“Hoje é noite de São João, tanta saudade já não dá pra segurar, meu coração tá queimando feito brasa; ela foi, bateu asas sem dizer se vai voltar”, canta Alceu Valença em noite de São João. Esta comemoração, que ocorre todo dia 24 de junho, é envolta por muitos sentimentos em milhões de corações brasileiros.
Alegria, contemplação e até saudosismo. A data é um vetor econômico e cultural indissociável do país. Uma grande festa popular, cujo epicentro é o povo brasileiro.
Segundo historiadores, a primeira celebração aconteceu aqui por volta do final do século XVI, trazida pelos portugueses. Com o tempo, houve o sincretismo com elementos indígenas e africanos — e até franceses, como nas danças de quadrilha, cujo comando “anarriê” vem de en arrière (“para trás”).
Normalmente, este festejo é associado ao imaginário rural, de cidades do interior. Contudo, atualmente eles se desdobram também em comemorações urbanas. No ano passado, em todo país, estima-se que a festa movimentou cerca de R$ 7,4 bilhões, de acordo com projeções encomendadas pela CNN Brasil.
No Brasil, o epicentro da festa é o Nordeste — e não por acaso. Junho é a época de inverno na região, quando chove e as plantações de milho crescem, tornando-o um período de fartura.
"Quem é do Nordeste nunca precisou de planilha para saber o tamanho do São João. A gente cresceu entendendo que era a data mais importante do ano, e não como festa de interior," ressalta Vinicius Machado, fundador e CEO da Sotaq, empresa de marketing de influência, nascido em Fortaleza.
Para ilustrar a importância da festa para a região, vale a menção a uma entrevista dada por Luiz Gonzaga em 1985, ao antigo jornal GLOBO-Leopoldina. Na ocasião, o Rei do Baião falou sobre como o forró enfrentava barreiras fora do Nordeste.
“O forró representa uma outra cultura que não interessa ao Rio. Os meus discos de ouro, quem me dá é o Nordeste,” declarou Luiz Gonzaga. Muito mudou desde então, mas o Nordeste se mantém como o principal palco da festa.
Para Vinicius, o forró ganhou uma escala ainda maior e está presente o ano todo nos quatro cantos do País. “Hoje ele toca em festa de faculdade em São Paulo, em bar de Curitiba, em casamento no Rio Grande do Sul, e parece que sempre esteve ali. O brasileiro de qualquer canto encontrou nele uma linguagem afetiva que não sabia que já era sua. O forró virou de todo mundo sem deixar de ser do Nordeste," disse.
No Brasil, as origens da festa estão ligadas ao cristianismo e à colonização portuguesa. Porém, segundo os historiadores, a raiz é mais antiga: vem do paganismo, mais especificamente das festividades do solstício de verão na Europa (no mês de junho). Os festejos celebravam os deuses da natureza e fertilidade.
Há registros históricos, anteriores à Idade Média (ou seja, antes de 476 d.C.), de camponeses que montavam fogueiras para pedir proteção e celebrar a colheita farta. Esta é uma prática que foi modificada, e atravessou o tempo e espaço, mas que se mantém evidente no Brasil até hoje.
À medida que o cristianismo se fincou na posição de principal religião da Europa, diversas festas pagãs começaram a ser convertidas, ou cristianizadas. O festejo foi integrado ao calendário de celebrações católicas. Este não foi um caso isolado, mas uma ação estratégica.
A Igreja, para viabilizar a conversão de variados povos, reconfigurou as festas pagãs à sua imagem. Assim, Santo Antônio passou a ser comemorado no dia 13, São João no dia 24 e São Pedro no 29 – todos em junho. Além disso, um formato específico de fogueira foi determinado para cada um. Quadrada para Santo Antônio, redonda para São João e triangular para São Pedro.
Tudo isso se deu antes da primeira nau portuguesa se aproximar do litoral do que viria a ser o Brasil. Quando a colonização foi iniciada, o cristianismo já era a principal religião da Europa e a festa de São João havia sido convertida. Vale lembrar: foi somente por volta do final do século XVI que a celebração começou por aqui.
Em Portugal, a festa era conhecida como “Festa Joanina”, em menção a João Batista, o último dos profetas e precursor de Jesus Cristo. A fogueira tem origem simbólica: conta a tradição que a mãe de João Batista a acendeu para anunciar seu nascimento.
Com o tempo, de festa Joanina foi feito um abrasileiramento para festa Junina, em referência ao mês de junho. Antes, o tom era estritamente religioso. Ainda há conexão com santos e rezas e celebrações nas igrejas, porém, a comemoração tomou a dimensão de grande festa popular que, no caso brasileiro, abarca tanto o sagrado quanto o profano. Entram aqui grandes shows, celebrações que amanhecem o dia.
“São João é a festa mais viva que o Brasil tem. É a única que junta avó e neto na mesma quadrilha, que está na missa e no TikTok ao mesmo tempo, e que troca de roupa todo ano sem nunca perder a alma," completa Vinicius Machado.















