O speakeasy mais bem temperado de Salvador

O speakeasy mais bem temperado de Salvador

Confundido com uma boate de swing, o Purgatório, traz drinques autorais e provocadores, com ingredientes como azeite de dendê, licuri e mel de cacau

Salvador é New Orleans. New Orleans é Salvador. Embora distantes, as cidades são gêmeas de alma. Os pontos de conexão espalham-se por diversas áreas, como na religião, na música, na arquitetura e na gastronomia.

Mas, para o match ser completo, ainda faltava um detalhe...

New Orleans, em Louisiana, é o berço da coquetelaria americana. Por lá, nasceram clássicos fundamentais para o desenvolvimento da “arte líquida”, como o Sazerac, Vieux Carré, Ramos Gin Fizz, Brandy Crusta e o Hurricane. Assim como o jazz, a agitação das coqueteleiras marca o ritmo da cidade — que ainda conta com um museu dedicado à história dos drinques e um renomado festival anual que reúne a nata do setor, o Tales of the Cocktail.

É exatamente o fator “coquetelaria” que ainda separava Salvador de sua irmã de alma. Mas isso vem mudando...

Há quatro anos, nascia o primeiro speakeasy baiano, o Purgatório. Escondido nos fundos de uma hamburgueria (Red Burger), o bar nasceu de uma parceria entre os sócios Jonatan Albuquerque, Pedro Magalhães, Iryna Pudusovska e Edno Alves.

A casa tem inspiração na Divina Comédia, obra de Dante Alighieri. O clássico da literatura, que apresenta uma jornada espiritual dividida em Inferno, Purgatório e Paraíso, está presente nas obras que decoram o ambiente, na luz baixa que envolve os clientes, no vermelho do balcão e até no menu de drinques. “Escolhemos o Purgatório justamente por ser algo intermediário entre o céu e o inferno,” conta o sócio e diretor criativo da casa, Jonatan Albuquerque.

Na abertura, o bar sofreu a pressão de grupos religiosos que consideraram o nome do empreendimento uma heresia e chegaram a inundar as redes sociais da casa com impropérios e ameaças. Outro grupo que fez confusão durante os primeiros meses do Purgatório foi o formado por casais adeptos do swing.

Sim! Como o conceito de speakeasy ainda não era muito difundido na Bahia, os entusiastas do swing calcularam que um lugar escondido, escuro e em que o acesso estava limitado a conhecidos só poderia ser um clube privê.

Não foi fácil, mas o Purgatório impôs-se aos preconceitos religiosos e à interpretação engraçada (mas equivocada) do seu propósito. Hoje, a casa tem lotação máxima quase todos os dias e começa a ser descoberta pela cena nacional e internacional da coquetelaria. O bar já figura, pelo segundo ano consecutivo, no prestigiado ranking internacional Top 500 Bars, ocupando a 476a posição.

Confia na Bahia

As cartas do Purgatório já têm uma tradição conceitual. Na estreia, o bar apresentou nove drinques autorais inspirados nos sete pecados capitais. No segundo menu, a carta encarou os 12 Arquétipos de Jung, propondo uma experiência de autodescoberta. Na última temporada, o bar inspirou-se na Divina Comédia, mais especificamente no livro Paraíso.

Agora, o tema que norteia a carta é o provocador e simpático “Confia na Bahia.” A proposta é transformar referências culturais, ingredientes e memórias do território baiano e nordestino em experiências líquidas. A carta é estruturada como uma narrativa dividida em três atos: Sagrado, Profano e Baiano, cada um com quatro coquetéis autorais.

“Um desafio foi decidir o que é sagrado e o que é profano. Essas coisas misturam-se na cultura baiana”, fala Jonatan. Além disso, nesta nova fase, o Purgatório entendeu que precisava “cantar” o seu próprio chão para se tornar universal. Por isso, ingredientes como azeite de dendê, licuri, mel de cacau, manga, seriguela, beribéri e outros estão presentes nos coquetéis.

Outro detalhe importante, e que se repete desde a primeira carta, é que a descrição dos drinques não especifica as bebidas usadas — apenas conceitualiza o coquetel e oferece o perfil de sabor. “Como a cultura de coquetel ainda é nova por aqui, algumas bebidas chegavam a assustar ou afastar os clientes. Então, para provocar a experimentação, nós não indicamos as bebidas-base no menu,” conta Jonatan.

No setor dos Sagrados, é possível encontrar drinques com referências ao candomblé, como o refrescante “Banho de Folhas e o Obaluaê” (que tem a pipoca como elemento fundamental). Mas o destaque neste setor é o “Acarajé Tem o Dendê” — o drinque que tem o sabor e o aroma de um acarajé.

Entre os Profanos, destaque para o “Carnaval” — um milk punch interessante com uma leve defumação. Já entre os Baianos, dois grandes coquetéis: o “Café Elétrico” — que leva um licor de café transparente e guarda alguma salinidade — e “O Baiano Tem o Molho”, um coquetel com um apimentado agradável. A casa ainda executa todos os clássicos imagináveis.

Vocação para New Orleans

Para os sócios do Purgatório, o que falta para a cena de Salvador explodir e a cidade se transformar na New Orleans brasileira é a chegada de novos bares. “A concorrência vai acender a cena, formar mais público e elevar o nível geral da cidade. Tudo isso somado ao turismo natural... Salvador tem muito a oferecer para quem quer beber com qualidade,” diz Jonatan.

Em breve, o Purgatório vai ganhar um “puxadinho”. Na verdade, um Limbo. A ideia é que esse Limbo seja um espaço extra, conectado com o próprio Purgatório. Também vai ter um horário mais estendido — funcionando até 3h, 4h da manhã para atender os notívagos e inimigos da saideira. 

Purgatório abre de quarta a sábado (na alta estação, de terça a sábado). As reservas são altamente recomendadas e podem ser feitas pelo site.

Rua Alexandre Herculano, 45 – Pituba (ao lado da Red Burger).

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