Gloria Steinem passou a vida na estrada.
Não é uma metáfora.
Durante mais de quatro décadas, passou pelo menos metade de seu tempo viajando. Aviões, táxis, universidades, campanhas eleitorais, reuniões comunitárias, marchas e, sobretudo, conversas com desconhecidos.
Curiosamente, nunca tirou carteira de motorista.
A mulher que ajudou milhões de outras mulheres a conquistar autonomia dependia de alguém para levá-la de um lugar a outro.
Gloria morreu esta semana, aos 92 anos, em sua casa em Nova York. Deixa uma obra extraordinária como jornalista, escritora e ativista, mas talvez a melhor maneira de entendê-la esteja num livro que publicou já aos 81 anos: My Life on the Road.

Não é exatamente uma autobiografia.
É uma coleção de encontros.
E isso diz muito sobre ela.
Steinem nasceu em Ohio, em 1934, numa família que raramente ficava parada. Seu pai, Leo, era comerciante de antiguidades e atravessava os Estados Unidos com a família em busca de oportunidades.
Da mãe, Ruth, recebeu uma lição diferente.
Antes de se casar, Ruth havia sido jornalista. Abandonou a profissão, tornou-se financeiramente dependente e sofreu problemas de saúde mental. Quando os pais se separaram, Gloria, ainda muito jovem, passou a cuidar dela.
As duas experiências parecem atravessar tudo o que Steinem faria depois.
Do pai, ficou a estrada.
Da mãe, a compreensão do preço que uma mulher podia pagar por não ter independência.
Depois de se formar em Smith College, foi para a Índia. Voltou aos Estados Unidos e tentou ser jornalista numa época em que as redações tinham ideias bastante específicas sobre os assuntos que mulheres deveriam escrever.
Em 1963, aos 29 anos, infiltrou-se no Playboy Club de Nova York como uma “bunny”.
Passou semanas de salto alto e uniforme apertado observando as condições de trabalho das mulheres. Depois publicou uma reportagem em duas partes sobre o que havia encontrado.
A matéria a tornou conhecida.
E quase a aprisionou naquela personagem.
Durante algum tempo, editores enxergavam as orelhas de coelho antes de enxergarem a jornalista.
Era uma pequena amostra do problema ao qual dedicaria o resto da vida.
O momento decisivo viria em 1969, quando Steinem foi cobrir uma audiência sobre aborto em Nova York e ouviu mulheres relatarem suas experiências. Ela própria havia feito um aborto aos 22 anos, em Londres.
A jornalista começou a se transformar em ativista.
E ajudaria a mudar não apenas a condição das mulheres americanas, mas o vocabulário usado para falar sobre elas.
Aborto. Violência doméstica. Discriminação no trabalho. Dinheiro. Poder.
Assuntos relegados durante gerações à esfera privada passaram para a arena pública.
Steinem nunca fez isso sozinha.

Talvez uma das qualidades mais interessantes de My Life on the Road seja justamente sua resistência à tentação de contar a história do feminismo como a história de uma única mulher.
Dorothy Pitman Hughes, ativista negra e organizadora comunitária, tornou-se sua parceira de palestras. As duas percorreram os Estados Unidos falando para plateias e construíram uma poderosa aliança pública num movimento que também precisava confrontar suas divisões de raça e classe.
Mas Hughes foi muito mais que a mulher da fotografia. Já era uma importante organizadora comunitária quando conheceu Steinem e ajudou a jornalista, naturalmente reservada, a encontrar uma voz diante das multidões.
Em 1971, Steinem ajudou a fundar o National Women’s Political Caucus ao lado de mulheres como Betty Friedan, Shirley Chisholm e Bella Abzug.
Abzug se tornaria uma das pessoas mais importantes de sua vida.
Congressista por Nova York, advogada, barulhenta, combativa e quase sempre sob enormes chapéus, Bella parecia em muitos aspectos o oposto de Gloria.
As duas compartilhavam, porém, uma convicção: não bastava mudar a maneira como mulheres pensavam sobre o poder. Era preciso colocá-las onde o poder era exercido.
No ano seguinte veio a Ms.
A revista levou para o mainstream americano discussões que até então raramente chegavam às grandes publicações.
Hoje isso parece jornalismo.
Na época, parecia revolução.

Steinem também se tornou uma das vozes mais reconhecíveis da campanha pela Equal Rights Amendment, que pretendia inscrever explicitamente na Constituição americana a igualdade de direitos independentemente do sexo.
O Congresso aprovou a emenda em 1972.
Parecia uma questão de tempo até sua ratificação.
Não aconteceu.
Em 1973, a Suprema Corte decidiu Roe v. Wade, reconhecendo proteção constitucional ao direito ao aborto.
Para uma mulher que aos 22 anos precisara procurar um médico em Londres para interromper uma gravidez, a distância percorrida devia parecer extraordinária.
Naqueles mesmos anos, outra mulher travava uma batalha paralela. Ruth Bader Ginsburg usava os tribunais para questionar, caso a caso, leis que tratavam homens e mulheres de maneira diferente. Steinem disputava a cultura e a política. Ginsburg, o direito. Décadas depois, Ginsburg chegaria à Suprema Corte.
A trajetória das duas ajuda a medir a dimensão daquela transformação: direitos não mudam apenas quando juízes escrevem decisões. Mudam também quando uma sociedade começa a enxergar como injustiça aquilo que antes aceitava como normal. E mudam de volta.
Em 2022, aos 88 anos, Steinem viu a Corte derrubar Roe v. Wade.
Quase meio século de proteção constitucional desapareceu.
A estrada, afinal, não seguia apenas para a frente.
Mas limitar a importância de Gloria Steinem aos Estados Unidos seria perder parte da história.
Ela se tornou um dos rostos mais reconhecíveis de uma transformação que atravessou fronteiras. Viajou pelo mundo, encontrou movimentos de mulheres em culturas muito diferentes da sua e ajudou a levar questões antes tratadas como privadas — autonomia sobre o corpo, violência, trabalho, dinheiro e representação — para uma conversa internacional.
Não inventou essas lutas.
Mulheres já as travavam, em diferentes línguas e circunstâncias, muito antes dela.
Seu talento foi outro: amplificá-las, conectá-las e ajudar a criar uma linguagem capaz de viajar.
A própria formação política de Steinem começou longe de casa.
Na Índia, ainda jovem, encontrou mulheres e ativistas gandhianos e descobriu algo que carregaria pelo resto da vida: antes de tentar organizar pessoas, era preciso ouvi-las.
Décadas depois, essa mesma curiosidade a aproximaria de Wilma Mankiller, a primeira mulher eleita principal chief da Cherokee Nation e uma de suas grandes amigas.
Steinem encontrou nas comunidades indígenas americanas outras maneiras de pensar liderança, comunidade e poder.
Talvez essa capacidade de ouvir seja uma parte subestimada de seu legado.
Apesar de ter se tornado uma das mulheres mais reconhecíveis do século XX — os óculos aviador, o cabelo repartido ao meio, a voz calma —, ela frequentemente sai do centro da própria história em My Life on the Road.
Os protagonistas aparecem e desaparecem: taxistas, estudantes, comissárias de bordo, mulheres indígenas, políticos, organizadores comunitários.
Steinem parece menos interessada em contar onde esteve do que em contar quem encontrou.
Para ela, a estrada era uma espécie de antídoto para a certeza.
Viajar significava sair da teoria e encontrar a vida real.
Talvez por isso sua influência tenha viajado tão bem.
Steinem não oferecia às mulheres uma nova maneira correta de viver. Questionava a existência de uma maneira correta.
Essa diferença é enorme.

Em 2013, Barack Obama lhe entregou a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior condecoração civil americana.
Dois anos depois, aos 81, publicou My Life on the Road.
Continuou escrevendo, viajando e participando da vida pública muito depois da idade em que o mundo costuma conceder às mulheres o direito — ou impor a obrigação — de desaparecer.
E morreu com mais um livro a caminho.
An Unexpected Life, seu novo livro de memórias, será publicado este mês.
É difícil imaginar um título melhor.
Há uma tendência, quando morrem personagens dessa dimensão, de transformá-los rapidamente em monumentos.
Steinem provavelmente resistiria à operação.
Preferia movimento a monumento.
Talvez a medida mais duradoura de sua influência esteja menos nas escolhas que defendeu do que no direito de cada mulher fazer as suas.
Ter filhos ou não.
Casar ou não casar.
Trabalhar. Ganhar dinheiro. Viajar.
Ficar.
Partir.
Recomeçar.
Escolher.
Essa ideia ultrapassou os Estados Unidos porque não exigia que todas as mulheres quisessem a mesma vida.
Exigia justamente o contrário.
No fundo, talvez seja essa a ideia que atravessa My Life on the Road.
Liberdade não significa que todas cheguem ao mesmo lugar.
Significa poder escolher a própria estrada.
Gloria Steinem passou boa parte dos seus 92 anos escolhendo a dela — e ajudou milhões de mulheres a perceber que também podiam escolher as suas.














