
Uísque embalado ao som de Metallica: uma questão de marketing ou sabor?
A maneira como o uísque é envelhecido é o grande responsável pelo seu sabor. Mas o que acontece quando a bebida passa por situações de maturação extrema, como ser exposta ao som de Metallica ou ao calor intenso?
Nem o uísque tem paz. Em vez de um envelhecimento tranquilo em armazéns de maturação — onde o tempo pode correr macio e as condições de temperatura e umidade são razoavelmente controladas —, o destilado tem sido exposto a situações extremas, exóticas e estressantes. Ou seja, é como se estivéssemos acompanhando uma espécie de reality show do uísque.
Veja o caso da destilaria israelense Milk & Honey (M&H), responsável por envelhecer seus uísques às margens do Mar Morto. Por lá, os barris são expostos ao calor extremo (algo em torno de 50 ºC) e, consequentemente, evaporam mais depressa, acelerando seu envelhecimento. O resultado é uma bebida com sabores intensos (encontrada por valores que variam entre 115 e 135 euros).
Já o uísque argentino Isla Marambio, da destilaria La Alazana, vai para o outro extremo. Nesse caso, o uísque passa seus primeiros cinco anos de vida em barris de carvalho guardados na Patagônia. Depois, ele se muda para a Base Marambio, uma estação científica da Argentina localizada na Antártida, onde envelhece em barris de bourbon em temperaturas que podem bater os -35 ºC. Com a maturação desacelerada, o resultado é uma bebida mais floral e mineral. Esse uísque ainda não está precificado, ele chega ao mercado global ainda em 2026.
O fundador da Escola do Whisky, Pedro Menezes, tem sentimentos conflitantes em relação a esse tipo de abordagem exótica. “Acho que a experimentação é superlegal, mas muitas vezes a estratégia de marketing ultrapassa a efetividade das experiências. Sou a favor, mas precisa haver um objetivo claro. Não é só colocar algo bizarro no rótulo e esperar que as pessoas bebam uma vez para nunca mais,” disse.
“A gente olha para o uísque com 40%, 50% e 60% de teor alcoólico e se esquece de que esse é um destilado delicado. Uma maturação extremamente potente pode alterá-lo de forma primordial. Desse jeito, você mata a característica do destilado de grãos — que é mais sensível do que o de uva, cana e outros.”
No alto-mar ou ouvindo Metallica
No mundo dos bourbons (uísque americano), a bebida pode não estar envelhecendo no calor escaldante ou no frio mais desafiador, mas em movimento. No caso da destilaria Jefferson’s Bourbon, os barris passam mais de seis meses a bordo de navios, parando em diversos portos e continentes e cruzando o Equador duas vezes. O Jefferson’s Ocean costuma sair por algo em torno de 65 e 90 dólares.
Outra iniciativa ousada é a de expor barris de uísque à música. Nesse caso, mais especificamente a uma playlist do Metallica. O Blackened American Whiskey passa por um processo batizado de Black Noise. As ondas sonoras agitam o líquido dentro do barril, fazendo-o penetrar mais profundamente nos poros da madeira e extraindo mais sabor. Nas garrafas do Blackened, um QR Code leva o consumidor até a música do Metallica que agitou o barril. O uísque da banda pode ser encontrado no mercado americano por algo em torno de 40 a 55 dólares.
Além do som do Metallica, algumas destilarias estão envelhecendo seus uísques ao som de música clássica.
“Não tenho certeza de que tudo isso seja perceptível para o consumidor final,” alerta Maurício Porto, especialista em uísque e sócio do Caledonia Whisky & Co. “Envelhecer com música ou sem vai trazer pouca diferença. Já no caso do envelhecimento em alto-mar, o movimento do navio pode ajudar na parte da extração de sabor, com o líquido entrando mais em contato com a madeira. Além disso, as diferenças de temperatura durante a viagem podem, sim, alterar o resultado,” completa.

Rafael Nardi, sócio da Lunatic Asylum Spirits, diz-se “cético”. “Eu sou cético com quase tudo. Para mim, fica mais na linha da estratégia de marketing mesmo.” Ainda assim, Nardi pondera: “Quando o marketing se junta a uma questão histórica, por mim, tudo bem. O uísque envelhecido em alto-mar pela Jefferson’s tem uma questão histórica relacionada ao envelhecimento de bebidas durante longas viagens marítimas,” comenta.

O Master Distiller da Jack Daniel’s, Chris Fletcher, esteve no Brasil no início de março para o lançamento da Bonded Series. Na ocasião, ele foi questionado sobre a moda dos envelhecimentos exóticos. “Penso que existe muita inovação técnica com pouco impacto no uísque. Um dia me perguntaram o que aconteceria se eu colocasse um barril de bourbon em um foguete para envelhecê-lo na Lua. Eu respondi que nada aconteceria. É tudo apenas sobre química,” disse Fletcher.

E o barril... de peixe?
O envelhecimento em barris é o grande responsável pelo sabor do uísque. Neste processo, a madeira mais comum é o carvalho. O bourbon, por exemplo, usa esse barril ainda virgem (primeiro uso). Depois, ele é revendido para outros mercados, como o escocês, que pode usá-lo várias vezes. Na Europa, o envelhecimento em barris de Jerez também é bastante popular.
Ultimamente, destilarias têm procurado novos sabores usando barris que já estiveram em contato com rum (ou outros destilados), vermutes ou até aqueles construídos com madeiras brasileiras — como a amburana.
Mas as experimentações, às vezes, passam de certos limites. Foi o que aconteceu com um uísque lançado em 2007, que os reviews de consumidores e especialistas costumam classificar como “um experimento desastroso” e “o uísque mais bizarro do mundo”. Trata-se do Fishky, que utilizava um barril que anteriormente tinha sido usado para o transporte e guarda de peixe. Hoje, o Fishky é uma peça de colecionador e só pode ser comprado em leilões — por valores que já chegaram a 300 euros.
“Historicamente, o envelhecimento acontecia na madeira disponível. Já provei o de vermute, o de peixe, mas sou da opinião de que nada supera um bom barril de carvalho (de reúso, de segundo ou terceiro uso). Ele é quem dá espaço para o destilado brilhar,” fala Menezes.
E no Brasil?
A Union Distillery, na Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul, é reconhecida pela produção de uísque. O padrão por lá é o tradicional envelhecimento em barris de carvalho americano acondicionados em armazém.
Mas a Union tem feito uma interessante experiência: alguns barris estão envelhecendo ao relento, fora dos armazéns. “No armazém fechado, a gente tem o controle do clima e da umidade e controla os fatores que interferem no resultado. Agora, os barris que estão ao ar livre estão expostos ao verão muito quente e ao inverno rigoroso e úmido da Serra Gaúcha,” disse o diretor-executivo da Union, Luciano Borsato.

“São cinco barris que estão há cinco anos nestas condições. Estão em constante troca com a natureza. Alguns especialistas já provaram e apontaram diferenças sensíveis em relação aos barris envelhecidos em armazém. Mas ainda estamos na fase de avaliações técnicas e análise de qualidade. Vamos fazer medições, análises químicas... e, a partir daí, entender o que aconteceu e decidir o que fazer com esse uísque,” completa Borsato.
E o futuro?
Sim, o céu é o limite no mundo do uísque, mas...
De acordo com o fundador da Escola do Whisky, Pedro Menezes, a tendência de processos exóticos no envelhecimento do uísque já vive um pequeno arrefecimento.
“Impulsionada pela pandemia da covid-19, essa foi uma tendência muito forte entre 2019 e 2023. Isso porque as pessoas não gastavam mais dinheiro saindo ou viajando e deslocaram recursos para os hobbies que podiam ser alimentados dentro de casa. Sobrou dinheiro, então, para o uísque, o vinho, a cerveja... Neste contexto, as pessoas estavam mais dispostas a experimentar qualquer coisa, a arriscar um produto diferente,” disse.
“Hoje, com menos dinheiro disponível, com as pessoas já viajando e saindo normalmente, a tendência é que o comprador procure uísques mais estabelecidos e tradicionais,” explica.


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