9 aprendizados do Iguatemi Talks Fashion

9 aprendizados do Iguatemi Talks Fashion

Com nomes que transformam a indústria da moda, a 10ª edição do evento abriu novos diálogos sobre criatividade e autenticidade

Entre supermodelos, uma figurinista de série internacional, criadores de conteúdo e diretores criativos, a 10ª edição do Iguatemi Talks Fashion, no Shopping JK Iguatemi, levou ao seu palco assuntos pertinentes para a indústria da moda, como os bastidores da internacionalização de grifes brasileiras, moda circular e a transformação da imagem.

Page9 obviamente não ficaria de fora e listou aqui 9 aprendizados. 

A indústria da moda não pode parar de lutar por representatividade

Entre relatos pessoais e planos para o futuro, Anok Yai, uma das modelos mais relevantes da atualidade, eleita a modelo do ano em 2025 pelo Fashion Awards, revisitou momentos delicados da sua vida, como a cirurgia no coração e nos pulmões para corrigir uma anomalia congênita rara – período em que chegou a acreditar que sua carreira poderia ter chegado ao fim. Falou também sobre crescer nos Estados Unidos como filha de refugiados e sobre enfrentar a xenofobia e o racismo, inclusive pela tonalidade mais escura de sua pele, e o desejo de inspirar a próxima geração de meninas negras.

“Enquanto houver pessoas de cor na indústria lutando contra essas forças negativas, em algum momento vamos ganhar,” disse Anok.

Ter voz própria ainda desafia o mercado da moda

As redes sociais abriram espaço para as modelos mostrarem quem são além da imagem construída para os clientes. Essa liberdade, porém, ainda encontra resistência na indústria. Esse foi um dos pontos discutidos no painel mediado pelo editor do Page9, Vinícius Guidini, com Anderson Baumgartner, fundador da Way Model, e as modelos Shirley Mallmann, Isabeli Fontana e Anabela Santos.

Entre experiências de carreira no exterior, novos idiomas e longos períodos longe de casa, a conversa também passou pelo desafio de expressar a própria personalidade em uma profissão habituada à visão de outras pessoas.

“Sempre vivemos a partir de uma imagem produzida, alinhada àquilo que o cliente queria transmitir. As pessoas nunca souberam como nós, modelos, realmente sentimos ou o que nos incomodava. Meu agente chegou a dizer que eu estava trabalhando menos para algumas marcas porque mostrava muita da minha personalidade,” disse Isabeli Fontana

Preservar um legado exige abrir espaços para novos olhares

A sucessão de uma marca passa por dar espaço para que a próxima geração encontre seu próprio papel. Esse foi um dos aprendizados do painel que reuniu Lenny e Bel Niemeyer, da Lenny Niemeyer, e Patricia e Andrea Viera, da Patricia Viera, grife conhecida pelo trabalho artesanal com couro.

As filhas compartilharam os desafios e as conquistas de trabalhar ao lado de suas mães, enquanto as fundadoras relembraram como acompanharam a formação do repertório das sucessoras. A conversa mostrou como essa troca pode trazer novas perspectivas para o negócio e permitir que cada uma se concentre no que faz melhor.

“É desafiador você ser telespectador do sonho do outro, é uma responsabilidade. A gente entende que viver a marca é uma intensidade e paixão únicas,” diz Andrea Viera.

Para construir uma marca ter resiliência e olhar próprio é fundamental

Dominar a técnica é apenas parte do caminho para construir uma marca. Em um mercado competitivo, preservar uma visão própria e ter disposição para persistir também fazem a diferença. 

Cris Barros, Natalie Klein, fundadora da NK Store, Julia Arcangeli, da J’01 Studio, e Gabriela Helito, da Le Shay, trocaram experiências sobre os desafios de empreender na moda e a importância de acompanhar os movimentos do setor sem perder a identidade.

Para Cris, esse compromisso começa no envolvimento pessoal com o trabalho: “É tudo sobre resiliência e paixão. O mercado de trabalho é muito competitivo. Se você não tem o envolvimento que vem de dentro de você, não vai dar certo.”

Ter mau gosto faz parte de ter autenticidade

A busca pela perfeição pode atrapalhar a construção de um estilo próprio. Para Marylin Fitoussi, figurinista da série Emily in Paris, ter “a little of bad taste”, como a francesa diz, faz parte de descobrir como se expressar pela roupa.

Responsável pelos looks coloridos e maximalistas da série da Netflix, Marylin conversou com a editora-chefe do Page9, Paula Merlo, e defendeu a liberdade de ousar: “Eu adoro o excesso. É justamente nesse exagero que as pessoas conseguem expressar quem são. A vida é curta demais para usar roupa sem graça,” diz a figurinista.

Repertório criativo é composto fora do horário de trabalho

A rotina, a arquitetura e a relação com a natureza ajudam a construir uma identidade criativa. Luiz Eduardo Rocha, da Zerezes, André Namitala, da Handred, e Chica Capeto discutiram como viver no Rio de Janeiro influencia escolhas e criações.

A conversa apontou para a moda brasileira que traduz as experiências de quem cria, com mais profundidade e menos estereótipos. Nesse processo, os momentos fora do trabalho também alimentam o repertório.

“Você começa o dia, vai trabalhar, depois pode dar um mergulho na praia, dar um mergulho na cachoeira. Eu sinto que isso te deixa mais criativo e sem uma pressão do criar,” diz Chica Capeto.

Comunidade se cria fora da fila A

Não é preciso estar na lista de convidados para fazer parte da conversa. Ao criar as Watch Parties, encontros para assistir a desfiles, o criador de conteúdo francês e comentarista de moda Lyas mostrou como o interesse pelas passarelas pode se transformar em uma experiência coletiva.

Lyas contou que a ideia nasceu da frustração de não ter sido convidado para um desfile da Dior. A resposta foi reunir outras pessoas para assistir à apresentação – iniciativa que ganhou dimensão internacional e espaço nas semanas de moda.

Ganhar o mundo exige preservar a própria identidade

Conhecer um novo mercado sem perder o que torna uma marca singular: esse foi um dos aprendizados da conversa entre Pedro Andrade, fundador da Piet, e Maria Fernanda Albuquerque, CMO da Havaianas.

Pedro compartilhou os entraves logísticos e culturais de uma expansão construída por tentativa e erro. “Parto do princípio de que, para entrar na casa de alguém, você precisa conhecer essa pessoa,” diz.

Esse conhecimento, porém, não deve descaracterizar a marca. Para Maria Fernanda, a criatividade, a diversidade e o olhar brasileiro são justamente diferenciais valorizados no exterior. As equipes locais ajudam a entender o consumo, mas a identidade precisa ser preservada: “O que é essencial, a verdade da marca, é inegociável para a gente.”

Para ampliar repertório, é preciso sair do familiar

Viajar pode render pouco repertório quando se procura apenas o que já se conhece. O diretor de arte Ramdane Touhami observou como as mesmas marcas e referências se repetem pelo mundo, apagando as particularidades dos destinos.

“Precisamos ir a Paris porque Paris se parece com Paris, a Londres porque Londres se parece com Londres. Cada cidade precisa preservar aquilo que a torna única,” diz.

Para quem viaja, fica o convite: conhecer os criadores locais, os espaços e os costumes pode ser mais revelador do que repetir os endereços de sempre.

Siga o Page9 no Instagram — e assine a newsletter