

O lugar foi inspiração de Rosalía para a música “Berghain”, lançada em 2025, e para o último álbum do popstar Harry Styles, fotografado várias vezes na porta do prédio industrial a leste da capital. Mas curtir uma noitada no clube realmente não é para qualquer um: na porta, eles podem simplesmente olhar para a sua cara e dizer: “heute, leider nichts” (hoje, infelizmente não) — e você, infelizmente, tem que aceitar. Centenas de pessoas tentam e falham todos os dias: no TikTok há milhares de vídeos com dicas de como se vestir e se portar para não ser barrado. Algumas delas incluem não rir, não ir em grandes grupos e se vestir inteiramente de preto. Como alguém que mora há 12 anos na cidade, acrescento uma: é bom fazer cara de arrogante e antipático. Ser rico ou famoso não faz diferença. Uma das maiores lendas do clube é que Elon Musk teria sido barrado em 2022.

Sven Marquardt, com sua cara de mau, tatuagens no corpo todo e piercings no rosto, é o door mais famoso do lugar e virou ícone de moda, com lugar garantido na primeira fila dos desfiles da Semana de Moda de Paris. Foi ele quem abriu a porta para mim na primeira vez em que vim a Berlim e fui conhecer o lugar, há 16 anos. Naquela noite não fui barrada, mas esperei por duas horas em uma fila. Na minha segunda visita, há sete anos, esperei três horas do lado de fora em um frio abaixo de zero com um amigo brasileiro queria conhecer muito o clube. Não fui barrada, mas fiquei tão irritada com a espera que, na hora em que vi que meu amigo entraria (minha cara de “odeio estar aqui” fez o door perguntar quem estava comigo como se eu fosse uma celebridade da cena techno), voltei para casa tranquila. Fica a dica: quanto mais você aparentar que não quer entrar, mais chances você tem.

Essa terceira visita é diferente. O Berghain nunca foi tão famoso e a concorrência nunca foi tão grande. Os jovens da geração Z são obcecados por entrar no clube, que cobra em torno de  € pela entrada. Minha amiga Gabi Furst, que me acompanha na missão desta vez, é frequentadora do clube e me avisa que, se a gente não quiser ficar seis horas na fila, é bom que a gente vá cedo, pela manhã mesmo. Esse horário é esquisto, mas o Berghain fica aberto, em geral, de sexta a domingo (ou até terça, se for feriado) em regime non stop. E há quem passe 48 ou até 72 horas dentro do clube.

Quando chego, na manhã daquela segunda, a fila é pequena, mas já com grupos e casais sendo barrados. Jovens passam com plataformas altíssimas, super montadas, e entram. Quando minha amiga chega, entramos na fila totalmente mudas, fingindo que não somos brasileiras falantes e empolgadas. Os dois grupos que estão na nossa frente são barrados e vão embora de cabeça baixa.

Na minha vez, olho com cara séria por baixo dos óculos escuros para o sujeito da porta e não falo uma palavra. E rapidamente ele fala a frase mágica: “du kommt rein” (você entra), levantando o fio que separa a entrada da fila para a gente. Alívio, sensação de vitória. Entrando, somos levadas para uma sala onde somos revistadas (o sujeito é muito respeitoso e pergunta se pode ou não encostar em mim) e nossos celulares são adesivados. “Você já veio aqui antes?”, ele pergunta. Digo que sim e ele então apenas pega meu celular e cola adesivos fluorescentes em todas as câmeras. O aviso que ele daria se eu nunca tivesse ido lá seria: “se você tirar um desses adesivos e fizer uma foto, você será retirada e nunca mais vai voltar.”

A proibição das fotos, junto com a política da porta, é um fator que alimenta fortemente a mítica do lugar. O sentimento de FOMO (Fear of Missing Out) é exacerbado. Mas há outros motivos importantes para isso: o lema do clube é ser um espaço livre e seguro. O que significa que vai ter gente pelada na pista, e isso vai ser tratado com total naturalidade. Também vai ter gente usando roupas S&M e meninas de topless, Se fotos fossem permitidas, as pessoas não se sentiriam à vontade para isso. E celebridades como Rosalía e Harry Styles certamente não se sentiriam tão bem ali. 

Igreja techno 

O ambiente que encontro é o mesmo de 16 anos atrás. Mas, de manhã, é muito mais impactante. A pista principal está lotada e o som é pesado, alto e impecável. É muito escuro mas os fachos de luz são perfeitos contra a fumaça dos cigarros. O teto alto e a janela antiga dão mesmo um tom especial. E é por isso que os frequentadores assíduos chamam o lugar de igreja. Subimos em uma espécie de platô na pista e a Gabi fala: “eu me sinto em um carro alegórico, fecha os olhos que você vai ver”.

Faz sentido. A pista está lotada e o ambiente é mesmo hipnotizante. O clube fica em um prédio enorme de uma antiga usina com cinco ambientes e tudo dentro tem aparência industrial, quase improvisada. Você se perde em alguns labirintos. O segundo andar, chamado Panorama Bar, tem mais a ver comigo, uma senhora de mais de 50 anos que não bebe, não usa drogas e hoje quase não vai a clubes. Ali o som é uma house music mais suave, é menos claustrofóbico e até dá para conversar. Minha amiga encontra vários amigos. Alguns deles estão lá há mais de 24 horas. Dentro do Berghain, todo mundo é simpático. A cara de “nojo” fica na porta, o cara do bar sorri e desconhecidos ajudam a comprar cigarro na máquina. Mesmo na fila do banheiro (unissex e caótico) existe algum humor e trocas de sorrisos.

Nos dias mais quentes (caso desta visita), o clube também oferece um jardim, que basicamente consiste em um espaço ao ar livre como um ponto de encontro de vampiros — todos de preto, pálidos e, sim, simpáticos. O Berghain tem também um dark room. Mas este lugar, confesso, não tive coragem de visitar. Depois de três horas de diversão, concluo que para mim já está de bom tamanho. Na porta, o door me dá um tchau simpático, como se tivesse virado outra pessoa. Sorrio de volta e ainda solto um “até mais”.

Se vale a pena passar por todo esse estresse e tempo para entrar em um clube? Sim. Além da qualidade do som e dos grupos de pessoas tão diferentes entre si, me senti segura ali dentro o tempo todo. Se vier a Berlim, tente — você não vai se arrepender. Talvez você ouça um “heute, leider nichts.” Mas é aquilo: “no pain, no gain”.

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