Roberta Sudbrack era a chef do Palácio da Alvorada, quando Junior parou de se alimentar. Acostumada a cozinhar para Presidentes, reis e chefes de Estado, ela não aceitou a ideia de ver seu melhor amigo definhar em silêncio e reagiu como sabia. Vestiu o avental e, orientada pela veterinária Márcia Canavarro, passou a preparar pratos frescos e balanceados diariamente para o cachorro.
A ideia era estimular o apetite do golden retriever e garantir conforto e prazer àquele que a acompanhava havia tantos anos. Já nos primeiros dias, Junior voltou a abanar o rabinho, fazer festa quando ela chegava e babar com o cheiro que vinha do fogão. O ano era 2004.
A atitude, incomum à época, ajuda a explicar uma das transformações mais aceleradas da indústria pet, que deve ultrapassar os R$ 80 bilhões em 2026, consolidando o país entre os maiores mercados do mundo. Segundo dados da Abempet, o segmento encerrou 2025 com faturamento próximo de R$ 78 bilhões.
Embora ainda não existam números oficiais consolidados especificamente para a alimentação natural no Brasil, o segmento aparece como uma das frentes de crescimento mais aceleradas da indústria. Relatórios internacionais projetam crescimento anual próximo de 9% para o mercado global de alimentos naturais e orgânicos para pets até 2033.
O movimento já é percebido em refeições congeladas, regimes personalizados, snacks funcionais, suplementos voltados à longevidade e produtos com “clean label”, sem conservantes artificiais. Hoje, há cães que seguem dietas para alergias específicas, gatos que recebem suplementação voltada à saúde intestinal e pets idosos com cardápio desenhado para envelhecer melhor.
“Tudo o que se faz na medicina e na nutrição humana acaba sendo replicado nos pets,” diz a veterinária Rita Ericson. Expressões antes restritas a consultórios migraram para o universo animal: probióticos, microbiota intestinal, ômega 3, suplementação funcional, proteína limpa, dieta anti-inflamatória, rastreabilidade de ingredientes e personalização nutricional.
Nos últimos anos, até os debates sobre ultraprocessados migraram para esse universo. Ao mesmo tempo em que cresce a procura por refeições e ingredientes frescos, veterinários alertam para improvisações feitas sem acompanhamento profissional.
“Misturar arroz, carne e cenoura não significa necessariamente oferecer uma refeição equilibrada,” diz Rita. “Uma ração super premium pode ser mais completa do que um cardápio mal formulado feito em casa.”
Outra tendência que ganhou força nos últimos anos é a chamada dieta BARF, sigla para Biologically Appropriate Raw Food, baseada em ingredientes crus e inspirada na alimentação ancestral dos cães. Popular entre responsáveis interessados em abordagens menos industrializadas, a prática ainda gera resistência.
“É preciso lembrar que os animais domésticos já vivem completamente fora da lógica selvagem,” diz Rita. Segundo ela, entidades veterinárias internacionais fazem ressalvas ao modelo por conta dos riscos sanitários e da dificuldade de garantir equilíbrio nutricional.
A própria indústria também atravessa uma transformação importante. Se antes o mercado se organizava em torno de poucas grandes categorias, hoje se volta para questões como ansiedade, obesidade, saúde cognitiva, microbiota intestinal, alergias e longevidade..
Veri Noda acompanha essa transformação desde o início. Depois de passar por cozinhas três estrelas como a do El Celler de Can Roca, na Catalunha, ela abandonou a alta gastronomia para abrir, em 2012, a empresa especializada em alimentação natural para cães e gatos La Pet Cuisine, ao lado da irmã veterinária.
“No começo a gente precisava explicar o que era alimentação natural para pets,” diz a chef. “Agora, muita gente já chega perguntando sobre suplementação, proteína, dieta personalizada.”
As refeições produzidas pela empresa variam conforme a raça, porte, doenças e nível de atividade física do animal. Algumas usam proteínas pouco convencionais, como avestruz, para atender cães com alergias. Outras incluem suplementação específica para saúde articular ou intestinal. Tudo congelado, porcionado e entregue em esquema semelhante ao de startups de alimentação saudável humana. A lógica é a mesma das marmitas fitness: conveniência, personalização e promessa de bem-estar.
Segundo levantamento da Kantar, o e-commerce de alimentos para cães e gatos movimentou R$ 670 milhões em 2024, refletindo o avanço de aplicativos, programas de assinatura e compras recorrentes na rotina dos tutores. No mesmo período, as vendas de alimentos secos, úmidos e snacks cresceram 36% em volume.
Tigela funcional
Nem sempre, porém, o que funciona com pessoas vale para os bichos. Rita lembra que cães e gatos têm necessidades fisiológicas muito diferentes das nossas e alerta para o excesso de antropomorfização.
“Cachorro e gato não pensam sobre comida como a gente. Muitas vezes, o responsável projeta no animal as próprias neuroses nutricionais.”
Ao mesmo tempo, reconhece que a preocupação crescente dos tutores trouxe avanços importantes. As linhas super premium ficaram mais sofisticadas, a suplementação evoluiu e hoje existe uma compreensão muito maior sobre nutrição animal, inclusive na indústria tradicional.
“O mercado caminha para uma nutrição muito mais personalizada, funcional e baseada em benefícios concretos para a saúde e qualidade de vida dos pets,” diz Fernando Ferroni, presidente da Royal Canin Brasil.
A tendência aparece especialmente no avanço de alimentos úmidos, linhas veterinárias e produtos desenvolvidos para necessidades específicas, como suporte gastrointestinal, controle de peso, saúde urinária e envelhecimento saudável. Segundo a empresa, a nutrição deixou de ocupar apenas um papel básico de manutenção para se tornar ferramenta importante de prevenção e suporte terapêutico.
“Atualmente, existe um entendimento muito maior sobre como a nutrição influencia diferentes sistemas do organismo, como o digestivo, imunológico, dermatológico e urinário,” diz Priscila Rizelo, médica-veterinária e gerente de comunicação e assuntos científicos da Royal Canin Brasil.
Temas como microbiota intestinal, probióticos e saúde preventiva também ganharam protagonismo nos últimos anos. “A nutrição passou a ocupar um papel central nos casos de distúrbios gastrointestinais, espaço antigamente muito mais associado ao uso de antibióticos,” diz Rizelo.
Nesse balaio, proteínas alternativas também começam a ganhar espaço. Empresas internacionais já desenvolvem snacks e suplementos à base de insetos, especialmente para animais alérgicos. Além da promessa nutricional, a tendência aparece ligada à sustentabilidade e ao aproveitamento integral de ingredientes.
“Duas décadas atrás, cozinhar diariamente para um cachorro parecia loucura", diz Sudbrack. Hoje, o universo pet movimenta bilhões, influencia hábitos de consumo e espelha discussões que dominam a alimentação humana, da microbiota intestinal aos ultraprocessados.











