Herdar uma participação não garante vocação para administrar

Herdar uma participação não garante vocação para administrar

Decidir sucessão exige preparo, capacidade de assumir responsabilidades e, acima de tudo, uma boa dose de confiança

O pai esperou que servissem o risoto de lagosta para anunciar que passaria o comando da empresa. A mãe pousou os talheres, o mais velho endireitou a postura e a filha largou o celular. O caçula continuou comendo. Tinha ouvido a mesma promessa no Natal e deixara o bacalhau esfriar à toa.

Dessa vez, era sério: o fundador queria descansar, viajar e aproveitar os netos. Já escolhera o destino. A data dependeria de como as coisas estivessem na empresa.

A cena é imaginária, mas talvez encontre alguns conhecidos pelo caminho. O mais velho se considerava o candidato natural. Estava no negócio havia quinze anos, informação que repetia com a regularidade de quem cobra uma dívida. A irmã tinha estudado fora do Brasil e trabalhado em outras empresas. O pai se orgulhava de ter investido na formação dela, mas gostava menos quando ela tentava usar o que aprendera.

O caçula queria ser arquiteto. Ainda não sabia como comunicar isso sem parecer que estava renunciando à família e à própria certidão de nascimento.

Em poucos minutos, a discussão recuperou o intercâmbio da filha e o carro dado ao mais velho aos 18 anos. Faltava buscar os boletins escolares para completar a avaliação dos candidatos. A mãe lembrou que amava todos igualmente. Os filhos concordaram, embora cada um guardasse documentação para contestar.

Escolher quem dirigirá uma empresa exige avaliar preparo, interesse e capacidade de assumir responsabilidades. Na família, a decisão pode soar como um comunicado oficial sobre quem deu mais certo na vida.

Uma pesquisa divulgada pela Robert Half em abril mostrou que 78% dos gestores estavam preocupados em identificar sucessores capazes de sustentar suas operações até 2035. O levantamento abrange empresas de diferentes perfis. Na família do nosso almoço, havia uma dificuldade adicional: qualquer avaliação podia terminar com um “você sempre preferiu sua irmã”.

Herdar uma participação não garante vocação para administrar. O caçula poderia projetar casas e continuar sendo um acionista responsável, desde que aprendesse a acompanhar resultados, riscos e decisões sobre o patrimônio.

Contratar um executivo de mercado também era uma possibilidade. A sugestão foi recebida com o entusiasmo de uma cobrança indevida. Para comandar a empresa, esperava-se que o candidato ideal já aparecesse nas fotografias das férias.

Depois de meses de conversas e preparação, a filha foi escolhida. O irmão permaneceu no financeiro, e o caçula foi estudar arquitetura. O pai discursou sobre abrir espaço para a nova geração. Na segunda-feira, ele chegou antes da nova presidente.

Estava apenas de passagem. Aproveitou para participar de uma reunião, telefonar para um cliente e rever uma contratação aprovada pela filha. Antes do almoço, já havia tomado três decisões e perguntado por que ela parecia tão tensa.

Os funcionários entenderam depressa: quando gostavam da resposta dela, seguiam em frente; quando não gostavam, procuravam o pai. A empresa ganhara uma presidente e mantivera um balcão de recursos no fim do corredor.

O fundador queria as manhãs livres, mas não sabia o que fazer numa terça-feira às 10h sem alguém esperando sua autorização. Precisava encontrar outra forma de contribuir, enquanto a filha precisava de espaço para decidir e responder pelos resultados.

Combinaram atribuições e limites de intervenção. Tudo por escrito. A memória da família era excelente para o carro dado em 2004, mas falhava diante do acordo da semana anterior.

No domingo seguinte, o pai chegou com uma pasta. A mãe apontou para o aparador. Ele obedeceu e conversou sobre os netos, a viagem e os projetos do caçula até a sobremesa. Então se inclinou na direção da filha:

“Só uma coisa sobre aquele fornecedor…”

“Amanhã na reunião, pai.”

Ele olhou para a mulher, à espera de apoio. Ela pediu que servissem mais vinho para a presidente. Dessa vez, só a filha estendeu a taça.

Anna Zarzur é conselheira de empresas, fundadora do Grupo Wood e acionista da EZTEC.

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