É nos paddocks das grandes provas de automobilismo, como a Fórmula 1, que empresários e executivos costumam se encontrar entre hospitalities climatizados, bons vinhos e refeições sofisticadas – e fechar negócios.
Mas no Rally dos Sertões, que começa neste domingo, a poeira – e o perrengue – podem se transformar num networking ainda melhor.
Durante oito dias, banqueiros, empreendedores, industriais e grandes produtores rurais trocam os camarotes das pistas por carros e motos; passam horas cobertos de sujeira; dividem problemas mecânicos; e terminam o dia comemorando os desempenhos – ou lamentando as dificuldades.
Depois de um dia de prova, não é incomum encontrar o dono de uma companhia bilionária sentado de chinelo na mesma mesa que seus mecânicos.
“No Rally dos Sertões é onde existe uma simplicidade e onde quase todo mundo é igual,” Leonora Guedes, CEO do Sertões, disse ao Page9.
Essa mistura de esporte, aventura e relacionamento ajudou a transformar uma prova criada há mais de três décadas em uma plataforma que movimenta cerca de R$ 250 milhões por ano.
O valor inclui inscrições, patrocínios, licenciamento e turismo, além dos gastos diretos e indiretos dos competidores e equipes com veículos, equipamentos e logística.
O Rally dos Sertões e o Sertões Series respondem por cerca de 70% desse total, ou R$ 175 milhões. O mountain bike já movimenta R$ 62,5 milhões; e o kitesurf, R$ 12,5 milhões.
O perfil de quem está atrás do volante ajuda a explicar os números.
Apenas cerca de 10% dos pilotos são profissionais. Entre os demais, Leonora estima que 40% sejam empresários, 20% grandes produtores rurais e 40% executivos C-level.
A lista inclui Leandro Torres, cofundador do C6 Bank; Marcos Ermírio de Moraes, da família controladora da Votorantim; integrantes da família Baumgart, da Vedacit; e da família Varela, do Divino Fogão.
E não se trata exatamente de um passatempo com custo trivial.
Um pacote para disputar o Rally de UTV – uma espécie de buggy off-road – com veículo alugado, estrutura e logística pode custar cerca de R$ 500 mil.
Quem prefere ter o próprio UTV desembolsa aproximadamente R$ 550 mil apenas pelo veículo. Na categoria T1+, há carros que chegam a € 600 mil.
“Quando você traz esses custos, automaticamente já tem uma definição do seu público,” disse Leonora. “É um público triple A que tem no off-road e no automobilismo um hobby.”
Pedro Mac Dowell, fundador e CEO do unicórnio QI Tech, tem exatamente esse perfil.
Mac Dowell começou a pilotar no fim de 2020. Entrou pelas provas menores, venceu categorias de base e foi avançando até chegar à UTV1, a principal divisão da modalidade.
Hoje, ele disputa entre dez e 12 provas por ano e chegou a ocupar a segunda posição na classificação geral do campeonato brasileiro.
A dedicação está longe de ser a de um piloto de fim de semana. Antes do Rally dos Sertões, Mac Dowell chega a passar dois dias rodando cerca de 300 quilômetros para testar suspensão, pneus, calibragem e outras configurações do carro.
Na competição principal, são oito etapas consecutivas, com percursos que podem variar de 300 a 600 quilômetros por dia e jornadas de quase dez horas dentro do veículo.
Isso não quer dizer que ele tenha deixado o trabalho completamente para trás.
Ao contrário: Mac Dowell calcula que pelo menos cinco grandes clientes da QI Tech vieram de relacionamentos construídos no Rally dos Sertões.
“Como tem bastante empresário correndo, todo mundo é curioso. ‘Você mexe com o quê? O que você faz? Como funciona?,” disse o fundador da QI Tech. “E aí fechamos negócios.”
Leonora compara o ambiente aos camarotes corporativos da Fórmula 1, que muitas vezes funcionam mais como pontos de relacionamento do que como lugares para assistir à corrida.
“O Sertões é isso. Só que a diferença é que você tem uma imersão de oito dias,” disse. “É um celeiro de negócios. É uma plataforma de networking.”
Mas nem tudo é perrengue.
Boa parte dos competidores está acostumada a um padrão de conforto que não desaparece completamente quando a caravana chega a uma cidade de 4 mil habitantes no interior do Brasil: o luxo apenas fica mais rústico.
Muitas equipes levam motorhomes, chefs de cozinha, fisioterapeutas e massagistas.
Essas estruturas viram pontos de encontro depois das provas. Mac Dowell diz que sua equipe tem cerca de dez pessoas, mas costuma pedir comida para 20.
“Sempre tem gente chegando,” disse.
Um piloto aparece para saber o que aconteceu com o carro do outro; um almoça numa equipe e janta em outra. Aos poucos, a conversa sobre pneus, quebras e tempos abre espaço para trabalho e negócios.
Dentro da pista, no entanto, não existe tratamento VIP. Se o pneu furar, piloto e navegador precisam resolver o problema sozinhos.
A relação desses empresários com o esporte também ajudou o Sertões a encontrar sua próxima avenida de crescimento.
A organização percebeu que o mesmo cliente que pilota muitas vezes também pratica outros esportes de aventura. Foi daí que surgiram duas novas verticais: kitesurf e mountain bike.
“Ao invés de ter dez Rally dos Sertões, que tem uma estrutura gigantesca, fazia mais sentido trazer outros esportes,” disse Leonora.
No kitesurf, que já movimenta R$ 12,5 milhões, a concentração de empresários é tamanha que Leonora o define como “o evento mais Faria Lima que a gente tem”.
Já o mountain bike representa 25% dos R$ 250 milhões movimentados pela plataforma.
Em uma prova recente em Nova Lima, o Sertões reuniu 305 e-mountain bikes. Com bicicletas que custam entre R$ 50 mil e R$ 150 mil e têm preço médio próximo a R$ 100 mil, eram cerca de R$ 30 milhões em equipamentos numa única competição.
Parece que a poeira nunca valeu tanto dinheiro.














