Por que o mezcal não pode ser vendido no Brasil?
Mexican mezcal or mescal shot with chili pepper and slice of orange. Typical alcohol beverage made from all types of agave unlike tequila in mexico
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Por que o mezcal não pode ser vendido no Brasil?

É possível encontrar mezcal em bares, lojas especializadas e free shops ao redor de quase todo planeta. Menos aqui. Gilberto Amendola conta o motivo

“O mezcal não te embebeda, põe-te mágico.”

A mistificação ao redor do mezcal é a responsável por produzir pérolas como essa afirmação acima. 

Poucos destilados têm uma aura ou um — com o perdão da má palavra — storytelling tão potente e sedutor. Você pode escolher o capítulo mais imaginativo: das lendas que imputam uma origem divina à bebida até o marketing old school de uma minhoca (gusano) guardada no fundo da garrafa.

Mas, para além dos aspectos “românticos”, o mezcal pode ser definido de maneira simples: trata-se de um destilado mexicano feito a partir do cozimento e da fermentação do agave, uma planta nativa do México. Ele tem no “defumado” seu perfil sensorial mais reconhecível, mas também pode ser terroso, herbáceo, mineral, entre outros. A bebida pode ser encontrada com teor alcoólico bastante abrangente, variando de 40% a 55%. E, não, mezcal não é tequila. 

“O mezcal é um produto com uma longa história, enraizada nos povos indígenas e comunidades rurais, e que agora se consolida como um produto global de alta qualidade, representando a diversidade e a riqueza cultural e regional do país. Este destilado de agave faz parte das tradições ancestrais e incorpora a identidade das comunidades produtoras,” disse a cônsul-geral do México em São Paulo, Claudia Velasco.

De acordo com dados do Conselho Mexicano de Regulamentação da Qualidade do Mezcal (Comercam), órgão responsável pela regulamentação do setor, a produção total de mezcal atingiu 11.362.436 litros em 2024 – sendo que 72% da produção foi exportada para outros países. 

É possível encontrar mezcal em bares, lojas especializadas e free shops ao redor de quase todo o planeta; cidades tão distantes e diferentes como Hong Kong e Atenas possuem bares especializados na bebida; centenas de coquetéis foram inventados ou reimaginados a partir dele... 

Não é exagero dizer que o mundo se rendeu ao mezcal.

Menos a gente... Aqui, não!

Quem quiser “sentir-se mágico” em território nacional vai precisar trazer garrafas escondidas na bagagem, conhecer algum amigo que não se importe em trazê-las, ser íntimo de algum bartender bem abastecido ou ter a sorte de participar de encontros promovidos pelo consulado mexicano – que, sem fins lucrativos, traz o mezcal nas chamadas “malas diplomáticas”. 

Mas qual seria o motivo de o mezcal não ser comercializado por aqui?

Vamos dar uns passinhos para trás, pegar una copita e tentar entender o que acontece aqui. Quem explica é a Cônsul Geral do México em São Paulo, Claudia Velasco. “Devido à natureza da matéria-prima do mezcal, que consiste em diferentes espécies de agave, o produto final apresenta um teor de metanol naturalmente presente que excede o limite legal estabelecido pela legislação brasileira.”

O metanol 

A palavra metanol não nos traz boas lembranças, não é?

No ano passado, um surto de contaminação por metanol em bebidas alcoólicas no Brasil causou ao menos cinco mortes confirmadas e dezenas de intoxicados em São Paulo e outros estados. Os casos causaram um impacto gigante no setor – e derrubou o movimento dos bares em até 90%.

O metanol, portanto, transformou-se em um tabu – um assunto que a indústria de bebidas, as entidades do setor e a própria imprensa trataram com muita timidez. 

No meio do surto, faltou explicar ao público que o metanol surge naturalmente durante o processo de destilação – e que, consequentemente, ele está presente em quase todas as bebidas destiladas. Em quantidades mínimas, ele é inofensivo e até esperado.

O padrão brasileiro aplicável, de acordo com a nossa legislação, é de 20 miligramas por 100 mililitros de álcool puro. No caso do mezcal, esse teor varia de 30 a 300 miligramas.

Ah, ok, então nada que exceda o padrão brasileiro em relação à presença de metanol pode ser comercializado no Brasil, certo? Errado.

Na tequila, o teor de metanol também pode variar de 30 a 300 miligramas por 100 mililitros de álcool puro. E não faltam tequilas em nossos bares e lojas especializadas. 

Isso acontece porque, em 2016, após vários anos de negociações, o México e o Brasil assinaram um acordo para o reconhecimento mútuo da tequila mexicana e da cachaça brasileira como indicações geográficas e produtos distintivos de cada país. Entre outras coisas, o Brasil concordou em aplicar as normas mexicanas referentes aos ingredientes e limites para a produção de tequila. 

Embora sejam bebidas semelhantes (e o padrão técnico seja praticamente o mesmo), esse acordo não se aplicou ao mezcal. 

Desta forma, o Brasil ainda não possui uma categoria oficial para mezcal na Tabela de Incidência do IPI (documento da Receita Federal que lista todos os produtos industrializados e define a alíquota do imposto que deve ser paga sobre cada um). Isso significa que não existe base legal para importar e registrar um produto no País com esse nome. 

Se você encontrar uma garrafa legal por aqui, saiba que ela entrou no País com a classificação genérica de “aguardente de agave” ou “destilado alcoólico”. Isso, óbvio, prejudica a transparência, o controle de qualidade e gera insegurança jurídica para quem deseja importá-la.

Tem solução?

O governo mexicano tem se mexido no sentido de abrir o mercado brasileiro. “A embaixada do México no Brasil realizou diversas reuniões para analisar possíveis soluções para a questão regulatória. A melhor opção seria negociar um acordo semelhante ao firmado com a tequila, para que o Brasil reconheça e aceite a Indicação Geográfica do mezcal como um produto mexicano distintivo. Isso permitiria a exportação e a comercialização do mezcal no Brasil sob as mesmas regras vigentes no México,” disse a cônsul-geral.

“Existem outras opções técnicas para adaptar a legislação brasileira e permitir a exportação e a comercialização do mezcal, mas acreditamos que sejam menos vantajosas e possam levar ainda mais tempo. Esperamos iniciar em breve as negociações formais com o governo brasileiro para que o processo de reconhecimento do mezcal possa ser iniciado,” completou. O Ministério da Agricultura e Pecuária e a Anvisa foram procurados pela reportagem, mas não responderam aos questionamentos. 

O produtor mexicano do mezcal Alpha Centaury, Demetrio Hernández acredita que o mezcal “acontecerá” no Brasil, mas admite que existam desafios: “Na nossa perspectiva, não é que ‘acontecerá’, é que já está começando a acontecer, embora de forma muito nichada e informal. No entanto, para que se torne uma realidade massiva, enfrentamos quatro grandes desafios: a questão tarifária, a educação do consumidor, a logística e a certificação."

Vinícius Low, diretor de marketing da Campari (marca que distribui o Mezcal Montelobos internacionalmente), diz que a empresa já esteve mais interessada em trazer o produto para o Brasil. “É um produto fantástico. Acho que quem realizar esse movimento primeiro (de importação) vai nadar de braçada, mas a gente resolveu esperar,” disse Low.

O passo para trás tem justificativa. O fato do mezcal não ser uma categoria registrada e formalizada no Brasil e toda a burocracia envolvida em uma possível liberação é uma barreira importante, mas a questão do teor de metanol é aquela que grita mais alto. “Existe na formulação do mezcal determinados níveis de metanol que ultrapassam o permitido pela Anvisa no Brasil. Depois de tudo o que aconteceu no surto de intoxicações, mesmo sabendo da segurança do produto, comunicar o mezcal é um desafio. Trazer um produto com essa mística do metanol por trás é muito difícil,” afirmou Low.

Memória afetiva

O chef e proprietário do restaurante Metzi e da Taqueria Atzi, Eduardo Ortiz, conecta-se ao mezcal de uma maneira emotiva: “É muito mais do que uma bebida. Eu cresci no México vendo o mezcal fazer parte da minha cultura. Eu era criança e lembro das festas que minha família fazia – em que sempre o mezcal estava envolvido. Ele carrega as histórias de muitas comunidades e é fruto de um conhecimento que passou de geração para geração,” disse Ortiz. 

Para o chef, trazer o mezcal para o Brasil “abriria um universo novo de sabores e experiências”. “Para os bares, o mezcal é versátil e permite criar coquetéis complexos com notas defumadas, minerais, herbais, cítricas e terrosas que nenhum outro destilado tem. Para restaurantes, especialmente para quem trabalha com cozinha latino-americana, o mezcal criaria harmonizações incríveis. Cozinhar com mezcal é muito interessante, lembro que quando estávamos no México, fazíamos uns camarões ao mezcal e era de uma profundidade que não consigo descrever.”

O bartender mexicano Allen Suarez, que atua no bar Matiz, também diz sentir falta do produto: “Eu sinto bastante falta. Não apenas no sentido pessoal, mas também pensando na evolução da coquetelaria no Brasil. O mezcal é um destilado com diferentes notas e sabores que, combinado à enorme diversidade de ingredientes locais usados nos bares hoje em dia, poderia abrir um campo muito interessante de novas combinações. No meu trabalho, particularmente, sinto que ele me permitiria elevar ainda mais a experiência no bar,” disse. 

Suarez acredita que o mezcal puro talvez não seja imediatamente do gosto de todo consumidor brasileiro. “Muitas vezes faltam algumas explicações importantes, como o fato de que nem todos os mezcais são defumados e de que existem muitas variedades e estilos diferentes. Mas, com um pouco de pesquisa e introduzindo o destilado através de alguns novos clássicos — como Naked and Famous, Oaxaca Old Fashioned ou até uma Margarita com mezcal, o público pode começar a apreciar melhor o perfil do destilado,” disse.

“Depois disso, é possível explorar combinações com ingredientes brasileiros, e as possibilidades são enormes. Basta pensar nos sabores que já temos nos bares hoje: caju, cambuci, acerola, jabuticaba, cupuaçu. Misturar essa diversidade com a complexidade do mezcal pode ser um mar de novos sabores,” completou.

Suarez acredita que o mezcal não pode ser interpretado apenas como um destilado “muito defumado,” quase como se fosse um uísque turfado. Para ele, a bebida está mais próxima da lógica do vinho. “É um produto cheio de complexidade, com variedades, terroirs e estilos de produção que geram perfis muito distintos. Acredito que o mezcal teria espaço não apenas nos bares de coquetelaria, mas também dentro da cena gastronômica.”

Já Caio Alciati, chef e sócio do LosDos Cantina e do LosDos Taqueria, lamenta não ter acesso ao mezcal. “A gente tem uma cantina e uma taqueria. Faz total sentido trabalhar com mezcal. Teria um supervalor agregado e tudo mais. Felizmente, eu ganho muito – e indo para o México é sempre um produto a ser comprado.”

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